Dead malls: redes sociais e apropriação do espaço público como território de convívio

Por Fabio de Paula

Rua Quintino Bocaiúva, São Paulo, 1951 - Reprodução: Coleção Chico Albuquerque http://www.chicofotomoderna.net/

Rua Quintino Bocaiúva, São Paulo, 1951 – Reprodução: Coleção Chico Albuquerque http://www.chicofotomoderna.net/

O declínio dos centros de compras, conhecidos no Brasil como shopping centers, é a pauta de uma série de artigos publicados pela imprensa internacional ao longo de 2014 e 2015. Causado por crises econômicas, pela ascensão do e-commerce, e pela consolidação da web e das redes sociais como espaços de relacionamento, tal fenômeno é categorizado pelo termo dead mall, e suscita uma série de questionamentos relativos às transformações que ocorrem não apenas no modelo de se fazer compras, mas também de se morar e de se locomover. Esse processo está em curso e deve ocasionar uma radical mudança na configuração das cidades contemporâneas, onde o espaço público pode retomar sua função de território de convívio e adquirir novo protagonismo nas sociedades urbanas.

No artigo “The death of the American mall” , publicado em 2014 no jornal britânico The Guardian, David Uberti confirma que entre os elementos que causam o declínio dos shopping centers está, primeiramente, as crises econômicas; mas, também, a consolidação do e-commerce como ferramenta de consumo. O jornalista aponta que está em curso uma revolução de costumes motivada pela web e pelas redes sociais como determinantes de uma (já não tão) nova rotina do homem em seus relacionamentos pessoais e profissionais.

Já o historiador e jornalista especializado em economia Nelson D. Schwartz, no artigo “The Economics (and Nostalgia) of Dead Malls” publicado em 2015 no jornal norte-americano The New York Times, diz que o declínio dos centros de compras resulta, entre tantas outras transformações, do atual ocaso do estilo de vida ocidental, consolidado a partir do pós-guerra, e baseado no consumo de bens materiais resultantes da produção industrial em massa. Nesse fenômeno, web e redes sociais novamente surgem como alguns dos causadores de tal mudança.

Para ele, o american dream — o sonho da casa unifamiliar, do automóvel particular ou, ainda, de um cartão de crédito sem limite para consumo em um shopping center, possivelmente o arquétipo maior desse modelo — já não tem o apelo de status para as gerações nascidas sob a égide da internet, como o que possuía ou ainda possui entre aqueles que nasceram até o final da década de 1970 — exatamente aqueles que passaram infância e adolescência sem a presença da web na construção de seus paradigmas de status e sucesso.

Assim, a perda do poder de compra, resultante no caso dos Estados Unidos de sucessivas crises econômicas, pode ser apontada como um primeiro causador desse declínio dos centros de compras. Mas, tanto na América do Norte quanto em outros países como o Brasil, onde se consagrou o modelos dos shopping centers e o consequente declínio de áreas públicas voltadas ao comércio, como ruas de bairro e áreas centrais, esta decadência é motivada por uma série de outros fenômenos sociais, econômicos e, portanto, urbanos.

Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, 1941 - Reprodução: http://rioantigo.org/?p=68

Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, 1941 – Reprodução: http://rioantigo.org/?p=68

Além (ou aquém) dos debates que povoam a academia, e que preveem a utópica ascensão de uma sociedade colaborativa (ou que, até mesmo, profetizam o fim do capitalismo), tal ocaso resulta em um padrão de vida em que objetos materiais têm um significado de menor relevância se comparados às experiências de vida ou às informações que podem ser armazenadas virtualmente em um computador pessoal. Com isso, o fim da tríade shopping-carro-condomínio como sinônimo de status e estilo de vida consolida-se de maneira gradual, mas constante, e abarca mudanças que atingem a vida do homem em todas suas possíveis escalas espaciais. Desde o armazenamento do conhecimento até o padrão de deslocamentos nas cidades, cada item que compõe a rotina da vida urbana transforma-se com a tal consolidação da web.

A escala maior dessas transformações — as cidades inteligentes — foi o tema escolhido para o 4° Colóquio do grupo de pesquisa Sociotramas, realizado no dia 8 de dezembro de 2015, em São Paulo. Com o título “Cidades Inteligentes: Por Que, Para Quem” (clique aqui e assista o vídeo), o encontro reuniu os pesquisadores que compõem o grupo. Cada um apresentou uma palestra sobre distintos assuntos ligados à influência que a internet e as redes sociais realizam sobre o espaço urbano. Na ocasião, os debates mais acalorados entre os palestrantes e a audiência trataram justamente de analisar como será o futuro das cidades e da vida humana em uma realidade em que a web esteja consolidada. As questões mais contundentes que seguiram cada uma das palestras abordaram diferentes previsões do que sucederá a tríade shopping-carro-condomínio como sinônimo de sucesso.

O caso dos veículos motorizados é o assunto do artigo “O declínio do carro particular” , publicado no final de 2015 no jornal espanhol El País, com autoria do arquiteto Luis Feduchi. No texto, ele convida os leitores a entenderem como a web e as redes alteram a rotina de circulação do homem em suas atividades profissionais e pessoais, diminuindo a necessidade de locomoção e promovendo a decadência do uso irrestrito dos automóveis particulares. Não se cogita seu fim, mas se entende que a solução que ele apresenta — dependente de elevado consumo de combustível, e, também, de excessiva ocupação da área disponível no espaço público (sobretudo se comparado a outros meios de locomoção coletivos) — já não atende às necessidades do sujeito contemporâneo cuja rotina justamente assiste a uma notável transformação causada, entre outros fatores, pela web.

Já no caso das residências, obviamente a dúvida não paira sobre o fim da moradia, que afinal é uma necessidade básica do homem, mas sobre como será este morar em que, de um lado da régua de escalas, mais vale um computador repleto de arquivos do que uma estante cheia de livros e fotografias. E, de outro, mais vale uma casa pequena e com tudo a mão — como, por exemplo, um computador de última geração — do que uma morada com dezenas de cômodos e objetos de decoração sem função imediata. Contudo, se há uma dúvida sobre o modelo de compras que esbarra mais na materialidade do objeto de consumo do que no hábito de consumo em si, talvez o espaço público retome o protagonismo em detrimento de modelos particulares como os de condomínios fechados e, novamente, dos shopping centers.

Ora, a mudança no padrão de consumo não resulta necessariamente em uma transformação na percepção da cidade e no uso de suas calçadas e praças, e, portanto, em sua consequente reapropriação. Mas, como apontam os artigos, há uma mudança na própria percepção do consumo como sinônimo de status. A figura urbana do hipster talvez seja a personificação máxima deste novo perfil — para os nascidos sob a égide da internet, em uma geração chamada de millenials, o convívio no espaço físico é, para a surpresa das gerações, mais valorizada do que nas redes sociais ou nos aplicativos de relacionamento. Dessa forma, é possível desejar e até prever que os dead malls abrirão espaço para um novo entendimento do espaço público que inclui novos tipos de uso e ocupação, mas também o convívio, o lazer e a fruição da vida urbana — justamente aqueles que são anteriores ao surgimento dos shopping centers como espaço de compras e convívio, à consolidação do automóvel particular como principal meio de transporte, e à construção do ideal da casa unifamiliar em condomínio fechado como sinônimo de sucesso.

A cidade, porém, é resultado de distintos fatores. Como um organismo vivo, ela evolui de acordo com fenômenos e ações promovidos por diferentes indivíduos e grupos que nela vivem. Assim, as redes e a web podem, sim, promover o declínio da tríade shopping-carro-condomínio, mas o espaço urbano depende de uma série de outros fenômenos para retomar sua importância. A segurança pública, bem como a qualidade de equipamentos urbanos como calçadas e iluminação, são alguns desses fatores. Por outro lado, a virtualização das relações humanas — justamente resultantes da consolidação da internet e das redes sociais — é um outro viés da web que pode promover um futuro em que as cidades e o espaço público percam ainda mais sua importância como espaços de reunião e convívio. É uma previsão sombria, mas que encontra respaldo em outros pensadores, como o jornalista iraniano Hossein Derakhshan. Após passar seis anos dentro de uma prisão, entre os anos de 2008 e 2014, ele explica para o The Guardian no artigo “Iran’s blogfather: Facebook, Instagram and Twitter are killing the web” como se surpreendeu, ao sair da reclusão, com o modo como as redes sociais estão literalmente matando, em escala mundial, o poder de transformação comunicacional que a web possuía há até pouco tempo. Em um cenário como esse em que as redes sociais também destroem, e diante de tantos fatores que determinam as dinâmicas do comprar, do morar e do locomover-se, é difícil prever se o espaço público das cidades poderá reconquistar, ou não, seu protagonismo em um mundo ditado por ferramentas que centralizam as relações humanas no território virtual.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s