Cíntia Dal Bello

Tempo e tele-existência na nulodimensionalidade ciberespacial: do ser-para-a-morte ao ser-para-sempre nas redes sociais

No fluxo informacional que percorre a rede física de devices interconectados, tudo jaz reduzido à combinação dinâmica de zeros e uns – o que permite pensar o cyberspace como exemplo radical do conceito flusseriano de nulodimensionalidade, mundo das imagens-técnicas, dos mosaicos e dos cálculos. Trata-se de um contexto (muito mais do que um “lugar”) inabitável e abismal, em que todos os tempos de todos os lugares convergem sob o ritmo alucinante do tempo real ou tempo máquina. Para adentrá-lo, é preciso espectralizar-se – processo em que o usuário despe-se de tudo, inclusive do corpo próprio, para comparecer e manifestar-se como projeção de si. Tal experiência antropológica, ímpar, possível desde a invenção das tecnologias do glocal, ganhou novos contornos com a emergência das redes sociais digitais, inicialmente chamadas de “comunidades virtuais” exatamente porque o arranjamento gráfico compõe bases de apresentação e encontro recorrentes, relativamente “estáveis” ou “fixas” em meio à inconstância dos fluxos informacionais. Como plataformas de autoexposição e relacionamento na nulodimensionalidade ciberespacial, as redes sociais digitais exemplificam perfeitamente a ideia de Virilio sobre colonização do tempo real (posta desde a discussão sobre a abolição do espaço pelas tecnologias do tempo-máquina); nelas, a tele-existência espraia-se pelo cotidiano e sobrepõe-se, quando não sequestra mesmo, o tempo de existência, reescrevendo-o e automaticamente espectralizando-o em prol de aplacar – talvez! – uma velha nova angústia: o avançar do tempo.

Tal proposta implica pensar toda mídia como exercício humano de re-existência: da estratégia de conservação ou duplicação da presença mediante as sombras da velhice e da morte (inscrição histórica) ao alinhamento junto à falange dos espectros e fantasmas ciberespaciais (escalada abstracional ou inscrição pós-histórica correlatas ao conceito de nulodimensionalidade).

Por fim, o texto também relacionará, contrapondo, os termos telepresença e tele-existência aos conceitos heideggerianos de presença e existência para pensar a questão do tempo nas redes sociais digitais. Sabe-se que presença (ser-no-mundo) e existência (ser-para-a-morte) comparecem imbricados na experiência do ser, entrelaçando corpo, espaço e tempo em um nó de transcendência – toda presença é presença compartilhada (ser-com) e existir é vir-a-ser, devir, ato de conhecer e autorrefletir-se (o para-si sartreano). Quando o espaço é abolido, como é possível ser sem estar? Telepresença é ser-na-ausência (ausência do corpo próprio, do corpo do outro, de referenciais concretos – tal como é a nulodimensionalidade); e apesar do discurso que caracteriza as plataformas virtuais como site de relacionamento onde é possível compartilhar tudo, fazer-se presente à distância implica ser-sem – não há presença efetiva, mas efeitos de presença.

E, se a consciência da finitude (reconhecimento de que há um futuro e de que nele reside a realidade da morte) produz algum sentido para cada dia de vida, a negação da morte (com a intensificação da vivência no presente) produz uma espécie de negação da vida, já que o modo de operação always on requer parte do tempo para a atividade de registrar o cotidiano, quando não constrange ou modifica as situações de vida para que se encaixem em um padrão de visibilidade. Segue-se do ser-para-a-morte, produtor de transcendência (existência), para o ser-para-sempre, produtor de cristalizações (tele-existência) e fragmentos que mesmo a Linha do Tempo do Facebook não consegue dar sentido. Sejam todos bem vindos à pós-história e à nulodimensionalidade flusseriana.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s