Essena: essencialmente, aparente

Por Mariane Cara

Lá se foram três meses desde o alvoroço provocado pela blogueira australiana Essena O’Neil, quando resolveu deletar mais de duas mil fotos e modificar as legendas de outras tantas imagens, postulando categoricamente: as redes sociais não representam a vida real! Dos perfis excluídos no YouTube, Tumblr e Instagram, passando pelo vídeo em que expressa a angústia de viver entre dois mundos opostos, até seu mais recente email, Essena retorna ao eterno questionamento platônico da cisão entre aparência e essência.

Mas será que podemos manter o discurso apenas em torno desta dicotomia?

Para iniciarmos uma breve reflexão sobre o tema, é válido apresentar trechos do email de Essena, extraídos do The Guardian:

“Eu estava conseguindo mais e mais seguidores, visivelmente ainda mais magra e com imagens ainda melhores e mais interessantes. Na rede parecia que eu tinha a vida perfeita… só que eu estava completamente solitária e miserável por dentro. (…) Estava perdida, com sérios problemas lindamente escondidos. Minha carreira foi construída por minha personalidade perfeccionista, pelo meu vício por redes sociais e pela minha baixa autoestima. Ali havia um excesso de sensualidade/sexualidade, fotos perfeitas de pratos, vlogs indefectíveis de viagens. Esta era a prova de como eu me tornei famosa”.

A mensagem foi finalizada com o pedido de quem passou a maioria da adolescência lapidando sua imagem nas redes:

“Por favor, se eu puder falar uma última coisa: não me idolatrem. Não idolatrem ninguém, especialmente personalidades que você vê no universo das redes” (tradução pessoal).

Imagem extraída do vídeo de Essena O´Neill

Imagem extraída do vídeo de Essena O´Neill

Em seus atos e textos, a blogueira procura incessantemente estabelecer a oposição entre o off-line e o on-line, validando o primeiro e colocando em descrédito o segundo, porém esta divisão da experiência cotidiana já não é mais praticável, posto que nossas ações diárias estão tão entrelaçadas em ambas as situações que as fronteiras ficam esboroadas. “Ser e aparecer coincidem” como nos lembra Hannah Arendt em A vida no espírito (p. 17), tal como coincidem o off-line e o on-line. Nem a essência é a detentora exclusiva da verdade, tampouco a aparência é simplesmente um falseante, de matéria artificial.

O cerne no caso de Essena O´Neill não reside na separação entre essência e aparência: o fato é que em ambos a garota sofria o peso da proeminência da imagem na vida cotidiana. E este peso não é exclusividade das redes.

Estamos no labirinto inebriante dos duplos do corpo antes mesmo de Narciso, porém ainda mais detidamente a partir da revolução industrial, que inventou tanto a fotografia quanto a juventude. A partir da maravilha tecnológica das câmeras e sua alta capacidade de reprodutibilidade, instaura-se um novo modelo imagético, que resultou no privilégio da visão e da ênfase nas imagens, a virada pictorial/pictorial turn (Mitchell, 1994). Soma-se a este panorama as demais tecnologias de visualização, que tiveram grande desenvolvimento nas últimas décadas do século XX, incluindo as câmeras de vigilância, as técnicas médicas de diagnóstico por imagem, a alta exposição aos duplos midiáticos, o avanço do digital e, somente então, as redes sociais, que permitiram aos usuários a exposição irrestrita de suas imagens intencionais.

Se a vontade de ver e ser visto vem de tempos imemoriais, agora na versão pixelada reflete nossas mais profundas convenções culturais estetizantes, traduzidas em poses, efeitos, cenários, objetos de cena, roupas, maquiagens e tantas outras intencionalidades que lá estão, extravagantemente visíveis nos duplos do Instagram, do Facebook, do Snapchat ou de qualquer outra rede. Carinhosamente batizadas de Selfies, palavra tão em voga desde os idos de 2013, estamos diante de imagens meticulosamente pensadas antes do click (pré-produção), na escolha do enquadramento e efetivação (produção) e na manipulação dos filtros (pós-produção).

Não que Essena estivesse despida de sua essência nas imagens e postagens do Instagram, Tumblr ou YouTube. Ali, víamos uma Essena essencialmente aparente, constantemente à luz, manifestando-se em diversas e mutantes morfologias regidas pelo Super Eu crítico, que forçava a alteração e a edição da imagem do corpo. Na ânsia de satisfazer-se com sua produção visual, Essena postava provas indiciais de uma presentificação frágil, porque articulada pelas convenções impossíveis do corpo-moda.

Se no auge da fama suas imagens foram signos sem endereçamento carnal pleno, igualmente foram signos de forte referente psicossocial.

Apesar de todas as edições e intencionalidades executadas por Essena O´Neill, não é possível caracterizarmos suas imagens como simulacros absolutamente falsos e ilegítimos. Enquanto aparência, eram parte de um todo, pois de certa forma representavam visualmente os desejos subjetivos de uma adolescente que queria se destacar para ser aceita.

E para sair do vício pela imagem, Essena busca uma árdua e difícil reconfiguração. Mas como não se tornar signo ainda mantendo presença nas redes? Atualmente ela responde dando voz à terceiros, indicando TEDs, documentários, livros, músicas e dicas de veganismo.

Uma das fotos em que a blogueira mudou a legenda, explicando o duro processo de pré-produção e produção da imagem.

Uma das fotos em que a blogueira mudou a legenda, explicando o duro processo de pré-produção e produção da imagem.

Se você quiser se aprofundar nos temas relacionados à juventude e redes sociais, sugerimos a leitura do nosso livro A onipresença dos jovens nas redes, publicado pela UFG e com distribuição gratuita. O livro não é comercializável, mas está sendo disponibilizado nas bibliotecas universitárias de todo o país. Caso a biblioteca de sua universidade ainda não possua um exemplar, peça para o responsável da biblioteca entrar em contato conosco.

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