A internet e os limites

Por Eduardo

Enquanto nos últimos meses alguns veículos apontaram a tecnologia vestível, a internet das coisas[1], outros até apontaram como a Netflix havia superado a TV a cabo em crescimento[2], algumas prestadoras de serviço de telefonia, internet e TV paga, com o então apoio da Anatel, anunciaram que possivelmente a banda larga passaria a ter limite de dados, ou franquia, assim como já acontece com a telefonia celular. Uma vez que esse limite de tráfego de dados no mês (que na telefonia celular é diário) fosse atingido, o serviço seria cortado ou teria sua velocidade drasticamente reduzida, tornando a maioria das atividades realizadas online inviáveis.

Em meio à divisão política e ideológica em que o país se encontra, os brasileiros reconhecem com humor o tema, independentemente da visão política que possuem. Quer se defenda uma maior intervenção do estado na economia ou a emancipação da economia de qualquer dogma externo a ela mesma; praticamente todos os assinantes de internet banda larga se sentiram prejudicados caso a nova forma de entrega e cobrança do serviço passe a valer. Um dos argumentos mais utilizados? “O começo do fim da democracia digital”.

Vale primeiro lembrar que democracia, segundo Schumpeter (1984), é “o arranque institucional para se chegar a decisões políticas que realiza o bem comum fazendo o próprio povo decidir as questões através da eleição de indivíduos que devem reunir-se para realizar a vontade desse povo”. Vale ressaltar que o autor expõe ainda uma crítica importante que atinge um dos pilares da concepção clássica da democracia: a soberania popular. O que chamamos de governo do povo, a democracia em sua origem etimológica, é uma ficção: o que existe, na verdade, é o governo aprovado pelo povo, “o povo como tal nunca pode realmente governar ou dirigir” (Schumpeter, 1984, p.308-309).

O propósito desse texto é evidenciar como esse projeto de diferente forma de cobrança alertou uma camada privilegiada da população sobre a internet e seus limites, sobre a dissonância entre o que as empresas, órgãos de regulação e, por consentimento e falta de ação, o governo e o que esperam e pensam os usuários sobre a internet hoje e para o futuro. É a intenção, também, mostrar que há de se ir mais fundo, ao mostrar que a democracia digital nunca realmente existiu, e que ao mês de abril do ano de 2016, muito há de se fazer para transformar os meios digitais e a internet em ferramentas verdadeiramente populares.

Dados do IBGE referentes a 2014 mostram que 36,8 milhões de casas estavam conectadas, o que representa 54,9% do total[3]. Em 2013, esse índice era de 48%. O crescimento de um ano ao outro pode ser considerado algo positivo, mas quando comparado à outros países o dilema se intensifica. Ainda mais quando se conclui que metade dos lares no Brasil não estão conectados. No mesmo ano de 2014, por exemplo, 84% dos americanos usavam a internet[4], tendo principalmente uma porcentagem de não-usuários no âmbito rural. A comparação com os Estados Unidos se dá mais pelo número da população e extensão geográfica e, mesmo mais próximos nesses dois sentidos, Brasil e Estados Unidos ainda encontram um abismo entre eles quando o assunto é internet.

Para usar um único censo, de 2012[5], feito pela União Internacional de Telecomunicações de Genebra, na Suíça, pode-se perceber o quanto ainda somos retardatários na corrida para levar internet a toda a população, comparando entre tantos países, Islândia, Japão e Brasil.

aInterneteosLimites01_sociotramas

Claro que a internet ilimitada de banda larga é uma conquista, é óbvio que deveríamos nos orgulhar de não estarmos em lista negras de países que vetam a liberdade de informação por meios digitais. A censura do conteúdo digital é um outro assunto, mais ligado a complexos sistemas histórico-políticos, ao passo que o limite de dados é de motivação pura e simplesmente econômica. Poder fazer a informação circular com razoável liberdade pelos meios digitais é sim uma vitória do Brasil e de outros países, o mesmo não acontece na China ou Coréia do Norte. O que se deve perceber, no entanto, é que a nova forma de cobrança pelo serviço e limitação de dados vai na contramão do futuro; sim, aquele futuro que é digital e infinito. Assim como a limitação da circulação de dados por motivos políticos, a limitação de tráfego de dados também quebra essa promessa de futuro.

Perderão jogadores que jogam online e desenvolvem laços de amizade e camaradagem ao redor do mundo, perderá a indústria dos games por tabela, perderão educadores e alunos de ensino à distância que escolheram o meio justamente pelo digital facilitar o acesso às aulas e, principalmente ao conhecimento. Perderão também os alunos de todos os níveis de ensino cujas aulas são presenciais e as atividades extracurriculares consomem grande quantidade de megabytes e até gigas. Na verdade, perderá a educação como instituição que tanto luta para disseminar o conhecimento, desbravando todo tipo de limite e fronteira. A lista de prejudicados só cresce: como a dos pequenos e médios empresários que acreditaram na substituição das mídias físicas pelo acesso, depósito e distribuição de arquivos pela nuvem; assim também perderão as empresas ligadas a hospedagem de dados na rede. Perdem os amantes do audiovisual que descobriram nos serviços de streaming como a Netflix uma forma de entretenimento e educação quase inesgotável, inclusive para as crianças. Perde a economia criativa e os representantes da geração de millenials, que agora terão que aos poucos deixar de acompanhar os vídeo-diários de seus novos ídolos no YouTube. Perdem aqueles que criam, desenvolvem e mercantilizam aplicativos digitais para solucionar pequenos problemas cotidianos. São tantas perdas que fica difícil contabilizar o tamanho do estrago.

É preciso entender que a ameaça da limitação do tráfego de dados priva sim os usuários de banda larga de liberdade. No frigir dos ovos é limitar a informação, pois escolher entre um ou outro conteúdo de acordo com sua carga de bytes e não de acordo com a linguagem mais aprazível é sim uma imposição, é sim um cárcere. E é o capital que vai ditar mais uma vez quem tem acesso a mais informação. E no fim a escolha vai começar entre essa ou aquela linguagem, tendo em vista a que gasta menos, e depois a estrutura hiperlinkada da internet perderá sua força, uma vez que a busca de informação será interrompida por falta de dados.

Apesar do riso ao se deparar com uma intervenção artístico-humorística sobre a famosa pirâmide de Maslow e concordar com sua reedição, a constatação rapidamente ganha um tom meio amargo ao se perceber que a conexão, o wi-fi, o estar-online, a internet, se tornaram mesmo necessidades de primeira grandeza.

aInterneteosLimites02_sociotramas

É por isso que é necessário, então, perceber que a internet como serviço deve ser pensada exatamente como aqueles que se encontram na base da pirâmide: água, luz, abrigo, comida e necessidades fisiológicas. São necessidades vitais, que fazem a gente pulsar, que nos lançarão ao amanhã. Esse futuro da internet deveria ser, sim, sua onipresença e acesso barato e rápido, com alta capacidade de tráfego de dados ou até com dados ilimitados. Tudo isso por se tratar de uma ferramenta de desenvolvimento humano acima de tudo. Por ficar cada vez mais difícil imaginar o desenvolvimento da ciência, cultura e sociedade sem ela. A não ser que se trate de uma obra de ficção pós-apocalíptica em um universo distópico. Talvez esse seja um dos nossos futuros possíveis.

Apesar dos argumentos da direção da Anatel (órgão que regulamente a telefonia e internet), que afirma ser a cobrança por transferência de dados uma tendência mundial, o mundo parece dar provas contrárias. Em janeiro foram anunciados a substituição de orelhões na cidade de Nova Iorque por pontos gratuitos de Wi-fi. A previsão da prefeitura é de que 7.500 orelhões recebam os pontos de Wi-fi até o final de julho[6]. Enquanto isso, o Japão também se orgulha de sua “conexão mais rápida do mundo” e desenvolve sua cultura online a todo vapor. De fato países como Canadá e Reino Unido oferecem limitações de dados de banda larga, sim, mas que rarissimamente são alcançados pelos usuários e a qualidade do serviço em termos de estabilidade e velocidade está a anos-luz da situação brasileira. Sem um apontar de dedos ou levar o que está acontecendo na internet no Brasil como algo que é fruto do momento político, e ainda sem intenção de denunciar os problemas entre as empresas prestadoras de serviços, agências regulatórias e o governo —­ e o potencial de corrupção que isso gera — basta apenas dizer que: sim, devemos lutar para que a limitação de dados de internet banda larga nunca seja executada.

Devemos também pensar na outra metade dos brasileiros que ainda não possui acesso à internet e cobrar que a tecnologia chegue mais longe e de maneira mais eficiente, com maior velocidade e estabilidade. Após o intenso debate sobre a digitalização das cidades, as sonhadas smart cities, que o Sociotramas tanto fomentou no ano de 2015, devemos também pensar e lutar por uma internet onipresente e pela digitalização do ambiente público pelo qual passamos e que tantas vezes utilizamos até com maior frequência do que nossos espaços privados.

É preciso lembrar que a limitação dos dados, a limitação de velocidades, ou a limitação geográfica ou ocasional de acesso à rede é, de muitas maneiras, uma limitação de acesso à informação. Por mais que não exista uma figura ditatorial quebrando direitos de liberdade de expressão e podando os braços da informação como mecanismo de controle e poder, precisamos refletir seriamente sobre o fato de que já possuímos uma metade excluída, sem acesso qualquer à internet. Não obstante o fracasso de inclusão digital, nos encontramos entre as conexões mais instáveis e lentas do mundo. Limitar o tráfego de dados é tornar esse gráfico da exclusão mais complexo e estratificado, é abrir novos níveis de privação à informação, criando um abismo ainda maior entre os brasileiros.

Referências Bibliográficas:

SCHUMPETER, Joseph A., Capitalismo, Socialismo e Democracia, Rio, Zahar, 1984.

[1] http://www.buzzfeed.com/ignitiononelatam/16-tendancias-digitais-para-2016-28xec

[2] http://www.innovarepesquisa.com.br/blog/netflix-supera-tv-aberta/

[3] http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2016/04/internet-chega-pela-1-vez-mais-de-50-das-casas-no-brasil-mostra-ibge.html

[4] http://www.pewinternet.org/2015/06/26/americans-internet-access-2000-2015/

[5] “Percentage of Individuals using the Internet 2000-2012”, International Telecommunications Union (Geneva), June 2013, retrieved 22 June 2013

[6]http://www1.folha.uol.com.br/tec/2016/01/1725628-nova-york-comeca-a-trocar-orelhoes-por-pontos-de-wi-fi-gratuitos.shtml

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s