Big tech, big brother: alguns impactos humanos e sociais da Covid-19

As consequências da pandemia — e das medidas adotadas contra ela — levam a questões como maior dependência de tecnologias, controle social e censura

Por Marcelo de Mattos Salgado — Última atualização em 13/4/2021

ABSTRACT
This article summarizes and analyzes some of the more immediate consequences of the Covid-19 pandemic and key measures taken around the world to deal with it. From increasing psychological issues, such as depression and anxiety, to economic ruin, massive unemployment and the forced protagonism of distance learning, society is largely pushed into using even more digital technologies — from social networks to delivery apps and various online fun options. This may intensify grave issues such as digital dependency and the concentration of private data and power in the hands of very few people — mainly, governments and the big tech industry — which, amid recent events, bring up discussions around authoritarianism and censorship.


Desde o início da pandemia de Covid-19, no primeiro trimestre de 2020, o pensar e o fazer científicos foram profundamente afetados, bem como todas as áreas de ação humana.

Para quem estudava mídias digitais, questões como o tempo — abordado pelo Sociotramas em 2012 — já não eram simples. Após esta pandemia, as bases de causa e efeito, rotinas e padrões sofreram tantas mudanças essenciais que a mera tentativa de analisar o novo quadro é opressiva.

Mesmo o início da pandemia, até o momento rastreado a Wuhan, na China, ainda é incerto, e as investigações prosseguem. Fato que reforça a complexidade das consequências de pandemias é que mesmo suas origens são misteriosas. Por exemplo: a denominada gripe espanhola, que explodiu no mundo em 1918 e matou entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas (a depender da fonte), teria surgido na China, segundo estudo canadense de 2014. Isto continua em questão.

Neste texto, em vez das questões primárias da pandemia de Covid-19, o eixo será parte de suas consequências que, como outras pragas históricas e suas gêneses, são tão complexas quanto misturadas ao caos que infligem. O efeito mais óbvio e nefasto da atual pandemia, claro, é a infecção e morte de pessoas por todo o planeta: segundo o Worldometer, em 19 de fevereiro de 2021 já havia mais de 111 milhões de infectados em todo o mundo, com quase 2,5 milhões de mortos e mais de 85 milhões de pessoas que se recuperaram do vírus.

Ruína material

Outras consequências bastante concretas da Covid-19 incluem a destruição de economias mundo afora, com taxas recordistas de desemprego que podem levar, segundo dados do Fórum Econômico Mundial, até 115 milhões de pessoas para a extrema pobreza. A pandemia também contribuiu para aumentar a concentração de renda por todo o planeta, já que, em momentos de crise econômica — especialmente tão graves — grandes empresas tendem a resistir. Os pequenos, entretanto, quebram; e, muitas vezes, são obrigados a vender, por baixos preços, seus negócios aos empresários e grupos mais robustos.

Em nível mundial, de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional, a única economia de um país de grande porte que cresceu em 2020 foi a da China, em 2,3%. Os demais países e regiões sofreram com muito mais força o impacto da Covid-19: segundo prévias do Banco Mundial, em 2020, a economia dos EUA diminuiu em 3,6% e a zona do euro despencou em 7,4%.

As sequelas derivadas deste colapso econômico são muito difíceis de serem mensuradas — ao menos, por agora, já que ficarão mais evidentes apenas em alguns anos. Mas é uma aposta segura que a destruição das economias e desemprego maciço mundo afora provocam mais devastação nas vidas de pessoas, famílias e sociedades inteiras. Aliás, tentar separar impactos humanos e sociais dos econômicos não faz sentido algum: ambos estão fortemente conectados. Não é por acaso que a ciência econômica é, também, uma ciência social.

Efeitos invisíveis

Para além da dimensão mais tangível de seus impactos, há desdobramentos mais sutis — mas não menos importantes — da pandemia. Um estudo brasileiro publicado em fevereiro de 2021, com 3 mil participantes, traz um pouco de concretude científica a questões mais abstratas: mostra o impacto psicológico da praga atual. Importante destacar que não apenas a própria pandemia tem efeitos psicossociais, mas também — senão especialmente — os resultados das políticas comumente adotadas para lidar com a Covid-19, tais como o uso constante de máscara, distanciamento social e quarentenas de severidades variáveis.

Segundo o referido estudo, quase metade dos participantes apresentou sintomas de depressão (46,4%), ansiedade (39,7%) e estresse (42,2%). Estes índices foram maiores em mulheres, pessoas sem filhos, estudantes, pacientes com doenças crônicas e pessoas que tiveram contato com pacientes diagnosticados com a Covid-19. Atrevo-me, neste texto, a deixar algumas conjecturas para médio e longo prazos quanto aos efeitos da pandemia e medidas adotadas, como uso de máscaras, distanciamento social e quarentenas: as doenças mentais e suicídios vão aumentar muito além do que se espera agora e as taxas de natalidade vão despencar (mais ainda, no caso de países ocidentais) por consequência do vírus e medidas subsequentes que, necessariamente, isolam ou, no mínimo, criam muita distância física entre as pessoas e as destreinam — mais ainda do que as tecnologias digitais já o faziam — para relacionamentos presenciais. No ambiente pós-pandemia, novos casais vão se formar com muito mais dificuldade; além disso, a desconfiança se tornará um problema ainda maior, para não falar dos problemas financeiros que desencorajam futuros pais e mães. Destaco que não me cabe (e nem tenho competência para) questionar, aqui, se as medidas usadas para lidar com a pandemia são adequadas ou as melhores possíveis.

Imagem gratuita (fonte)

EAD em alta

Outra mudança que já traz consequências psicológicas e sociais imediatas para toda uma geração de crianças e jovens, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento — e, assim, para toda a sociedade e seu futuro — é a necessidade forçada do ensino a distância (EAD). Aqui, para simplificar, chamo de EAD tanto o ensino a distância solitário quanto o ensino remoto, que conta com professores. Antes da Covid-19, o EAD era somente uma escolha e uma possibilidade; agora, ao menos em parte, trata-se de uma realidade quase inescapável, um protagonismo obrigatório do mesmo. Isto, para quem tem acesso a um computador e à Internet, o que já exclui uma parcela das pessoas sem as condições materiais básicas — sobretudo, em países mais pobres.

Segundo a Unesco, em 23 de abril de 2020, quase 1,5 bilhão de estudantes — ou 84,5% de todos os alunos registrados — em 165 países foram afetados pelo fechamento de escolas em todo o planeta. Mais recentemente, em fevereiro de 2021, este número recuou para 220 milhões de estudantes (12,7% das matrículas) impactados pela pandemia em 28 países. Apesar dos efeitos já muito reduzidos sobre o fechamento de escolas, a pandemia de Covid-19 pode ter consequências a longo prazo quanto à popularidade do EAD, seja de forma intensiva ou híbrida, com parte das aulas presenciais. Uma de suas vantagens é a redução de custos, tanto para a instituição educacional quanto para os estudantes.

Por outro lado, um relatório técnico publicado por comitê da União Europeia no segundo semestre de 2020 indica que a qualidade do aprendizado por parte dos estudantes sofrerá um revés. Os motivos: a urgência provocada pela pandemia pegou instituições, professores e alunos de surpresa, de tal forma que não foi possível um preparo adequado para a educação maciça via digital. Ainda por cima, quase 70% dos professores nunca haviam lecionado a distância e, por fim, existem os problemas técnicos, como acesso à Internet, configurações dos computadores etc.

Big tech, big brother

Fato: as mudanças trazidas direta e indiretamente pela pandemia que começou em 2020 nos empurram, de forma geral, mais ainda para dentro dos ambientes digitais. Sejam o isolamento social e as quarentenas, que reduzem as opções de socialização e diversão e tornam o uso de redes sociais e serviços como Netflix, iFood e games online mais prevalentes e atraentes, o trabalho digital de casa (home office, no Brasil) ou o EAD. A iminência da explosão do 5G como tecnologia de transmissão de dados em escala mundial também se encaixa de forma curiosamente adequada no cenário atual.

As implicações físicas, psicológicas, emocionais e sociais deste aprofundamento do uso de tecnologias digitais — algumas das quais, já pinceladas a respeito aqui — não podem ser subestimadas. No que pode ser visto como um novo experimento social e tecnológico em escala planetária, é razoável dizer que já ficamos mais dependentes de redes e serviços digitais. Também por isso, gigantes digitais como Alphabet (Google), Amazon, Apple, Facebook, Microsoft e Twitter, chamados de big techs, tiveram um ano de 2020 glorioso. Em geral, suas ações dispararam e os ganhos foram bilionários. Em outras palavras: quem já era muito poderoso ficou mais ainda. Perceba que isto se coaduna perfeitamente com a antes referida concentração de renda, consequência da pandemia e das medidas derivadas.

Desde 2012, na obra original então traduzida no Brasil como “A sociedade da transparência” (2014), o filósofo germano-coreano Byung Chul-Han fala sobre questões de fluxo de informações, controle em ambientes digitais e se refere à figura do panóptico de Jeremy Bentham — grosso modo, a prisão ou sistema de vigilância perfeito:

O panóptico digital do século XXI é desprovido de perspectiva, no sentido em que não é vigiado a partir de um centro único pela onipotência do olhar despótico. Desaparece por completo a distinção entre centro e periferia, distinção constitutiva do panóptico de Bentham […]. Enquanto os habitantes do panóptico de Bentham têm consciência da presença constante do vigilante, os que habitam o panóptico digital creem estar em liberdade (ibid., p. 67 e 68).

O panóptico, por Jeremy Bentham. Fonte: “The works of Jeremy Bentham”, vol. IV, 172-3. Domínio público

Ainda no fim de 2015, com o livro “Cidades inteligentes: por que, para quem?” publicado em 2016 pelo Sociotramas, escrevi artigo em que alertei, a partir de Han, para o grave risco autoritário de concentração de poder em dois grupos específicos: autoridades estatais (governos) e gigantes digitais ou big techs (empresas). Isto acontece, sobretudo, pelo que Han chama de saturação positiva na sociedade, tal que as pessoas, em geral, se acostumam a usar recursos digitais tão intensamente e a revelar seus dados ao Estado e a empresas que sequer questionam tais atos. São indivíduos cada vez mais passivos enquanto suas informações, desde curtidas, fotos e currículo até dados biométricos, são recolhidas e usadas — pessoas que desaprendem a dizer “não”. Elaborei assim:

A falta de negatividade implica consequências muito mais graves, já que, na sociedade positiva, as pessoas tendem a acatar — sem confronto algum — as demandas do Estado e de corporações (como Google e Facebook) por suas informações. […] E como evitar que o poder de administrar todas essas informações — e, por tabela, controlar as vidas de milhares ou milhões de pessoas — fique limitado a poucos mestres do panóptico digital, guardiões (quase) invisíveis da sociedade positiva? […] talvez apenas a partir da capacidade para o “não” seja possível confrontar a sedutora mesmice prototirânica, e aparentemente inócua, da sociedade positiva […] (ibid., p. 47 e 48).   

Concordo com Han quando diz que, no panóptico digital, todos vigiam todos — isto fica mais evidente neste cenário atual de hiperdependência digital por conta da emergência pandêmica, conforme já caracterizado. Mas também me parece nítido que há uma concentração de poder e dados cada vez maior nas mãos de um grupo bem pequeno de burocratas e de empresários poderosíssimos. Mergulhei mais profundamente nisto em textos sobre blockchain, publicados no Sociotramas em blog e livro (2020), quando abordei a severa crise de confiança que aflige a sociedade ocidental. Mas a confiabilidade também é uma questão histórica fundamental de um certo gigante asiático para o qual nosso olhar precisa voltar.

De volta à China

Em 2019, pude abordar a questão do crescente controle estatal via tecnologias digitais com mais atenção em texto para este blog em que analisei o caso superlativo do sistema de crédito social chinês — exemplo mais intenso de controle maciço com uso de tecnologia digital de ponta pelo aparato governamental. Ali, também pude tocar na questão da confiança e como ela é historicamente tratada pelos governantes (e ditadores) chineses em relação à população.

Hoje, a China é o elefante na sala do mundo: caso muito peculiar de governo regido por um partido único, o Partido Comunista Chinês (PCCh), que efetivamente se funde com o setor privado, controlado com mão de ferro e um líder perpétuo no poder: Xi Jinping. Além da falta de transparência desde o início da pandemia e, a partir de então, as agressões oportunistas a Taiwan, Hong Kong e Índia, médicos, jornalistas e empresários somem ou são presos constantemente e empresas mundo afora são intimidadas (e cedem, quase sempre) pelos caprichos geopolíticos do PCCh. Também há fortes evidências, já reportadas por CNN, Al Jazeera e muitas outras mídias, ao menos desde 2019, de campos de “reeducação” onde minorias étnicas e religiosas — na maioria, uighures e cristãos — sofreriam horrores, caso similar ao de mulheres tibetanas, inclusive de freiras, vítimas de tortura e estupro por parte de guardas e funcionários do PCCh. Em fevereiro de 2021, o presidente dos EUA, Joe Biden, atribuiu o que a China “está fazendo com os uighures nas montanhas a oeste da China” a “normas culturais diferentes”.

Em março de 2020, Han escreveu em artigo no El País que a Ásia teria algumas vantagens em relação à Europa para lidar com a pandemia:

Estados asiáticos como o Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado.

Vale questionar se, no caso dos cidadãos chineses, eles realmente “confiam” no Estado ou se têm tanto medo de seu histórico no país e do aparato de controle atual que não veem outra escolha — mas de certa forma, na prática, ao seguir as normas estatais tão estritamente, é como se confiassem. O filósofo destaca, ainda, que países asiáticos apostam firmemente na vigilância digital para enfrentar o vírus e que seus apologistas diriam que o big data “salva vidas humanas”. Han foca sua análise no país que merece a maior atenção: “Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais são controlados”. O autor lembra que, na China, quem atravessa no sinal vermelho, tem contato com críticos do regime e/ou coloca comentários críticos nas redes sociais perde pontos. Entre as dez cidades do mundo com mais câmeras por habitante, nove são chinesas — só Londres aparece como elemento diferente e, claro, sem as outras peculiaridades da realidade chinesa já citadas aqui. É impossível criar uma falsa equivalência para quem tem senso das proporções, sobretudo porque, na China, como mencionei, o Estado controla quase totalmente o que seria o setor privado e concentra muito mais poder do que outras burocracias pelo mundo. Han conclui:

Na China, essa vigilância social é possível porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os fornecedores da Internet e de telefonia celular e as autoridades. Praticamente não existe a proteção de dados. No vocabulário dos chineses não há o termo “esfera privada”.

Máscaras e mordaças

Para completar esta análise de um momento mundial em que, ironicamente, somos obrigados por necessidade sanitária a usar máscaras físicas, vale destacar a presença cada vez mais abundante — legal e moral, ou não — do uso de mordaças digitais: suspensão de perfis, banimento de pessoas e cultura do cancelamento que não conhecem limites. Em fevereiro de 2021, para dar apenas um exemplo de decisão neste sentido, o Instagram — que pertence ao mesmo dono do Facebook, Mark Zuckerberg — decidiu censurar não somente posts públicos, mas mensagens privadas, de modo a limpar o espaço do que definem como discurso de ódio. As punições podem chegar ao banimento de usuários. Sobre o uso de “censura” neste texto, inclusive como verbo: uso a expressão de forma mais abrangente, não apenas como restrição à liberdade de expressão por parte de uma autoridade estatal. Inclusive, porque as big techs têm, hoje, poder e influência que rivaliza com alguns estados-nacionais — ou mesmo se mistura a essas estruturas, por meio de enormes pressões políticas, doações milionárias para campanhas e lobbying sem igual.

É fundamental mencionar as duas situações mais graves de controle e censura nas redes em 2020 e 2021, ao menos até agora. A primeira foi o acobertamento e censura das redes sociais do NY Post, a começar pelo Twitter. O quarto maior jornal dos EUA trouxera, pouco antes das eleições de 2020, matéria com base em registros documentais (texto e vídeo) abundantes a partir de um laptop que faria uma conexão criminosa entre Hunter Biden, filho do agora presidente, e países como Ucrânia e China. Em uma operação gigantesca que incluiu as big techs — que calaram NY Post, seus jornalistas relevantes e qualquer um que tentasse compartilhar links relacionados — e a maior parte da grande mídia — que ignorou ou relegou o assunto a “teoria da conspiração” — as informações foram, de fato, escondidas do público. A situação foi jornalisticamente tão grave que mesmo Glenn Greenwald, jornalista que por várias vezes escreveu contra Trump, saiu em defesa do NY Post. Greenwald, casado com o deputado socialista brasileiro David Miranda, foi, ele mesmo, censurado em um texto no próprio jornal que ajudou a fundar, The Intercept, e se demitiu. Semanas depois de Joe Biden vencer as eleições, seu filho Hunter Biden, em vídeo, admitiu publicamente que está sendo investigado pelo FBI.

Donald Trump, então presidente dos EUA, foi permanentemente banido do Twitter em janeiro de 2021. Reprodução: Google

A situação de mordaça digital mais marcante no fim de 2020, entretanto, após vários tuítes marcados e até apagados pela empresa, além de suspensões, foi o banimento do então presidente dos EUA, Donald Trump, do Twitter — e, em seguida, de outras redes sociais. Em sua derrota, Trump ainda obteve 75 milhões de votos, recorde para um presidente no cargo. Assim, milhões de seus seguidores e outros ideologicamente alinhados também sofreram consequências. Líderes europeus como Merkel e Macron — que não nutrem simpatia por Trump — mostraram rápida preocupação e até indignação. Afinal, se o então homem mais poderoso do mundo pôde ser silenciado arbitrariamente por uma empresa que se pretende plataforma neutra, ninguém está seguro.

Após a expulsão de Trump do Twitter, onde era mais ativo, houve um êxodo gigantesco pela busca de um novo lar. O Parler, pequena rede similar ao Twitter que afirma apoiar a liberdade de expressão e a neutralidade de plataforma, com limites bem objetivos, pareceu adequado. Não durou: as gigantes digitais, rapidamente e de forma aparentemente coordenada, calaram o Parler. Google e Apple simplesmente baniram o Parler de suas app stores. Mas o que a Amazon fez foi bem mais impressionante: como o Parler usava, a exemplo de muitos outros serviços online, os servidores gratuitos da Amazon, a gigante de Jeff Bezos simplesmente tirou o Parler do ar, acabando com a oportunidade do site de aproveitar o momento certo de um êxodo que seria colossal (e muito valioso). Ou seja: existe até a questão do controle e da censura dentro do próprio Vale do Silício, que, como disse Mark Zuckerberg em 2019 ao Congresso dos EUA, é um lugar de viés político “extremo”, muito bem definido.

Para finalizar a questão: o Parler fora perseguido e sumariamente derrubado de todos os modos por seus concorrentes porque seria abrigo de extremistas e propagaria “teorias da conspiração”. Ao menos, é o que se encontra ao pesquisar a Wikipédia, fonte usada por muitos cidadãos comuns, jornalistas e mesmo outros que integram a elite pensante, ao menos como ponto de partida de investigações. A questão que poucos fazem: a Wikipédia é confiável, especificamente, para assuntos com fortes tons políticos? Caso sim, maravilha. No entanto, se não for o caso, o estrago é ainda maior, pois o efeito cumulativo e de multiplicação via repetição midiática (e até acadêmica, em alguns casos) ao longo dos anos desde a Wikipédia cria percepções distorcidas, falsos consensos e, em tempo, uma pseudorrealidade. É desta segunda opção que Larry Sanger, um dos próprios fundadores da Wikipédia, está mais próximo.

Larry Sanger é filósofo com foco em epistemologia — grosso modo, estuda a natureza e a origem do conhecimento. Ele rompeu com o serviço que ajudou a fundar por conta do que considera, há muitos anos e em diferentes artigos, um viés político cada vez mais pronunciado e particular da Wikipédia — ele também abandonou Quora e Medium pela falta de diversidade intelectual. Mas pelo fato da Wikipédia ser amplamente usada como fonte de informações por muitos — especialmente por jornalistas e, às vezes, por acadêmicos — a situação é mais delicada do que parece. Se a fonte da informação estiver contaminada, a dimensão epistemológica, em que Sanger se especializou, está comprometida; e tudo que brota dali e a partir daquele ponto, também. Em adição, o ativismo político na Wikipédia, chamado Wikistorming, trata de reunir grupos para editar agressivamente certos vocábulos no site, caso de alguns professores com seus alunos. A partir de Sanger, os problemas essenciais da Wikipédia somados ao ativismo corrompem a base epistêmica do site, a precisão de seus verbetes e, gradualmente, como estamos cada vez mais dependentes de redes e serviços digitais como a Wikipédia — sobretudo em meio a uma pandemia — e por seu efeito multiplicador e propagador, nossa realidade.

Censura do bem

Sejam essas focinheiras digitais amarradas por ditadores (e seus projetos), togados autocratas, empresas gigantes, grupos ativistas, as incrivelmente autonomeadas agências de fact-checking (checagem de fatos) ou parceria destes, é fato que a censura ou, mais precisamente, o cerceamento da expressão digital — no momento em que esta se torna a principal, quando não a única via de comunicação — faz cada vez mais parte de nossas vidas. Claro, sob formas profundamente seletivas, arbitrárias e supostamente com a melhor das intenções: higienizar o debate público (isto tem precedentes históricos) de discurso de ódio, robôs e fake news, que aqueles iluminados e seus apoiadores definem conforme sua vontade, no que chamo de burocracia da verdade. Quem sabe, ainda teremos um ministério para ela? Certo autor já pensou nisso décadas atrás.

Hoje, existe quem defenda uma releitura do Ministério da Verdade para lidar com os deepfakes, mas sugiro ficar de olho: os mais ousados vão apelar para a possível ameaça dos deepfakes e jogá-los com todo o jornalismo no mesmo saco para justificar a arbitragem ainda mais ostensiva — e discricionária — da prática jornalística. Isto já é, em alguma medida, realizado pelo dito fact-checking, frequentemente por meio de expressões vagas e muito subjetivas como “em maioria, verdade” (“mostly true”), que mais dependem de manipulação seletiva da argila linguística e semântica pelo checador dos fatos do que, necessariamente, por alguma aderência à realidade concreta. E tudo já começa pela simples escolha de quais veículos e quais notícias checar, o que faz do chamado fact-checking muito mais uma luta por poder de quem segura o porrete verificador para escolher quem pode ou não falar e ser ouvido do que um apego honesto à busca pela verdade. No fim das contas, os resultados do trabalho de fact-checking — isto é muitíssimo importante — influenciam, desde parcerias nacionais e internacionais entre checadores e big techs, os algoritmos das grandes redes e sites de pesquisa e, assim, a (in)visibilidade de conteúdo neles. Em outras palavras, os autodefinidos checadores de fatos, que também são, em maioria, jornalistas de histórico e formação, cada vez mais decidem quem e o que aparece e some nas redes e buscadores, como Facebook e Google. Estamos de volta ao risco muito real de censura, à mercê dos novos donos da verdade — mas, agora, com a etiqueta de grife de checagem de fatos.

Importante recordar o vazamento de um documento de 85 páginas do Google, ainda em 2018, cujo nome já se mostrava auspicioso: “The good censor”, ou “O bom censor”. Este briefing confidencial, para uso interno, admite abertamente uma “mudança na direção da censura”, mas para, entre outras coisas, “criar espaços bem ordenados de segurança e civilidade” (p. 70), que eles determinam, obviamente. Tudo isto seria necessário porque, como informam na página 2, “a liberdade de expressão se tornou uma arma social, econômica e política”. Os mais recentes vazamentos (2021), via Project Veritas, de conversas internas de executivos de alto escalão e até dos donos de Twitter e Facebook são, também, muito esclarecedores. Por fim, quem tiver curiosidade de conhecer o histórico bastante tendencioso de doações eleitorais de jornalistas (2016, 2020), empresas e funcionários das gigantes digitais (2016, 2020) nos EUA poderá fazer uma avaliação mais complexa do mosaico.

Reproduções do documento vazado do Google em 2018: “The good censor” (“O bom censor”). Clique para expandir a imagem


Também recomendo o trabalho do psicólogo Robert Epstein, apoiador do Partido Democrata de longa data — mas cientista, primeiro — sobre o SEME (Search Engine Manipulation Effect, ou Efeito de Manipulação dos Mecanismos de Busca). Em 2016, Epstein descobriu que os algoritmos do Google — sistema usado em 88% das pesquisas nos EUA — teriam dado ao menos 2,6 milhões de votos a Hillary Clinton pela ordem e conteúdo de inúmeros resultados de pesquisa, inclusive no YouTube, conforme testemunhou diante do Congresso dos EUA em 2019. Entre outros registros, agora em 2020, o pesquisador acompanhou 733 eleitores politicamente diversos. Todos os que tendiam para o Partido Democrata, de Joe Biden, receberam o alerta do Google para sair e votar; absolutamente nenhuma pessoa do outro grupo ganhou tal lembrete. Vale recordar que, nos EUA, o voto é facultativo.

O trabalho de Epstein é, ao menos em parte, confirmado pelas curiosas admissões da revista TIME em matéria de fevereiro de 2021: “De certa forma, Trump estava certo. Houve uma conspiração se desenrolando nos bastidores […]. Ambas as surpresas foram o resultado de uma aliança informal entre ativistas de esquerda e titãs empresariais”. A TIME enfatiza o papel fundamental dos gigantes digitais: “[…] uma cabala bem financiada de pessoas poderosas, abrangendo setores e ideologias, trabalhando juntas nos bastidores para influenciar percepções, mudar regras e leis, orientar a cobertura da mídia e controlar o fluxo de informações”. Impressionante.

Para além das batalhas mais mundanas, mesmo o pai da World Wide Web, Tim Berners-Lee, disse que quer reformar a Internet, pois ela teria se afastado de sua origem de mais liberdade, equilíbrio e autonomia para as pessoas. Em matéria de janeiro de 2021 do NY Times, Berners-Lee afirmou que a Internet se tornou excessivamente centralizada, “com poder e dados pessoais demais nas mãos de gigantes como Google e Facebook”, conforme discutido aqui e anteriormente. O projeto atual do pai da Web, ainda em desenvolvimento, quer “dar poder aos indivíduos” e mover a situação atual na direção da rede que ele “originalmente queria”.

Aqueles que concordam com Berners-Lee talvez vejam em sua iniciativa uma chance de salvar a Web de uma possível espiral autoritária — ou, ao menos, ganhar tempo para considerar outras soluções.


Referências bibliográficas
HAN, Byung-Chul. A sociedade da transparência. Portugal, Lisboa: Relógio D’Água, 2014.
SALGADO, Marcelo. A inteligência na sociedade positiva: dos humanos às cidades. Em: SANTAELLA, Lucia (Org.). Cidades Inteligentes: por que, para quem. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2016. pp. 38–49.

Imagem em destaque no topo: gratuita.

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