McLuhan: ontologia, gadgets e narcosis

Por Marcelo de Mattos Salgado

Canadense impressionante. Falo de Marshall McLuhan, que décadas após sua morte, em 1980, ainda espanta por uma visão muito à frente de seu tempo.

Em estudos sociais digitais, o autor já é uma figura muito conhecida — e com razão — por conceitos e ideias como “aldeia global”, a partir da qual previu a ascensão das narrativas globalizantes diante de progressos tecnológicos. O filósofo canadense também abordou o entendimento das mídias como extensões humanas, algo que, de forma rudimentar, pode ser analisado como um precursor das ideias que atualmente são analisadas no transumanismo e do pós-humanismo por autores como Lucia Santaella.

Mesmo os mais jovens têm contato rotineiro com McLuhan por conta de livros como “A galáxia de Gutenberg” (1962), que reavalia a dimensão dos processos comunicacionais e cognitivos e a propagação de informações a partir de novas tecnologias — e, mais uma vez, prepara o terreno para eventuais análises sobre a Internet, com a popularização da “aldeia global”. Ainda, “O meio é a mensagem” (1967), no qual o canadense nos leva a perceber a relação profunda entre mídias e conteúdos, meio e efeito da comunicação — e que tem uma história muito curiosa a respeito de seu nome original, que envolve massagem.

Agora, coloco em destaque ideias de McLuhan bem menos conhecidas. No caso, da obra “Understanding Media: The Extension of Man” (1964, aqui em PDF), traduzida no Brasil como “Os meios de comunicação como extensões do homem”. Acredite: o canadense já apontava na direção do achatamento ontológico entre sujeito e objeto — ou seja, na aproximação simbólica e existencial entre as noções clássicas de sujeito (indivíduo humano) e objeto (mídias e tecnologias, por exemplo). Muito antes da Teoria Ator-Rede de Bruno Latour e outros, McLuhan indicava que, com os progressos tecnológicos amontoando-se, já haveria uma “redução” do mundo, espremido por conta de ferramentas que diminuem distâncias físicas — e metafóricas.

Depois de três mil anos de uma explosão da especialização e de crescente concentração e alienação nas extensões tecnológicas de nossos corpos, nosso mundo tem se tornado espremido por uma reversão dramática. Como que eletricamente reduzido, nosso globo não é mais do que uma aldeia (McLuhan, 1964, p. 5. Tradução e ênfase minhas).

Outra maneira de explicar esta ontologia transformada a partir de McLuhan se encontra em suas considerações, mais uma vez um tanto preditivas, a respeito dos “amantes de gadgets” (1964, capítulo 4, p. 45 e 46, tradução minha). Nesses trechos, McLuhan enfatiza a compartilhada relação etimológica entre Narcissus (Narciso) e narcosis (entorpecimento); que “homens se tornam fascinados por extensões de si em qualquer material que não seja eles mesmos” (tradução minha). A partir daí, a imagem de Narciso refletida nas águas seria uma extensão dele mesmo — pela qual ele se apaixonou perdidamente, em um mergulho inconscientemente autocêntrico que o levou a seu fim.

Assim como alguns colegas mais recentemente, escrevo desde 2012 sobre a elevação de aspectos narcisistas na sociedade por conta da crescente presença de tecnologias digitais — inclusive fatos especificamente patológicos, como o aumento concreto de ocorrências das síndromes histriônica e narcisista nos últimos anos. No entanto, impressiona que McLuhan, há cerca de 50 anos, já tivesse algo a dizer sobre o fenômeno.

Reinterpreto os gadgets narcísicos e narcotizantes do filósofo canadense à luz da relação intensa, por vezes entorpecente, que a pós-modernidade digitalizada não só permite, mas estimula, entre humanos e não humanos — cada vez mais próximos factual e simbolicamente na revisitada ontologia.

Em um estranho e confuso amálgama de ego e alteridade, ao portar um smartphone potente, sabemos que ele não é a nossa identidade; não é nós mesmos — uma vantagem aparente em relação a Narciso. Mas, ao segurar aquele aparelho digital omni, também é difícil não nos sentirmos mais capazes, mais inteligentes, mais poderosos — com capacidades estendidas artificialmente. Ainda: quando estes fantásticos objetos inanimados organizam e carregam detalhadas derivações de nossas subjetividades tão humanas — fotos, contatos, vozes, lembranças — aí, de fato, pode ficar ainda mais complicado definir os limites entre sujeito e objeto. Por fim, a delícia de render-se a um tanto de vaidade e torpor talvez seja, tão somente, muito humana. E, quem sabe, pós e trans.

McLuhan_Sociotramas02

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Um comentário sobre “McLuhan: ontologia, gadgets e narcosis

  1. George Lima disse:

    Foucault traz pressupostos talvez interessantes para pensar esse “si” sobre os objetos de comunicação. A “estética de si” e os estudos de ética fornecidos pelas análises de Foucaut traz muito disso no funcionamento dos “enunciados” e dispositivos de poder. No entanto, se formos pensar com Foucault, esse funcionamento não pode ser pensado como estanque ou como algo novo: já houveram outros funcionamentos como este, os quais mantêm uma relação descontínuas com esses meios tecnológicos de comunicação.

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