A cultura gastronômica e o videogame

Por Carlos William F. de Lima

Figura 1. Coxinha de frango na delegacia de polícia

Figura 1. Coxinha de frango na delegacia de polícia

A cidade de São Paulo e seus sabores

A cidade fundou-se junto ao colégio dos jesuítas em 1554 e nesse período tinha outra geografia, constituída de casas rústicas feitas de taipa e cobertas de palhas. Essas moradias eram formadas por uma varanda, quartos com redes para dormir e sala com móveis simples. A cozinha ficava fora do corpo da casa e normalmente o quintal abrigava uma pequena horta, com galinheiros e pomar (BELLUZO, 2008).

Com o a expansão do plantio de cana-de-açúcar no interior, em meados de 1740, o grande fluxo de mercadorias com destino à São Paulo se intensifica, criando um grande comércio na região e aumentando também as ofertas de produtos e animais para alimentação, incluindo-se porcos, bovinos e aves e em especial o frango.

Já no séc. XIX, a expansão das plantações de café com gradual substituição às de cana-de-açúcar mudam a paisagem e a forma de comércio das cidades mais afastadas do centro, gerando a necessidade de um transporte mais rápido e em maior volume, dos locais de produção para a capital. Neste período é criada a ferrovia ligando Campinas, São Paulo e tendo como destino Santos — que, a partir de então, ficaria conhecida como Ferrovia Santos-Jundiaí.

Com o fim da escravatura e o início do séc. XX, o Brasil passa por transformações e passa a receber um grande número de imigrantes, que vêm em busca de uma vida melhor, fugindo muitas vezes da miséria e da própria mudança que o séc. XX traz consigo, que é o início da revolução industrial e a mecanização das lavouras. Neste processo, muitos europeus e em especial italianos, aportaram no Brasil para trabalharem na lavoura de forma manual, além de japoneses em busca de uma vida melhor.

No decorrer do séc. XX, principalmente na cidade de São Paulo, ocorreram transformações culinárias, resultado da influência dos imigrantes BELLUZO 2008. A cozinha paulista ou “caipira” passa a dividir espaço com novos sabores e ingredientes que, até então, não faziam parte de seu cardápio; porém, a tradição de restaurantes familiares foi mantida, mas mesclada dessa vez com o macarrão, o quibe, esfiha e os embutidos. A fusão de todos esses elementos originou a cultura mestiça e imaginativa de São Paulo.

A coxinha de frango

Não se sabe ao certo a origem mais correta da coxinha de frango na culinária paulista, mas em busca de informações mais concretas, foi possível encontrar duas teorias mais próximas da realidade quanto à criação do alimento.

Foi possível encontrar a primeira no blog de Diângelis Soares, que mostra uma possível história, sem confirmação cientifica ainda, mas que pode nos dar um caminho para entendimento do quão importante foi a coxinha de frango, um salgadinho largamente encontrado em São Paulo. Em seu blog encontra-se a história de uma família que descobre uma forma de se fazer coxas de frango, apenas utilizando frango desfiado com massa de batata, semelhante ao processo que encontramos hoje, para alimentar um menino que gostava muito de coxas de frango. Porém, sua vontade não era saciada apenas com duas coxas de frango.

Outra possibilidade que ilustra bem a origem da coxinha de frango fora encontrada em outra fonte de pesquisa retrato por CASCUDO (1977) ao qual ele descreve sua criação no séc. XIX e como um prato tipicamente paulistano, mesmo embora seja possível encontrá-lo na culinária portuguesa também.

Sua história está diretamente ligada à fase industrial paulista, em que nas portas das fábricas eram vendidas coxas de frango in natura, assadas e prontas para o consumo da classe trabalhadora a qualquer tempo. Como sua produção era baixa e o tempo de deterioração muito rápido, buscou-se uma alternativa para que pudessem ser vendidas com mais segurança e tempo maior de duração.

Figura 2. Coxinhas de frango com seu formato característico e tamanho proporcional, gerando um padrão de produto

Figura 2. Coxinhas de frango com seu formato característico e tamanho proporcional, gerando um padrão de produto

A produção de coxinhas de frango se dá usando-se batata amassada ou farinha de trigo, para a composição da massa e frango desfiado. Seu desenho em forma de gota assemelha-se à uma coxa de frango e esse salgado, que é consumido rapidamente, tem sua duração aumentada em função de sua nova forma de preparo e rapidamente caiu no paladar dos trabalhadores das fábricas e se espalhou por toda a cidade. Hoje esse salgado é encontrado em quase todo território nacional.

A representação dos signos nos jogos digitais

Em nossa introdução inicial buscamos compreender como as transformações da cidade de São Paulo puderam influenciar na criação de um cardápio tão variado, quanto a própria colonização da cidade, dada por portugueses, japoneses e árabes que contribuíram para a profusão de pratos variados e tipos de comidas diferenciadas.

Em nosso entendimento, o foco desse texto se deu sobre a coxinha de frango e sua associação à imagem da força policial do estado de São Paulo, muito provavelmente, desde os anos de 1980. E essa referência cultural é retratada no jogo Max Payne 3, não de forma velada, mas apenas percebida por quem conhece o significado, ou seja, o jogador que está situado na cidade de São Paulo. Esse jogador só terá essa compreensão se, em algum momento, teve contato com esse tipo de significado e consegue perceber essa subjetividade no jogo. Vale ressaltar que a existência da Polícia Militar nesse contexto é puramente integrante do jogo, mas ela é representada tal como a vemos em nosso dia: um grupo criado para a manutenção e respeito à ordem pública. Nesse texto, não podemos trabalhar integralmente a concepção e nem a natureza da polícia militar, algo que poderemos fazer em outra oportunidade.

Para compreender as relações criadas com o salgadinho brasileiro em referência à Polícia Militar, necessitamos de conhecer não mais a história do salgadinho apenas, já tratado no início desse texto, mas nos indícios históricos de sua associação à imagem do policial militar, este que é representante mais próximo da corporação junto a sociedade.

Para melhor compreendermos essa associação da imagem da coxinha ao policial, usamos a citação de LIMA p.30. O autor nos ajuda a fazer certas ligações entre objetos e como a semiótica pode nos ajudar nessa relação subjetiva dada ao objeto e essa subjetividade é percebida no jogo Max Payne.

Talvez pelo formato similar, tenha sido feita uma associação à corporação, pois os policiais usam as fardas iguais, tornando-os únicos, assim como um prato repletos de coxinhas. O que buscamos reforçar aqui, é apenas a associação imagética e que não reflete a opinião do autor.

Outra informação que encontramos foi que, nos anos de 1980, os policiais eram vistos se alimentando de coxinhas em bares na cidade de São Paulo e isso também ficou associado aos baixos salários da corporação à época, que apenas possibilitava a compra desse salgado. Talvez, por esse motivo, tal ligação criou a “gíria” que a imagem da coxinha aos policiais — e, a partir daí, o termo passou a ficar tão subjetivamente ligado ao policial.

Figura 3. Max Payne entra na delegacia policial da cidade fictícia de São Paulo. O detalhe da imagem é o prato de coxinha sobre a mesa

Figura 3. Max Payne entra na delegacia policial da cidade fictícia de São Paulo. O detalhe da imagem é o prato de coxinha sobre a mesa

Nesse momento, cremos que fica mais clara a orientação para compreender a presença do prato de coxinha dentro do jogo digital Max Payne 3. O jogador instalado na cidade, que tem acesso a essa gíria, pode compreender mais rapidamente o papel do elemento aplicado ao jogo, assim que Max Payne envereda pelo cenário da delegacia policial.

A noção de subjetividade aqui é dada a partir do caráter daquilo que é subjetivo, relativo ao sujeito, manifestando-se por, conjunto/estado de propriedade que emanam ou que são constituintes desse. Isto é, a realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser, comprometida com a apropriação intelectual dos objetos externos.

Certamente as informações que encontramos até aqui são primárias, mas encontramos um desdobramento para explicar o significado subjetivo da associação da coxinha só à polícia militar: compreender tal ligação e sua representação dentro do jogo de Max Payne 3.

O contato do jogador com os jogos de videogame também está impregnado por suas relações pessoais atravessadas pelos convívios sociais, políticos, variáveis econômicas, sejam estas internas ou externas (LIMA, 2011), criando em si as relações necessárias para a interpretação de objetos, apresentado a ele subjetivamente e ligados à cultura local.

Podemos perceber na apresentação desses objetos essa ligação, pois a produtora, RockStar, quando decidiu desenvolver o jogo ambientado em São Paulo, teve a preocupação de levantar dados culturais para apresentar esses elementos no jogo. O dado mais relevante é que este signo só poderá ser reconhecido pelo público que sabe seu significado; portanto, os públicos que usam o jogo para se descontrair, como é o caso do jogador americano, provavelmente não farão a mesma leitura do significado da coxinha sobre a mesa. Pois, como sabemos, nossa cultura não é tão largamente disseminada por meios de comunicação, algo que ocorre nos EUA, ao qual temos acesso especialmente por meio de TV e cinema.

Isso é reforçado por JENKINS: o autor nos lembra que a mídia nos torna consumidores de informação recortada, embalada e entregue de forma que possamos compreendê-la e se apropriar dela em nossa cultura.

O que podemos concluir até aqui é que o jogador tem papel fundamental na compreensão dos signos durante o jogo e a completa vivência cultural faz toda a diferença na compreensão de gírias, elementos e signos representativos de certas culturas e ações e neste jogo. Os elementos apresentados foram cuidadosamente estudados para que o jogador brasileiro pudesse ter um agenciamento mais significativo em cada momento do jogo.

Os jogos digitais de hoje conseguem se apropriar melhor das referências culturais, sociais e geográficas dadas pela tecnologia. E isso tem criado, também, novas formas de comunicação — e, principalmente, de agenciamento do jogador, que ao mesmo tempo em que se diverte, aprende sobre novas culturas, histórias e relacionamentos socioculturais.

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Um comentário sobre “A cultura gastronômica e o videogame

  1. Nelson disse:

    Muito bom!!, fizeram um tese acadêmica, para explanar o regionalismo no Game. Alias gostei do Game, porém foram muito cruéis em supor que a policia e o governo levam moradores de favela para retirar Órgãos humanos para contrabando.

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