NEO-HATERS: OS JUSTICEIROS DIGITAIS

Por Kalynka Cruz-Stefani

Esta publicação* é uma atualização do artigo publicado sobre o mesmo tema aqui mesmo no Sociotramas em 2015. Trata-se de manter sob os holofotes o preocupante tema da propagação do ódio na internet, apresentando desta vez um novo personagem, os neo-haters. Não é recente a propagação do ódio nas redes. O termo hater surgiu na internet designando um grupo de pessoas que atacam motivados pelo ódio, geralmente relacionado a algum tipo de fanatismo e também por diversos tipos de preconceitos. Precursores do bullying virtual, os haters eram inicialmente considerados pessoas que estão infelizes com o comportamento, êxito, conquista ou felicidade de outra pessoa. Hoje, esta realidade foi atualizada: há um novo tipo de hater, os que aqui chamaremos de neo-haters.

Sobre os haters

Não importando a causa, haters, como o nome diz, são os odiadores, os cavaleiros negros do apocalipse-web, os dementadores da vida digital. Eles não podem conviver com o sucesso, com qualquer tipo de comportamento alheio que difira daquilo que entendam culturalmente como verdade. Não se trata exclusivamente de inveja, de querer o que outro tem; é mais obscuro que isso. Trata-se de tentar destruir o outro por causa de sua aparência, por causa de uma ideia, ou maneira de ser e viver diferente da sua. Os haters são responsáveis por espalhar mensagens desagregadoras, violentas, palavras de ódio, ou, na mais perfeita definição que pude pensar, haters são aqueles que, em crise ética, especializaram-se em, por meio da linguagem, desumanizar o outro, em um exercício de ruptura social, desamor e superexposição da barbárie interior. Desumanizar, como explica Morin (O Método 6), significa transformar em lixo, excremento um ser humano apenas porque ele é diferente de quem desumaniza. Essa desumanização talvez seja o bálsamo psicológico de um hater. O outro merece ser odiado porque não é humano, é um nada, é algo que o incomoda, logo, torna-se um “inimigo” que não tem face, que não se assemelha a qualquer coisa que possa suscitar empatia. Um hater nunca vai se colocar no lugar do outro: ele não pode, porque o lugar que o outro habita é o motivo principal de seu ódio. Logo, na sua lógica, tudo é permitido. A fórmula do hater mistura uma boa dose de bullying, humor perverso, violência verbal e assédio. Muitos famosos são vitimados por esse coquetel e, claro, encontramos muito mais estórias que envolvem haters e estes personagens públicos (publicação original aqui).

Os neo-haters

Nos primórdios da web ser vítima de um hater era “privilégio” de famosos ou web-celebridades.  Mas hoje essa realidade difere do passado e surge um novo personagem, um hater repaginado, os neo-haters. Neo-haters, diferentemente dos haters originais são aqueles motivados por uma causa coletiva onde instauram uma espécie de julgamento sumário digital. São motivados, além do ódio, pelo desejo de castigar aquilo que julgam errado de acordo com as crenças nas quais estão inseridos. Estes neo-haters são também os juízes digitais. Movidos por uma “razão” que acreditam ser supostamente justificável, agem não apenas como juízes, mas principalmente como justiceiros.

Segundo Morin, quando novos sistemas se criam, qualidades que antes não se demonstravam individualmente emergem. Podemos ver este acontecimento no caso do ataque em massa originado pelos haters e pelos neo-haters.  Em grupo são mais corajosos e muito mais agressivos. A auto-organização também é imediata, agem com a dinâmica de um formigueiro. Criam a casa, debatem estratégias e montam seus ataques on line, ou seja: criam grupos para discutir contra o objeto de ódio, criam páginas fakes para o objeto de ódio, atacam o perfil em massa, discutem entre si, xingam o perfil da vítima até que de alguma maneira o perfil saia do ar ou fique inundado de ofensas. Independente de uma motivação ser ou não “compreensível”, como no caso do ataque a criminosos (de todos os tipos) uma grande parte do problema está na sede de punição imediata, sem julgamento. Tudo isso, é muito importante ressaltar, sem que se percebam como neo-haters. O tribunal digital é instaurado instantaneamente. Sem reflexão, apenas impulso. O comportamento dos neo-haters é claramente voltado à desumanização do outro e está diretamente ligado às mentes sequestradas pelas crenças (Fernando Haro, 2006). Não crêem nas regras sociais, na Justiça e não se importam com os resultados da desumanização, além daquele que objetivam diretamente: a aniquilação do outro justificada por um erro ou suposto erro.

Recentemente, um político brasileiro, sabidamente corrupto, foi retirado do hospital à força para ser levado a uma prisão. A cena, grotesca, tratava-se de um evidente desrespeito à dignidade humana. Porém, nas redes em uma histeria eufórica coletiva comemorava-se o acontecido numa evidente vitória da barbárie interior contra o bom senso. Não bastava ser preso, punido. Era necessária — e foi aplaudida — a humilhação pública, o escárnio. Interessante perceber, por tratar-se de um político de um partido fisiológico, entre os neo-haters estavam muitas pessoas de esquerda que defendiam ferozmente os direitos humanos em outros casos. Como se roubar a dignidade de alguém em um linchamento virtual não fosse tão medonho quanto quaisquer outros tipos de linchamento e embora o ataque ao político, neste caso específico tenha se dado através dos jornais, por outro lado, toda uma orbe de pessoas compartilhou nas redes milhares de vezes a foto de tal político nesta cena humilhante — em uma maca sendo retirado do hospital. Não se trata este de um exemplo clássico da atitude de neo-haters, mas de um preâmbulo para introduzir esta predisposição a se montar o tal tribunal digital, julgar e punir sumariamente o outro. Percebe-se que qualquer pessoa, a  qualquer momento, no mundo virtual, está sob o risco de se tornar um neo-hater pois a linha entre expressar sua opinião, reclamar uma solução, fazer uma crítica e destruir em grupo a reputação de alguém, sem espaço de defesa, é muito tênue. Todos parecem querer julgar algo ou alguém como se, afoitos, tivessem finalmente descoberto um canal de escoamento de variados tipos de frustrações: emocionais, profissionais, políticas, sociais… não confundamos, porém, as ações dos neo-haters com as ações e  espaços criados para se clamar justiça, apontar falhas, erros, corrigir-se problemas. Tudo isto é válido e faz parte da boa natureza do ciberespaço. A diferença entre um comportamento e  outro é que no primeiro caso busca-se a punição sem julgamentos válidos, apenas pautados no ódio, enquanto que no segundo caso a busca pela justiça, pelo que é correto, dá-se dentro do respeito da dignidade alheia.

O comportamento dos neo-haters é completamente dissociado de qualquer senso válido de justiça, é cartesiano — no sentido negativo do termo —, simplório, simplista e sobretudo, exclui a complexidade de qualquer situação porque, embora tenha meios para isso por meio da “materialização multidimensional do fenômeno” (Kalynka Cruz, 2015) a velocidade com que se precipita a julgar e executar não permite o ato reflexivo da ponderação de um fato e da humanização do outro. Ainda mais recentemente tivemos um exemplo excelente da ação dos neo-haters. Um perfeito exemplo, deve-se ser ressaltado, porque além de seguir o “protocolo” dos neo-haters, deu-se dentro de um mesmo grupo de afinidades ideológicas, tornando o ataque paradoxal. Uma professora e escritora brasileira, articulista de esquerda, com milhares de seguidores em seu blog e Facebook, teve uma ascensão surpreendente como formadora de opinião graças à viralização de alguns textos seus, que além de bem escritos, refletiam com talento as crenças de grande parte de seus seguidores de esquerda. Ela porém, há alguns dias decidiu compartilhar a memória de um texto antigo no Facebook (que numa leitura precipitada e romantizada pode parecer elitista e preconceituoso). Não esperava que essa leitura superficial do texto por parte de seus seguidores, sem compreensão da complexidade e sem leitura de contexto viesse a se tornar seu pior pesadelo, obrigando-a a deletar seu Facebook com milhares de seguidores, uma vez que foi violenta e virulentamente atacada, julgada e executada on line. A saída do Facebook foi a sua morte simbólica, foi um linchamento virtual assistido ao vivo e a cores naquela rede. O paradoxo está no fato de que, como representante de uma esquerda militante e ativa, a professora teve contribuições efetivas em vários debates no último ano, sendo adorada, apreciada, obtendo comentários e aprovação massiva; mas bastou a interpretação descontextualizada, uma leitura singular, pontual, para que fosse destruída nas redes por aqueles mesmos que a seguiam. Não tenho a intenção de entrar aqui no mérito de sua publicação, embora já o tenha feito em meu perfil pessoal (atenção neo-haters), mas evidenciou-se claramente que o ódio foi violentamente estimulado pelo desejo de não compreender, por uma clara desumanização, porque como, já dissemos anteriormente, como nos ensina Edgar Morin, a desumanização, repetimos, é o ato de transformar o outro em objeto de ódio, porque esquece-se a sua humanidade, no caso da professora tão claramente explicitada (e viralizada) há mais de um ano nas redes. Bastava uma leitura contextualizada, um olhar humano sobre ela para que se percebesse que aquele texto, em específico, não poderia nunca ser usado como única “evidência” de condenação no tribunal digital.

Se os mesmos que lutam por mais humanidades em outros campos, também cedem on line ao chamado do ódio, não deixando que o papel dos neo-haters seja exclusiva dos neo-fascistas, para onde caminharemos? É preciso ser crítico, autocrítico e paciente para não cruzar a tênue linha entre a boa militância virtual e a transformação em um neo-hater. Porque deste modo morre a ética. Morre o amor. Morre o humano. Nascem os neo-haters.

* Os exemplos citados neste artigo fazem parte do corpus da minha pesquisa de Doutorado, ainda inédita.

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