Profissão jornalista: disrupção digital e a “alma do negócio”

Por Fabio de Paula

A resistência dos donos da ex-gigante Blockbuster em aceitar as previsões, feitas há menos de 15 anos por seus analistas de marketing, de que se encerraria o formato de locação de filmes em lojas físicas resultou não apenas na quebra da empresa, mas em um caso emblemático de como a não adequação ao ambiente digital termina sempre em fracasso. Muito embora o mercado de filmes para locação e venda atualmente tenha um quase monopólio de três ou quatro companhias, como Netflix, Google Play ou Apple (com os serviços do iTunes), o que há em comum no sucesso e na continuidade desses negócios foi a aceitação e adoção do streaming no momento certo, demonstrando como um olhar visionário e a aceitação de previsões que se baseiam em uma certa subjetividade, em controvérsias e no risco são fundamentais, especialmente na era digital.

Não é de se estranhar, portanto, que toda uma classe profissional consolidada no mercado apresente resistência a mudanças associadas à disrupção digital. Foi assim com as corporações fonográficas que, durante o século 20, desenvolveram uma série de modelos de sucesso para obter lucro a partir da gravação musical e comercialização de discos, rolos, fitas cassete ou CDs. Tão logo o formato digital se estabeleceu como regra, e não exceção, essa indústria resistiu o quanto pôde, mas quebrou; a música, porém, segue existindo. E um novo modelo de negócio musical — baseado não mais na gravação, impressão e comercialização de discos físicos, mas na oferta de canções em formato digital — já está consolidado.

Há muitas incertezas sobre como o capital e o lucro fluem dentro desse modelo de produção, mas certos elementos já se firmam como fundamentais na compensação do indivíduo responsável pela alma do negócio — nesse caso, o músico. Se, por um período transitório, eles resistiram ou buscaram se adequar às incertezas deste ambiente digital que, ora justifica, ora invalida o significado monetário do direito autoral, hoje os músicos recebem a compensação financeira por seu trabalho de um modo muito menos subjetivo do que a venda ou difusão, por terceiros, de gravações das suas obras: os shows. Será possível, portanto, questionar a validade e o valor de uma apresentação ao vivo, mesmo que espetacularizada, de um artista musical, em detrimento da comercialização de gravações de sua obra?

A incerteza e o risco são, de qualquer modo, palavras-chave neste momento histórico de disrupção digital. Com tantas previsões apontando para o desaparecimento de mais de 40% das funções estabelecidas até 2020, por conta da consolidação do meio digital, a profissão do jornalista parece ser a bola da vez entre aquelas que são esmagadas pela maior das bolas: a bola de neve da web e das redes sociais. Enquanto a maioria dos jornalistas segue em um movimento de corporativismo e conservadorismo que defende a continuidade de formatos offline, o marketing de conteúdo ganha dinheiro e rouba sonhos fazendo com que a produção do texto para o ambiente digital tenha um valor que cada vez mais se aproxima do zero. Enquanto o profissional do jornalismo defende formatos como o da revista-livro, o marketing digital acredita que a internet já morreu — e seu assassino é ninguém menos do que a figura das redes sociais.

Enquanto os jornalistas mais saudosistas insistem em dizer que as pessoas ainda se emocionam com o aroma de um papel recém-impresso ou que ninguém abandonará o hábito de ler o jornal no conforto do banheiro, os pesquisadores dedicados a estudar aquilo que se convenciona chamar de o Futuro das Coisas não perdem tempo em observar como o fluxo do capital cada vez mais escapa das mãos daqueles que escrevem textos informativos. Não é preciso aceitar que o conforto do banheiro combina muito mais com um bom smartphone do que com uma cheiroso jornal; para compreender esse fenômeno, pode-se aceitar que o formato digital não apenas veio para ficar, como veio para encerrar ou abrigar todos os outros formatos anteriores, em especial os impressos. E, nesse cenário, entender como funcionam os dois pontos de um negócio editorial onde o produtor de informação (e não mais o jornalista) ocupa um papel central: o de leitor e o de anunciante.

No caso do leitor, a escolha de áudio, vídeo ou texto em ambiente virtual é uma tarefa com muito menos limites do que no universo físico. Pode-se preferir ler, no meio digital, uma informação de fonte jornalística porque ela atende à ética do jornalismo, ao contrário de uma postagem feita por uma blogueira desconhecida ou um portal de notícias sem a credibilidade dada pelos nomes e sobrenomes do jornalismo. Ocorre que cânones do bom periodismo, como a objetividade e a imparcialidade, sempre foram questionáveis. Jornalismo não é arte, portanto a “alma do negócio” da informação não é o jornalismo, muito menos o jornalista. Dessa forma, o leitor é livre para questionar e escolher, portanto não se sente obrigado a optar por um portal jornalístico em detrimento de um blog ou de um site de autoria desconhecida.

Além disso, com o livre exercício do copy+paste e do compartilhamento, tanto na internet quanto nas redes sociais, a autoria da letra, da palavra, da frase ou do texto jornalístico tende ao anonimato. Enquanto filmes e músicas — ou mesmo fotos e textos literários ou acadêmicos — podem ter sua autoria comprovada, a informação não tem dono. Nem deve ter. Um texto jornalístico tem obviamente uma autoria, mas o leitor sincronizado à velocidade das redes sociais e ao volume de informações disponíveis na web provavelmente não será fiel ao autor de uma notícia. Enquanto o jornalista saudosista insiste em levar seu jornal para o banheiro, o leitor comum não quer nem saber se sua informação atende aos critérios da ética jornalística.

E é aí que entra o marketing de conteúdo. E é aí que entra a figura do anunciante. Enquanto há profissionais do jornalismo que mantém o antigo discurso da necessidade de distanciamento entre a redação e o departamento comercial, o dono do capital está substituindo o jornalista pelo produtor de texto e conteúdo digital, trabalho esse que pode ser feito por qualquer pessoa, simplesmente porque o jornalista não é necessariamente a única e onipotente alma do negócio da informação. Se no cenário do jornalismo impresso dizia-se que anunciantes representavam dois terços da receita e assinantes representavam um terço da receita de uma empresa, no ambiente virtual nem mesmo se aplicam as regras do jornalismo de rádio ou tevê — que também sofrem com a disrupção, muito menos por seu desaparecimento, mas por sua necessidade de adequação ao meio digital —, justamente porque a entidade anúncio também está em processo de desaparecimento no cenário digital.

Para entender como o capital flui nesse ambiente, basta se usar uma ferramenta de lógica um tanto analógica, mas que parece ser o santo graal da epistemologia alinhada ao futuro das coisas: a empatia. Dessa forma, basta se colocar no lugar do indivíduo que tem o poder decisório sobre o uso do capital, seja ele privado ou público. Há quinze anos, caso ele quisesse se comunicar com um certo público a fim de vender seu produto ou ideia, a imprensa impressa fosse talvez o melhor meio para atingir essa meta por meio de um anúncio; e o produto editorial, feito pelo jornalista, tinha papel fundamental na construção de uma marca.

Com a consolidação da web e dos portais e sites editoriais, esse fluxo de negócio replicou-se ao ambiente virtual, com o anúncio ganhando o formato de banner ou correlatos. As redes sociais, no entanto, dilaceram qualquer possibilidade de replicação de formatos off-line justamente porque o dono do capital pode atingir diretamente seu público por meio de ações de marketing que partem de sua própria marca ou de fontes de informação que não precisam mais ter a chancela do jornalismo. Com esse contato direto entre empresas e clientes proporcionado pelos algoritmos, o negócio editorial morreu, está morrendo ou morrerá.

A profissão de jornalista sobrevive e sobreviverá, claro, mas em um cada vez mais escasso universo de produção impressa, voltado sobretudo para gerações acima dos 40 anos. No ambiente virtual, os veículos jornalísticos também devem seguir existindo; porém, em um modelo de negócio necessariamente adequado ao marketing digital, em que a produção de texto e conteúdo não requer o atendimento de critérios de ética jornalística — e muito menos do pagamento de salários atrelados a anacronismos como o ente sindical.

Assim sendo, enquanto a bola de neve digital notavelmente diminui oportunidades profissionais, a figura da inteligência artificial rapidamente ganha espaço nos processos produtivos, inclusive na produção e difusão de conteúdo e informação. Haverá espaço, portanto, para o periodismo sobreviver neste futuro de disrupção digital cada vez mais presente? No curto prazo, jornalistas saudosistas que insistem em apreciar o aroma do jornal impresso obviamente tendem a desaparecer. Em médio prazo, o jornalismo de alguma forma sobreviverá, tanto em um convalescente meio impresso quanto em um autofágico meio digital. No longo prazo, porém, talvez haja espaço para a produção remunerada de um certo tipo de informação autoral e não-maquínica para uma sociedade onde o capital é menos importante do que as relações comunitárias.

Aos indivíduos apaixonados pela produção de conteúdo e informação cabe, portanto, se preparar para o futuro entendendo o passado. Assim, acompanhar o fluxo desse mercado — seja pelas necessidades do leitor, seja pelas exigências do capital — e encontrar os territórios de comunicação em que o ser humano seguirá sendo a “alma do negócio” da profissão jornalista.

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