A internet é a nova rua da periferia

Conhecimento, autonomia, autogestão e desenvolvimento tecnológico em áreas à margem da sociedade

Por Cora Rodrigues

Navegando pelo Google Play, serviço de download de aplicativos para Android, eu estava em busca de sistemas colaborativos que pudessem ser estudo de caso para o projeto que estou desenvolvendo no TIDD. A ideia é mostrar que, por meio da inteligência coletiva e da auto-organização, são desenvolvidos aplicativos móveis de rastreamento de informações relacionadas ao entorno urbano, formados por usuários dispostos a colaborar para uma atualização contínua de dados (exemplo de Waze, BO Coletivo, Água Viva).

Estas ferramentas, com intenções diversas, explicitam, em tempo real, determinadas condições da cidade — trânsito, segurança, eventos culturais e escassez da água. São projetos que abarcam um nível qualificado de informação e permitem a promoção de melhorias e facilidades nas cidades a partir de um controle “bottom up”.

Bom, em minha busca, depois de certo tempo utilizando palavras chave como “cidade”, “interativo”, “cidadania”, encontrei uma gama de aplicativos que despertaram minha curiosidade e motivaram o tema deste post. Aplicativos feitos por e para a periferia, todos com um único propósito: melhoria da convivência no entorno.

Como as iniciativas tecnológicas nas regiões periféricas podem diminuir as distâncias entre a inclusão digital e a exclusão social?

Nos últimos dez anos foi possível perceber o aceleramento da produção cultural nas periferias, de forma que, por meio das tecnologias da informação e comunicação (TICs), esta cultura começou a ser percebida e consumida na metrópole — caso claro dos passinhos, clipes do Emicida e vídeos do trio de hip hop Pérola Negra. Para Rowe e Vivian Schelling, “Todos os significados estão disponíveis e transferíveis, de Mozart à música folclórica boliviana, de Dallas às telenovelas brasileiras, de hambúrgueres a tacos. A tendência de produtos de diferentes ambientes culturais se mescla em numa escala global está acelerando (…).” (Rowe e Schelling, 1992, p. 1)

Este protagonismo tecnológico não se restringe apenas a maior visibilidade da cultura periférica musical, mas, como o Google Play revelou, também a iniciativas da comunidade para apropriação de dispositivos digitais e promoção de melhorias no ambiente em que convivem.

Não é possível, hoje, pensar nas mídias móveis sem contextualizar o seu potencial de propor melhorias. Um documentário interessante que retrata esta mudança que a internet trouxe às comunidades é “A vida do lado de cá”, idealizado por Tatiana Ivanovici. A jornalista traz um olhar sobre o uso dos meios digitais tanto para se comunicar como para empreender — é por meio da internet que os jovens lançam livros de literatura, poesia, eventos, memes, músicas etc. Na época da realização do documentário, as lan houses ainda eram o grande espaço de produção de conteúdo da periferia.

Figura 1 - Documentário “A vida do lado de cá”, idealizado por Tatiana Ivanovici. O filme retrata a mudança que a internet trouxe às comunidades.

Figura 1 – Documentário “A vida do lado de cá”, idealizado por Tatiana Ivanovici. O filme retrata a mudança que a internet trouxe às comunidades.

“Esses espaços precisam ser vistos como centros de encontros digitais, capacitação profissional e educacional, e também de convivência, não de mero acesso à internet. Há muitos jovens que estão fazendo faculdade e usando as lan houses para fazer os trabalhos”, analisa Tatiana na entrevista concedida ao Instituto Claro. Como bem cita Sérgio Vaz, poeta da periferia e criador da Cooperifa, “a internet é a nova rua da periferia”.

A partir deste acesso ao universo digital, os jovens investem em iniciativas bottom up de melhorias da periferia, levando junto toda a comunidade, e usando como principal ferramenta os dispositivos móveis. A possibilidade desta participação se dá, segundo Habermas (1987), por que todos os sujeitos são capazes de linguagem e ação, podendo identificar seus problemas com mais propriedades do que atores externos.

Neste sentido, Freire (1987, p. 31) diz: “(…) quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela.”

Para, enfim, exemplificar a apropriação tecnológica destes jovens para a criação de sistemas colaborativos de melhorias na comunidade, levantei três dos aplicativos mais interessantes que encontrei.

Figura 2 -

Figura 2 – Projeto Sonhar

O primeiro, “Projeto Sonhar”, foi desenvolvido por Marcos e Alex que, após experiências degradantes na periferia em que moravam, procuraram a Casa do Zezinho, instituição de apoio a crianças e jovens em situação de risco no Capão Redondo. Uma década depois, a vontade de oferecer a mesma ajuda a outros jovens levou Marcos a buscar trabalho em outra instituição da região, o Instituto Rukha.

Em 2011, o Rukha encerrou as atividades por falta de patrocínio. Mas esse fim se mostrou um novo começo. “A gente sempre falava para os jovens no antigo instituto que palavra de homem não faz curva”, afirma Marcos, usando uma expressão que indica compromisso com o que foi dito. “Não iríamos deixar os moleques”.

Os jovens atendidos pelo Rukha foram convidados a seguir no Projeto Sonhar, atualmente mantido pelo Afroreggae por empresas privadas. Além dos encontros e encaminhamentos, o projeto também oferece cursos de inglês, violão e ajuda na recolocação profissional. Os números podem ainda não impressionar, mas como diz o provérbio escrito numa parede na sede do Sonhar: “Gente simples fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes conseguem mudanças extraordinárias”.*

*Conteúdo retirado da própria descrição do aplicativo.

Figura 3 -

Figura 3 – Periferia em Movimento

O Periferia em Movimento é um coletivo de comunicação sobre, para e das periferias. Aplica a difusão e apoio das ações sociais, culturais, políticas e econômicas desenvolvidas nas margens das grandes cidades, principalmente em São Paulo. O aplicativo funciona como um veículo de comunicação alternativo à grande mídia, observando e retratando as comunidades de um “olhar de quem está dentro e para quem está dentro”, como diz sua descrição.

Figura 4 -

Figura 4 – My Fun City

My Fun City foi selecionado pela Organização das Nações Unidas (ONU), no prêmio WSA-Mobile 2013, como a melhor plataforma de cidadania no meio digital. O usuário pode avaliar doze temas relacionados a sua vida pessoal, gestão pública e serviços. Os dados captados são acumulados e usados em um relatório preciso do índice de bem-estar dos usuários das cidades citadas. A equipe de jornalistas do aplicativo ainda os analisam, selecionam e transformam as informações mais relevantes em matérias, vídeos, artigos e imagens.

Figura 5 -

Figura 5 – Cultura de Ponta

Desenvolvido pela Fábrica de Aplicativos, o objetivo do Cultura de Ponta é revelar a produção cultural nas pontas da cidade de São Paulo, com agenda cultural e educativa da periferia. Desta forma, as diversas ações que, na maioria das vezes ficam invisíveis na própria comunidade, são mapeadas para quem é de fora e, principalmente, quem é de dentro.

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