Ilustração Kamen Kamenov

Redes sociais como sintomas

Por Lucia Santaella

Em 27 de agosto de 2012, neste blog do Sociotramas, em um post sob o título de “O circuito dos afetos”, escrevi que as redes sociais são regidas pela auto-organização, autodisciplina e autocontrole internos — que são próprios aos sistemas abertos e dinâmicos, fora do equilíbrio” Escrevi ainda que nelas “falam as afecções, as afetividades, as emoções, a superfície à flor da pele dos sentimentos”. Desde então, quatro anos se passaram, e, quando se trata das redes de relacionamento, como é o caso do Facebook, cada ano pode ser contado em muitos. As redes se modificam à velocidade com que o tempo passa no formigueiro dos comportamentos humanos, em uma época dominada pela acumulação de sensações.

Ora, o que caracteriza a sensação é que ela fica submetida ao desgaste provocado pelo hábito de modo que, para continuar sensação, é preciso alimentá-la com sensações cada vez mais intensas. Essa é a lógica que parece reger as sociedades espetacularizadas do capitalismo tardio. As redes, evidentemente não estão alheias a isso, principalmente quando funcionam como sintomas do cadinho de conflitos sociais. O que ferve na realidade vivida, produz borbulhas na superfície dos discursos arrebatados que, incitados pelo imediatismo dos cliques e do dedilhar nervoso, reagem à maneira de atos reflexos, desprovidos da mediação da reflexão.

Tendo isso em vista, o que escrevi em 2012, precisa ser repensado, especialmente no contexto do Brasil de hoje. Enquanto lá, com muito menos usuários, o Facebook era dominado por sentimentos relativamente brandos ou de variáveis intensidades que são típicos dos momentos de celebração, das paisagens de lazer merecido, dos encontros entre amigos, dos instantâneos de alegria ou testemunhos de dor, hoje, as redes assemelham-se a um sismógrafo que ininterruptamente registra as ondas sísmicas do sistema nervoso social. Os ânimos, sem dúvida, alcançaram o ponto máximo de fervura.

Diante dessa constatação, entretanto, minha intenção aqui não é aquela de formular julgamentos de valor, nem aquela de fornecer conselhos apaziguadores, muito menos aquela de pontificar lições morais e cívicas. Sem negar que possam existir ocasiões adequadas para isso, prefiro chamar atenção para a obra de um filósofo que se constitui em pensamento-chave para se avaliar a questão do sentir e das sensações, esta que se tornou questão primordial nas sociedades contemporâneas e que pulsa até mesmo com certa violência nas redes sociais.

Trata-se da obra do italiano Mario Perniola que, a convite do grupo de pesquisa Atopos, coordenado por Massimo di Felice, na ECA/USP, visitou recentemente o Brasil. Escritor prolífico, Perniola tem um bom número de seus livros publicados em nossa língua, tanto no Brasil como em Portugal. Mais conhecido em nosso meio devido ao chamativo título do livro O sex-appeal do inorgânico, já em 1991, com tradução em 1993, publicou o livro Do sentir, este que contém, avant la lettre, um diagnóstico precioso dos modos de sentir na contemporaneidade e que encontra nas redes sociais sua forma mais exemplar de manifestação.

Perniola defende a tese de que, quando pensamos estar sentindo, ou sentimos estar sentindo, na realidade estamos sentindo o já sentido. Isto quer dizer que os objetos, as pessoas, os acontecimentos apresentam-se como algo já sentido, que vem ocupar-nos com uma tonalidade sensorial, emotiva, espiritual já determinada. Na verdade, não é entre a participação emotiva e a indiferença que reside a distinção, mas entre o que está por sentir e o já sentido. Isso atinge todos os níveis de nossa experiência até o ponto de percebermos como já sentida até mesmo “a experiência à primeira vista mais imediata e mais íntima, a do nosso próprio corpo que se tornou objeto de uma atenção cosmética, terapêutica e hedonista sem precedentes” (p. 19).

A tese é fundamentada em três grandes eixos: a transformação da ideologia em sensologia, a da burocracia em mediacracia, e a do narcisismo em especularismo. Quando as sensações se exacerbam até o limite da excrescência, não há lugar para os discursos pretensamente coesos das ideologias. “Se a ideologia era a socialização dos pensamentos, a sensologia é a dos sentidos” (p. 15). De fato, coletivizam-se as sensações não pela atração que as ideias prontas das doxas exercem sobre as mentes frágeis, mas pelo poder que as sensações têm de contágio virótico. Já a passagem da burocracia à mediacracia não consiste apenas na transferência do domínio do sentir, da sensibilidade e da afetividade do ser humano para os aparatos e dispositivos, mas também na virada dos interesses e necessidades para as sensações como fins em si mesmas.

Quanto à noção do especularismo, graças à qual Perniola se livra dos clichês do narcisismo e exibicionismo, que hoje infestam as análises das redes, trata-se do aspecto mais inquietante do sentir o já sentido, quando

não só a imagem de nós próprios não nos pertence completamente, mas até o modo como sentimos nos parece de certo modo estranho e, por assim dizer, prefixado. Se, para o narcisista o mundo é um espelho em que ele olha a si próprio, a experiência do já sentido parece ligada ao fato de se tornar o espelho em que o mundo se olha. Por isso, talvez seja menos oportuno falar de narcisismo do que de um especularismo que reflete experiências prefiguradas (p. 19).

Com isso, o ponto mais profundo do sentir contemporâneo surge como “um metassentido que rejeita a possibilidade de sentir algo para além de si próprio: mas até este sentir-se a si próprio se apresenta sob a forma do já infinitamente sentido”. Como se pode ver, é radical a subversão crítica com que Perniola desconstrói as noções teimosamente românticas e ilusórias do sentir. Por isso mesmo, seus conceitos se constituem em instrumental cirúrgico imprescindível para se penetrar nas nervuras dos modos de sentir das redes.

Referências:

Perniola, Mario. Do sentir, Antonio Guerreiro (trad.). Lisboa: Editorial Presença, 1993.

___________. O sex appeal do inorgânico. Nilton Moulin (trad.). São Paulo: Estudio Nobel, 2005.

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