Lucia Santaella

As ambivalências das cidades inteligentes

O tema das cidades inteligentes começou a surgir nos anos 2000 para se transformar hoje em uma constante. A razão para isso encontra-se não apenas no crescimento desmesurado das megalópoles e no surgimento contínuo de novas metrópoles, mas também na expansão crescente da internet nos espaços domésticos, públicos, corporativos, governamentais e sua correspondente incorporação na necessária infraestrutura material das cidades. De fato, as cidades estão ficando cada vez mais inteligentes à medida que capacidades de processamento de informação vão se enraizando e se espalhando por toda a infraestrutura urbana. O campo de que depende o desenvolvimento das cidades inteligentes é o campo da governança e da administração governamental. Assim, a e-governança e política 2.0 referem-se a serviços ubíquos de governo, engajamento e participação dos cidadãos, envolvendo, por exemplo, serviços e ontologias de informação semântica governamental. Hoje, a maioria dos sistemas é informatizada e a população está cada vez mais conectada a diferentes mídias e nas redes sociais, o que resulta em volumes gigantescos de dados que implicam coleta, armazenamento das informações e integração de muitas fontes e tecnologias. Para isso, o parque tecnológico tem que ser robusto com vistas à identificação e classificação das informações essenciais para a tomada de decisões. Se, de um lado, a inteligência urbana tornou-se inevitável para o gerenciamento e administração dos serviços governamentais, por outro lado, tudo isso se constitui em uma verdadeira apoteose da sociedade de controle e da vigilância, tal como foi pensada por Gilles Deleuze. Diante disso, o objetivo deste trabalho é refletir sobre as ambivalências das cidades inteligentes, naquilo que se ganha e naquilo que se entrega às cegas para a obtenção desses ganhos.