Escola Senciente: plantando sementes para o futuro

Por Izabel Goudart

Escola Senciente é uma proposta de compreender a escola a partir da concepção de um organismo sensível e acoplado ao meio ambiente comunicacional e informacional que age como um agente ativo na organização do cotidiano escolar na periferia da nossa atenção. Proposição que parafraseia Crang e Grahan quando atribuem às cidades o adjetivo senciente, uma cidade que sente, que tem sensações, referindo-se a pervasividade e ubiquidade dos processos comunicacionais e informacionais que permeiam os ambiente urbanos e que podem monitorar reflexivamente nosso comportamento. Santaella aborda no texto Dos não-lugares às cidades sencientes a dicotomia dos impactos de um ambiente inteligente em nossa vida diária no que diz respeito a seus benefícios possíveis em campos como a saúde e segurança e, ao mesmo tempo, as inquietações relativas aos limites em que se dá a perda da autonomia do indivíduo e das instituições civis e governamentais.

Como um organismo vivo, a escola pulsa sentido e reage ao impacto das mudanças provocadas pelo desenvolvimento tecnológico nas subjetividades infantis e juvenis contemporâneas: nos modos de ensinar e aprender, nos modos de produzir conhecimento e de socialização, nos modos de atenção, na noção do que é público e privado, na vigilância diária do que acontece nos corredores e salas de aulas por meio dos dispositivos móveis — e por aí vai. A inquietação é presente tanto no que diz respeito aos limites em que se dá essa perda de autonomia individual e da instituição, como também no que diz respeito às mudanças que se fazem necessárias implementar no projeto político e pedagógico de cada escola para atender a uma intricada rede de relações perceptivas, cognitivas, sociais, culturais e biotecnológicas que constituem esse organismo em constante transformação. O fato é que tudo isso parece se dar na periferia de nossa atenção como educadores e nos alerta para a necessidade de estarmos atentos para as tendências, mudanças e desenvolvimentos tecnológicos ou de práticas que a curto, médio e longo prazo terão impactos para a educação e no cotidiano escolar. Contudo, mais do que somente uma adaptação às demandas do mundo contemporâneo, é fundamental que possamos nos questionar quais as características que fazem da escola esse organismo inteligente e sensível atuante no sentido de contribuir para a formação estética, ética e política dos sujeitos que a habitam, ou seja, o que de fato torna uma Escola Senciente.

Algumas experiências consideradas inovadoras na educação básica apontam tendências nesse sentido. Apresento duas delas:

A Escola Âncora, escola de ensino fundamental situada no município de Cotias, grande São Paulo, adotou o sistema de ciclos de aprendizagem extinguindo a seriação, o aprendizado por projetos e pesquisa e a definição coletiva e participativa das ações que definem o dia-a-dia na escola, tendo como referência a experiência da Escola da Ponte (Pt). Enfatizam em seu projeto o aprendizado de cinco valores: respeito, solidariedade, responsabilidade, afetividade e honestidade. Valores tão caros nos nossos tempos e fundamentais para o desenvolvimento de competências socioemocionais que lidem com a diversidade, a diferença, as mudanças constantes, a imprevisibilidade e outras características presentes nos sistemas complexos.

A Riverside School, escola em Ahmedabad, no Estado Gujarat, na Índia foi construída priorizando um ambiente arquitetônico mais aberto, transparente e integrado à natureza. Propõe-se que o espírito de amplitude e abertura e a estética do espaço promovem um maior sentimento de compaixão e mentes menos agressivas. A escola visa a formação do cidadão na criação de soluções para um mundo melhor e prioriza a ajuda ao próximo. A autonomia, o protagonismo de suas próprias histórias e a relação com o entorno e com o território são enfatizadas no processo de aprendizagem.

Outras experiências podem ser acessadas no canal do YouTube do Futura, na série de seis programas intitulada Educação: Escolas Inovadoras e no site do projeto Innove.Edu, que reuniu 96 experiências espalhadas pelo mundo que traduzem, segundo os idealizadores e pesquisadores do projeto, as cinco tendências capazes de tornar o aprendizado significativo e conectado com as demandas do século XXI: competências, experimentação, personalização, uso do território e novas certificações.

Nas pesquisas que venho realizando desde 2008, venho propondo uma articulação em torno da tríade participação, partilha e colaboração com ênfase na experiência como um modo de produzir afetos que aumentem a potência de agir dos sujeitos envolvidos no processo e produzir dinâmicas de aprendizagem em rede. A metodologia por projetos colaborativos, a articulação de vários campos de conhecimento, a mistura de tecnologias tradicionais com tecnologias digitais e a produção de uma arquitetura do ambiente que propicie a emergência de tais dinâmicas são elementos que tem permeado a realização de laboratórios abertos em escolas públicas. Considero os laboratórios abertos como um modo de investigação e abertura de possiblidades e pistas para pensar e interrogar o que faz de uma escola uma Escola Senciente e como podemos plantar sementes para um futuro mais esperançoso para nossas crianças e jovens. Algumas dessas reflexões estão sintetizadas no livro Objetos de afeto e tramas da escolas, disponível para download neste link e desde já convido os curiosos e interessados em pensar sobre tema para o laboratório aberto que tem como tema o título deste post e que acontecerá no Colégio de Aplicação da UFRJ a partir do final de junho deste ano.

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