O mundo pode ser tão grande ou tão pequeno como você o faz ser

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Por Patrícia Fonseca Fanaya

No livro “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” (2. ed. rev. — São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2011), Edgar Morin aponta a importância do pensamento complexo, ecologizado, capaz de relacionar, contextualizar e religar diferentes saberes ou dimensões da vida. Para ele, a humanidade precisa de mentes mais abertas, escutas mais sensíveis, pessoas responsáveis e comprometidas com a transformação de si e do mundo. Isso só seria possível mediante a criação de espaços dialógicos, criativos, reflexivos e democráticos capazes de viabilizar práticas educacionais centradas na condição humana e baseadas na compreensão, na diversidade cultural, na solidariedade, na ética e na justiça social.

Fiquei pensando em sobre como é fácil (e até certo ponto, comum) deparar-se com aqueles que se apropriam dessas ideias a fim de elaborar discursos politicamente corretos, porém completamente dissociados da realidade dos dogmas e das práticas educacionais correntes tanto no Brasil como em tantos outros lugares do mundo.

Há, por outro lado, uma verdade urgente e irrefutável nas ideias de Morin. E não é necessário ir muito longe: basta lembrar os episódios recentes da crise humanitária vivenciada pelos imigrantes que, fugindo de condições de vida deploráveis em suas terras natais, correm todos os tipos de riscos ao viajarem em condições precárias e desembarcarem, aos milhares, todos os dias, no continente europeu.

Esses episódios migratórios levantam, obviamente, inúmeras questões, mas vou deter-me apenas naquelas relevantes aos objetivos deste post: 1) crianças e adolescentes, em idade escolar, chegam às centenas, todos os dias, e, de uma maneira ou de outra, precisarão ser “absorvidos” pelos sistemas educacionais europeus; 2) tanto aqueles que chegam quanto os que os recebem estão, até determinado ponto, imersos em sistemas de crenças e imbuídos de convicções que predominam em suas culturas e sociedades de origem; 3) a realidade, no entanto, é que todos terão que lidar, ao mesmo tempo, com o inesperado, o imponderável, o “estranho”, o “diferente”, o aceitável e o inaceitável para qualquer um dos lados. A realidade e os novos fatos se imporão, inevitavelmente, às crenças, aos dogmas e às práticas educacionais vigentes até então.

Retorno a Morin, para quem, é necessário destacar “as grandes interrogações sobre as nossas possibilidades de conhecer” (ibid. p. 29). Para ele, o conhecimento do conhecimento só se dá quando há a integração do conhecedor em seu próprio conhecimento — o que deve ser um princípio, um dos fundamentos de qualquer educação. Somente por meio da compreensão da existência de diferentes condições bioantropológicas, socioculturais e noológicas é que as verdadeiras interrogações sobre o mundo, o homem e o próprio conhecimento emergem. Permito-me acrescentar, aqui, que não basta compreender intelectualmente essas diferenças existenciais, pois é apenas por meio da intimidade com a realidade que se impõe muitas vezes à força — como no caso dos refugiados — e com a convivência com os fatos concretos, que somos obrigados a lidar com o exercício árduo de aprender com a experiência.

Vi-me refletindo sobre a dificuldade que é para um educador de verdade conviver com todos os tipos de situações adversas no universo de uma escola, de uma sala de aula, num mundo que por um lado parece menor — graças às tecnologias de acesso e conexão; mas, que, por outro, está sofrendo tardiamente os efeitos de uma globalização que deixou de apresentar apenas sua face econômica para apresentar-nos uma face bem mais humana, repleta de graças e desgraças, de saúde e de doenças, de fanatismos religiosos e sentimentos xenofóbicos. Não estamos lidando mais com as peculiaridades ou dificuldades de vender biscoitos ou refrigerantes aqui ou no Afeganistão, no Líbano ou no Iraque, mas sim de ter que aprender a lidar com multidões de diferentes e multitudes de diferenças que chegam a nós, todos os dias, por avião, barco ou pela rede mundial de computadores.

Como é possível colocar em prática um projeto de educação como o proposto por Morin num mundo cada vez mais complexo e cheio de nuances? A tarefa é difícil, sim. Dificílima. Mas, como a história humana sobre a face deste planeta nunca foi feita de facilidades — e é graças a nossa engenhosidade, capacidade de cooperar, resolver problemas e de lidar com questões difíceis que sobrevivemos como espécie — é que me permito ser otimista em relação ao nosso poder de desenvolver novas habilidades para lidar com esses problemas que se impõem.

A iniciativa que foi capaz de inspirar esse meu otimismo (mesmo que momentâneo) veio de um projeto chamado Do Remember Me Project, coordenado pela poetisa e cineasta Sannii Crespina-Flores, o qual proporciona a adolescentes americanos das cidades da Filadélfia e de Nova Iorque se conectarem, via Skype, a outros adolescentes na Tanzânia, Nigéria, Uganda, Quênia, Paris e Cazaquistão.

Os adolescentes americanos que participam do projeto frequentam escolas em comunidades pobres e a maioria deles vem de famílias consideradas em situação vulnerável. As escolas que eles frequentam possuem detectores de metal na entrada, não são adequadamente equipadas e muito menos possuem os melhores professores. A cada novo dia de aulas eles são confrontados com os obstáculos impostos por essa realidade. Nada diferente do que constatamos existir no Brasil e em inúmeros outros países do globo.

O grande objetivo do projeto coordenado por Flores é despertar a consciência de que são inúmeras as diferenças culturais e sociais que nos separam uns dos outros, mas também incontáveis as possibilidades que temos de ultrapassar, contornar e/ou superar essas diferenças por meio do diálogo, do genuíno interesse pelo outro, da experiência de se aproximar daquilo que nos é “estranho”.

Flores estimula os adolescentes a iniciarem uma conversa a partir de perguntas simples de uns para os outros, como, por exemplo, o que te faz feliz? Você tem muitos amigos ou prefere estar sozinho? O que você acha que as pessoas pensam de você? Você já sofreu preconceito? Você tem algum talento especial?

A poderosa experiência de se aproximar de alguém tão diferente, que habita outro lugar no planeta, proporcionada pelo diálogo, com a ajuda das tecnologias de conexão e acesso, tem o poder não só de despertar a curiosidade, fazer crescer a compreensão das diferenças e igualdades, mas também de aumentar a empatia e despertar o pensamento crítico. Em outras palavras, é uma espécie de imersão em outras realidades que ajuda a educar os sentidos, a percepção e as emoções em relação a um “outro”, que deixa de ser o “objeto” de nossos medos, preconceitos e dogmas e se transforma numa fonte de aprendizagem inesgotável. Afinal, somos todos humanos e, queiramos ou não, estamos juntos e cada vez mais conectados no mundo, que como bem disse um dos meninos no documentário sobre o projeto, pode ser tão grande ou tão pequeno quanto você o faz ser.

O que consigo enxergar de resultados num projeto como esse passa por diversas questões propostas por Morin: educação para a compreensão, para a cidadania terrestre (conceito dele), para a autonomia individual, para a participação comunitária, para as diferenças e igualdades. Enfim, posso resumir esse projeto como uma verdadeira educação para a consciência humana. Assim como nos propõe Morin.

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