Transmediale 2017

Por Lucia Santaella

Nos últimos anos tenho participado do Transmediale e trazido para este blog as minhas impressões, elogios e críticas a esse evento. Assim foi em 2015 (post I e post II) e também em 2014 (post I e post II). Posso dizer que, neste ano de 2017, o evento veio com um sabor mais serenamente sofisticado, liberto das prévias lamúrias e lamentações pretensamente políticas. O Transmediale celebrou seu 30º aniversário, quando também se comemorava a reabertura da Haus der Culturen der Welt, depois de passar por um ano de reforma. Esse é, sem dúvida, o encontro internacional sobre arte e mídia de maior importância no mundo. Além de palestras, mesas redondas, painéis de discussão, o evento também conta com uma exposição de arte no local e com uma parceria com o CTM que promove uma grande quantidade de exposições no campo da performance, vídeo, experimentações sonoras, música e arte digital que se espalha pela cidade durante algum tempo.

O que o Transmediale tem de fundamental é sua capacidade de agarrar no ar as questões veiculadas nas publicações e discussões mais recentes e candentes em mídia e arte no contexto do hemisfério norte e dar a elas uma composição coerentemente interconectada. O tema deste ano foi “Ever Elusive” (“Sempre Evasivo [Difícil]”) com o qual se pretendeu discutir a condição acelerada do mundo atual e as dificuldades que apresenta para se saber onde o papel do humano termina e o da máquina começa. Com os sistemas de aprendizagem de máquinas, os agentes da inteligência artificial, as infraestruturas inteligentes e os organismos engenheirados desempenhando um papel cada vez mais importante, novas tecnoecologias e hibridações continuamente evoluem. Quando a tecnologia é sentida como natural e a mediação se torna imediata, os atuais emaranhados influenciam o aguçamento das condições econômicas e sociopolíticas, colocando a primazia do agenciamento humano em questão.

É impossível assistir a todas as atividades que o evento traz. Há simultaneidades, mas a organização esmerada permite que os participantes façam suas escolhas a partir das sinopses que são disponibilizadas nas redes. Para fornecer ao leitor uma cartografia parcial das discussões que estiveram em pauta, passarei a seguir a comentar com brevidade o conteúdo das sessões que foram por mim selecionadas.

A cerimônia de abertura contou com a apresentação de um vídeo que colocou em ação as mudanças do espaço-tempo das redes, dos artefatos midiáticos e das experiências vividas. A utilização de tecnologia audiovisual de ponta permitiu a criação de uma estética isomórfica à temática pretendida, em uma integração ímpar da forma-conteúdo.

A sessão que colocou em pauta o tema nuclear do evento, a questão da mediação, discutiu a desnaturalização e refamiliarização da mistura das mídias nos nossos ambientes de vida/trabalho de modo a identificar as maneiras pelas quais as estruturas de poder os reforçam.

A pergunta formulada na sessão sobre máquinas tocou na necessidade de ajustamento no nosso conceito de máquinas frente às atuais tecnoecologias híbridas. Quando as tecnologias se tornam ambientes, novas estéticas e subjetividades emergem.

O painel “Engenheirando futuros simbióticos” apresentou exemplos de robótica ambiental e um modelo para florestas aumentadas que explorem o potencial para relações simbióticas entre não-humanos maquínicos e vivos.

O que significa pensar uma política radical hoje? Essa pergunta foi respondida com aguda lucidez pela pesquisadora inglesa Natalie Felton ao discutir o papel das mídias digitais no campo político e da infraestrutura de dados na esfera pública em prol de uma política de recoletividade capaz de examinar os conflitos e as lutas como forças progressivas na democracia.

O debate e instalação, sob o título de “Vida elusiva: Extinção, biodiversidade e datificação”, examinou novos imaginários, intervenções e vida elusiva sob a ação das transformações tecnológicas. Ainda mais perturbador foi o painel que tinha por título “Prove que você é um não-humano”. Historicamente, a inteligência artificial foi pensada como modeladora do cérebro humano. Diante disso, o que poderia significar parar de antropomorfizar os computadores de modo a obter um ponto de vista estritamente maquínico?

Do meu ponto de vista, o momento mais instigante de todo o evento foi o painel com o título de “Sobre a origem dos androides”. Composto por três designers e artistas holandeses, Peter Paul Verbeek, Koert van Mensvoort e Floris Kaayk em uma apresentação coletiva, o painel visou discutir provocativos projetos de cross mídia, todos eles direcionados para definições transformadoras das velhas dicotomias entre o natural e o artificial, de modo a apontar para visões de futuros potenciais nos quais a tecnologia e o corpo humano tenham se tornado inseparáveis.

Embora distintas nas suas especificidades, todas as sessões convergiram na constatação de que não há onde buscar escapatórias para o fato de que as máquinas atingiram um ponto tal de integração nos ambientes vitais que não há mais lugar para as velhas dicotomias entre o humano e a máquina, o humano e os animais, o humano e os outros seres orgânicos e não-orgânicos. Isso quer dizer que o descentramento do humano se tornou inexorável, irreversível e inelutável. Diante desses abalos, não há caminhos de fuga. Ao contrário, trata-se de pensar, criar e agir em consonâncias com o hibridismo dos novos habitats simbióticos em que estamos inseridos.

As exposições artísticas com o tema geral de “Matéria alienígena” ecoavam, em formas estéticas, a proposta paralela das palestras e discussões. Por “matéria alienígena” entende-se a matéria feita pelo humano, mas, ao mesmo tempo, um outro tipo de matéria radicalmente distinto e potencialmente inteligente. Trata-se da emergência da naturalização dos artefatos tecnológicos. Os ambientes co-formados pelas tecnologias resultam em novos modos de relação entre o humano e as máquinas. Os objetos técnicos, antes definidos tão só e apenas como objetos úteis, estão se tornando agentes autônomos. Sua habilidade de aprender e agir em rede desafia o tradicional papel central do sujeito humano, minando, sobretudo, a pretensa soberania e autoridade do velho sujeito transcendental.

Diante de tudo isso, será que os ambientes em que vivemos já atingiram aquele ponto crucial de inflexão que os transformou em matéria alienígena? Fica a pergunta.

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