O tempo nas redes digitais: quando as ciências conversam (e uma equação ajuda)

Por Marcelo Salgado

As interações entre os grupos de conhecimentos científicos chamados — por vezes, de forma polêmica — hard sciences e soft sciences são, no mínimo, estimulantes. De um lado, teríamos as ciências “duras” (como Física e Química); em teoria, mais rigorosas e fiéis ao método científico, pois fariam tão somente leituras concretas da realidade natural. Do outro, as ciências “moles”; grosso modo, as Humanidades: mais subjetivas, abstratas, flexíveis e escorregadias, pois tratam especialmente de ideias e de construções sociais humanas.

A hierarquia entre as ciências proposta pela rigidez de Comte pode ter lógica interna; entretanto, não faz justiça à importância das Humanidades em explorar os limites de nossa mente e percepções em relação ao universo analisado metodicamente, por exemplo, pela Biologia — nem a riqueza autoevidente da experiência estética proporcionada pela leitura de um belo poema. O experimento de Sokal e Bricmont envergonharam, por um lado, as Humanidades; por outro, nos ajudaram a admitir o rei nu e a enxergar nossos pontos cegos — imposturas intelectuais de excessos relativistas e descaso metodológico e verbal que não podem ser regra, mas exceção. Ao menos para quem tem a humildade da autocrítica, claro.

Diálogo científico

Tudo isso à parte, acredito que há muita coisa produtiva que as ciências podem e devem analisar e concretizar conjuntamente. É o caso do tempo em redes digitais: há anos acompanho o assunto, já abordado em evento pelo grupo. O tempo me fascina profundamente, e aposto não estar sozinho: é uma das grandezas essenciais de toda a experiência humana. É central para organizarmos qualquer ação a médio e longo prazos — qualquer intervalo não imediato. Chamo um ano, por exemplo, de “unidade de vida”.

Como palpite educado, há anos tenho por certo — e ouvi o mesmo de tantos que talvez configure “senso comum” — que o tempo em ambientes digitais seria “mais veloz”, passaria mais rapidamente. Como um estudante de Humanidades, a especulação embasada pode ser um ponto de partida. Mas queria mais do que isso. E fui buscar na Física algumas respostas, com a modesta pretensão de um jornalista que, por acaso (ou não), estudou dois anos de engenharia química no século passado — e ficava a escrever poesia entre aquelas aulas.

Em meio a algumas descobertas fascinantes, de Newton a Einstein, percebi que mesmo o tempo “absoluto” é relativo em circunstâncias excepcionais; que velocidade e gravidade podem modificar o tempo (THORNE, 2003, p. 28–30). Por isso mesmo, se alguém passear perto de um buraco negro — que tem gravidade esmagadora —, ao retornar ao planeta Terra, terá “viajado” ao futuro terrestre. Isto ocorre porque a gravidade terrestre, comparada à do buraco negro, é baixíssima — e comprova a relatividade do tempo. Da mesma maneira, a tecnologia GPS (Global Positioning System) — aquela que você usa com seu smartphone e em aplicativos de trânsito como o Waze também evidencia a relatividade temporal. Motivo: GPS usa satélites expostos a uma gravidade muito inferior à da Terra e, por isso mesmo, esses precisam ter seus relógios ajustados de acordo com aquelas condições gravitacionais, de forma a não haver um descompasso com o tempo terrestre. Mas vamos colocar a Física a serviço de outra questão bastante humana e atual: a percepção de velocidade aumentada em redes digitais.

Mais veloz

Como Crang já havia percebido (2007, p. 63), o “tempo está relacionado à distância percorrida”. No mesmo livro, os organizadores Hassan e Purser (p.10–11) dão a entender que, no contexto temporal das redes sociais digitais, o relógio “não tem importância”; ainda, que com os avanços tecnológicos computacionais, “(…) o tempo foi, literalmente, acelerado”. Velocidade maior, distância percorrida (espaço) e tempo? Parece familiar.

Ora, isso já nos empurra na direção da conhecida equação da Física para calcular a velocidade média. E, acredite, ela nos ajuda a compreender nossa percepção de velocidade aumentada em espaços digitais:

A forma como esta equação da Física pode nos ajudar a compreender o fenômeno tão humano, abstrato e subjetivo da percepção de velocidade aumentada ao interagirmos com e por meio de redes digitais é a seguinte: vamos comparar duas experiências. 1) Uma pessoa pesquisa vários livros e documentos impressos sobre a origem do universo; 2) a mesma pessoa, com igual disposição, busca o mesmo assunto na Web. Várias janelas abertas, cliques que a levam de um link a outro, vídeos, fotos e textos. Nos dois casos, este indivíduo tem 30 minutos para sua pesquisa.

A partir da equação acima, nas condições dadas, temos que o tempo é uma constante. Para a hipótese da “velocidade acelerada ou maior” em ambiente digital ser verdadeira, portanto, será necessário que o deslocamento no espaço cresça em ambientes digitais versus na leitura de impressos. É mais do que razoável declarar que isso de fato ocorre: em 30 minutos, e demais condições idênticas (constantes), os olhos, cérebro e sentidos da mesma pessoa serão capazes de percorrer muito mais espaços e, por conseguinte, absorver muito mais informações no ambiente digital do que apenas em publicações impressas — lineares e limitadas. É exatamente por isto que temos a percepção de velocidade maior quando “viajamos” por sites, aplicativos e afins — e talvez isto também ajude a explicar fenômenos como ansiedade, estresse e cansaço mental provocados por redes digitais (isto fica para outra investigação).

Posto de outra forma: em ambientes digitais, cada minuto nosso rende muito mais — a respeito de espaços percorridos e volume de informações absorvido. As implicações desta análise inicial podem ser consideradas em estudos futuros mais profundos, não apenas a respeito das consequências negativas e positivas desta velocidade aumentada, mas também sobre como deslocamento (espaço) e tempo podem ser trabalhados diferentemente para alcançarmos nossos consumidores de conteúdo digital.

Referências:

CRANG, Mike. Speed = Distance/Time. In.: HASSAN, R.; PURSER, R. E. (Org.). 24/7. Stanford: Stanford University Press, 2007. p. 62–65; 84–85.

HASSAN, R.; PURSER, R. E. (Org.). 24/7. Stanford (USA): Stanford University Press, 2007.

THORNE, Kip. S. Warping Spacetime. GIBBONS, G. W.; RANKIN, S. J.; SHELLARD, E. P. (Org.). The Future of Theoretical Physics and Cosmology: Celebrating Stephen Hawking’s 60th Birthday. Cambridge (England): Cambridge University Press, 2003. Chapter 5, p. 28–30.

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