Haters: a superexposição da barbárie interior

Por Kalynka Cruz-Stefani

“O grande acontecimento do século foi a ascensão
espantosa e fulminante do idiota.”, Nelson Rodrigues

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Os haters… Bem que eles poderiam ser apenas personagens de livros, isto tornaria a vida on-line – e presencial – mais leve, palatável. Mas eles não são. Esses disseminadores do ódio são pessoas – aparentemente – extremamente infelizes e descontentes com elas mesmas. Enquanto me aprofundo nos mais diversos fóruns da internet, notadamente nos grupos do Facebook, descubro um mundo bastante diferente do que gostaria de encontrar como pesquisadora do amor. É no ódio que encontro os mais frequentes exemplos que tenho coletado para a minha tese. Por isso, neste post de hoje, decidi falar um pouco sobre o perfil desse personagem sombrio.

Antes quero esclarecer que é preciso distanciar-nos da polemização partidária, por este motivo este post não vai falar dos haters da política. Até mesmo porque acredito que estamos nos afogando nesses debates diariamente e por conta disso estamos todos saturados, sufocados, submersos. Quero apresentar-lhes aqui os haters descontextualizados deste objeto que transforma cidadãos comuns em disseminadores de ódio. No mais, na maioria das vezes os debates políticos são povoados na verdade pelos trolls (uma espécie de parente próximo dos haters). Os trolls têm como objetivo desestabilizar um debate, desmoralizar o opositor, fazer valer seu ponto de vista por meio da “destruição” do outro.  Trolls são exemplos da moralina moderna, embora entre os trolls da política encontremos também haters.

Não importando a causa, haters, como o nome diz, são os odiadores, os cavaleiros negros do apocalipse-web, os dementadores[1] da vida digital. Eles não podem conviver com o sucesso, com qualquer tipo de felicidade alheia que difira daquilo que entendam culturalmente como verdade. Não se trata de inveja, de querer o que outro tem; é mais obscuro que isso. Trata-se de tentar destruir o outro por causa de sua aparência, por causa de uma ideia, ou maneira de ser e viver diferente da sua. Por motivos desconhecidos, os haters são responsáveis por espalhar mensagens desagregadoras, violentas, palavras de ódio, ou, na mais perfeita definição que pude pensar, haters são aqueles que, em crise ética, especializaram-se em, por meio da linguagem, desumanizar o outro, em um exercício de ruptura social, desamor e superexposição da barbárie interior. Desumanizar, como diria Morin, significa transformar em lixo, excremento, um ser humano apenas porque ele é diferente de quem desumaniza. Essa desumanização talvez seja o bálsamo psicológico de um hater. O outro merece ser odiado porque não é humano, é um nada, é algo que o incomoda, logo, torna-se um “inimigo” que não tem face, que não se assemelha a qualquer coisa que possa suscitar empatia. Um hater nunca vai se colocar no lugar do outro, ele não pode, porque o lugar que o outro habita é o motivo principal de seu ódio. Logo, na sua lógica, tudo é permitido.

A fórmula do hater mistura uma boa dose de bullying, humor perverso, violência verbal e assédio. Muitos famosos são vitimados por esse coquetel e, claro, encontramos muito mais estórias que envolvem haters e estes personagens públicos.

Demi Lovato, por exemplo, que teve uma adolescência transmitida on-line, com ênfase em suas crises existenciais, foi uma vítima constante dos haters. Uma busca no Google por Demi Lovato vai trazer à tona uma série de tumblrs que foram criados declaradamente para promover o ódio contra a cantora, assim como muitos outros.

Em recente comercial na TV, a cantora Anitta foi surpreendida por uma sequência de twitters agressivos que, apesar do humor que ela tentou dar à situação, deixaram-na em situação visivelmente desconfortável.

O cantor inglês James Blunt, em entrevista ao Globo, descreveu o que ele entendia do comportamento dos haters: “Eu realmente acho que essas pessoas vivem nas sombras. Ficam em seus quartos, provavelmente peladas, provavelmente solitárias, escrevendo algumas palavras de ódio”. Pode ser que James Blunt, por um lado, tenha alguma razão, mas, por mais tenebroso que possa parecer, o hater também pode ser o vizinho ao lado. Pode ser o cidadão supostamente comum e ilibado. Aquele amigo que ri de suas piadas, a cabeleireira falante, o médico talentoso, o patrão compreensivo. Mas, em que momento o cidadão comum se permite vestir a máscara do hater? Acredito que seja quando ele ganha o anonimato e também quando acredita que está fora do mundo real, longe fisicamente de suas vítimas.

Os haters de “artistas” citados anteriormente, apesar de causarem “danos” e protagonizarem verdadeiras guerras virtuais contra os fãs de um determinado artista e contra os próprios artistas, são apenas um pálido reflexo dos haters do cotidiano. Em minhas pesquisas na internet, em um exercício antropológico virtual, dedico-me integralmente a observar posts pessoais, comentários de reportagens, postagens em grupos, comportamentos sociais nas mais diversificadas esferas. Entre as comunidades que observo encontra-se, por exemplo, uma prosaica comunidade de culinária, onde, teoricamente, espera-se um ambiente mais colaborativo. No entanto, o que acontece com frequência é o exercício do ódio. É muito comum ver uma pessoa ser atacada porque seu trabalho é muito superior aos que costumam ser postados, ou muito inferior. Quando uma famosa boleira postou, por exemplo, a foto de um bolo que fez para o casamento de famosos, recebeu mais de 100 comentários. Entre eles, muitos que a atacavam com palavras de baixo calão e que desqualificavam seu trabalho. No extremo oposto, uma jovem mãe solteira declarou que gostaria de se tornar quituteira, recebendo também muitos insultos porque havia publicado a foto de seu trabalho “amador” e também porque escrevia  em português “errado”.

Em outra comunidade, de brasileiros que moram no exterior, há frequentemente a presença de haters; entre eles, uma chamou minha atenção. Seu alvo eram as mulheres de um determinado biotipo que ela chamava de “gordas” e “inferiores” em relação às estrangeiras. Seu comportamento constrangedor era possivelmente motivado por um mal-estar com ela mesma. Seu discurso desumanizador e objetificador era embaraçoso e causava mal-estar mesmo em quem não estava envolvido.

A vontade que sentimos é realmente de nos afastar, bloquear, fugir desse tipo de comportamento que é a materialização do desligamento social. E o desligamento, segundo Morin, é resultado da ignorância, da barbárie, do desamor.

Espanta-nos perceber que são muitos e trafegam com muita facilidade os haters no mundo digital. Talvez cativos pelo anonimato eles pululem na web, sem a necessidade da máscara social. Eles causam, além do asco, medo do que o ser humano parece ter de mais sombrio dentro de si. Lembram-me muito os personagens do filme austríaco “Funny Game” (1997), pois eles entram em nossos mundos apenas para distribuir gratuitamente o ódio, a violência e o horror de uma existência sombria.

É preciso trazer à luz a ética, a religação. Para isso, nos ensina Morin, faz-se necessária a volta da responsabilidade com o outro, da inteligência, da iniciativa, da solidariedade e do amor. Quem irá, por isso, lutar?

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*Os exemplos citados neste artigo fazem parte do corpus da minha pesquisa de doutorado, ainda inédita.

[1] Personagens do livro Harry Potter, de J. K. Rowling, que sugam a felicidade e disseminam a tristeza.

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