Cidades inteligentes e pesquisas mais ainda

Por Eduardo d’Ávila de Faria

Quatro bilhões de pessoas vivem em cidades no mundo. Isso não é só o maior número de pessoas vivendo em cidades da história da humanidade, mas também um número que serve de alerta, um dado que obriga a intelectuais pensar como esses espaços são diferentes entre si e como a morfologia e estrutura dos espaços urbanos mudou ao longo do tempo.

Em meio às leituras sobre cidades inteligentes (smart cities), a associação com as tecnologias e formas de conectividade — principalmente as sem fio (wireless) — predomina e muitos autores apontam para um futuro que quase sempre é descrito como uma espécie de utopia digital.

Em um panfleto publicado em 2013, Adam Greenfield e Nurri Kim (Against the smart city — The city is here for you to use) abordam aspectos das cidades inteligentes que podem ser preocupantes, e como esse conceito pode de fato atingir o valor e significado tão esperado, redirecionando aspectos de suas definições e características e de estudos sobre o tema e possíveis soluções para caminhos mais frutíferos.

Primeiro, é necessário fazer uma distinção entre as ideias por trás da expressão “cidade inteligente”. A expressão se popularizou principalmente na última década para se referir a alguns projetos discretos de cidades na Coréia do Sul, Emirados Árabes ou Portugal. A mais citada é com certeza a cidade de New Songdom na Coréia. O estilo de vida digital da cidade incorporou tudo que era possível, desde o acesso biométrico (a quase tudo) até anúncios publicitários que se adaptam à audiência-alvo que passa na frente da mídia. Esses exemplos saltam aos olhos justamente por colocarem no plano do cotidiano algo que foi idealizado em filmes de ficção científica, como Minority Report.

As três cidades citadas, principalmente a coreana, acabam aparecendo no caminho de qualquer pesquisador que estuda o tema. Todavia, há outro sentido que pode ser atribuído à expressão “cidade inteligente”. Esse sentido é mais amplo e está muito mais ligado à substituição lenta de tecnologia e hábitos digitais de ambientes urbanos já existentes do que à construção de cidades que já nascem pensantes/inteligentes. Em ambos os casos, porém, o âmago da questão está na captura centralizada de dados produzidos por dispositivos digitais conectados e aplicação de análises avançadas (de diferentes naturezas) sobre esse enorme volume de dados. O objetivo é que a vida urbana se torne transparente em todo o seu escopo para facilitar a governabilidade, ao passo que a recíproca também deve ser parte desse objetivo: a governabilidade deve se tornar transparente para todos os aspectos da vida urbana. E assim, em tese, deve operar uma cidade inteligente.

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Um aspecto apontado pelo autor — e consideração muito importante a ser feita sobre o tema — é o de que corporações privadas estão por trás dos dois conceitos de cidades inteligentes. Tanto as já citadas cidades que foram construídas inteligentemente desde seus marcos zero, quanto o desdobramento do conceito, que pode ser chamado de “urbanidades inteligentes”, sofrem influências de corporações, como é o caso da IBM, que criou uma série de anúncios inteligentes que interagiam com o espaço urbano e beneficiavam seus usuários. Não por acaso, a IBM se colocou no time do segundo conceito de cidades inteligentes e seu slogan diz “ideias inteligentes para cidades mais inteligentes”. A sobrevivência futura de empresas de tecnologia no mercado está atrelada ao ímpeto da grande maioria delas em se debruçar sobre esse conceito.

Apesar de parecer controversa e meio que contra smart cities, a opinião dos autores do panfleto é bem acertada e não pretende derrubar os dois principais conceitos vigentes de cidades inteligentes ou “mais” inteligentes. Mas, sim, alertar para o fato de que esse conceito não pode se tornar singular ou dual, deve ser múltiplo e complexo, assim como são as cidades no mundo e os estilos de vida e seus habitantes.

O autor questiona, de fato, alguns conceitos e faz perguntas pertinentes. Talvez a primeira questão a ser abordada seja a mais fundamental. Se os geógrafos Martin Dodge e Rob Kitchin afirmam que nossas cidades se tornarão “espaço/código”, ou seja, lugares cujas possibilidades de ativação por sistemas computacionais, o que acontecerá de fato com os espaços e que tipo de lugar será uma cidade inteligente? E mais ainda: o que acontecerá caso a tecnologia falhe?

Greenfield aponta para uma tendência da tecnologia da informação das últimas décadas na qual os designers tratam o ambiente de uso de suas tecnologias como pano de fundo, tratam do terreno de uso somente no campo do abstrato. Isso não foi ou é um grande problema, já que os ambientes tradicionalmente aplicados para tais tecnologias — como militar, corporativo e acadêmico — guardam similaridades de funcionamento e dimensões. É a lógica do “construir e replicar” da tecnologia da informação que ainda reina com certa eficiência, mas que deve ser repensada quando se fala de complexos sistemas urbanos.

Ora, se atletas de parkour de Londres precisam de um ou dois dias para se adaptar às mínimas variações de terreno em Paris para que obtenham sucesso em suas manobras (e não ossos quebrados), por qual motivo devemos tomar os modelos de cidades inteligentes como o de New Songdom para ambientes urbanos já formados como Berlim ou Rio de Janeiro? Ou ainda, por quais motivos devemos acreditar na transposição de soluções tecnológicas de Nova Iorque para São Paulo ou Recife?

A reflexão desse post, é, portanto, trazer os primeiros e mais relevantes questionamentos de Adam Greenfield para o contexto dos estudos de cidades inteligentes. Mergulhar na bibliografia é, sim, necessário; mas a tomada de soluções urbanas e tecnológicas como modelos para além de um deslocamento cultural, temporal e físico pode ser um passo em falso. É preciso pensar também que, além da falta de garantia na transposição de modelos de sucesso, há uma falta de casos de fracasso relatados, principalmente por se tratar de iniciativas de cunho comercial, impulsionadas por empresas de tecnologia. Um fracasso é o mesmo que uma contrapropaganda para o conceito ou para a marca de tecnologia associada — e geralmente não chega às vias de publicação.

Portanto, com o fim de contribuir para o assunto e trazer conhecimento e inovação para os espaços urbanos, é necessária — além de atenção aos alertas e questionamentos já citados — uma estratificação das cidades, seus funcionamentos e um recorte no objeto de estudo.

Começamos por cultura, continente, país, cidade e bairro. E em seguida: mobilidade, dispositivos de identificação, segurança pública, educação e lazer. O recorte e a observação específica se mostrarão mais relevantes para a maioria dos pesquisadores do que discutir a “cidade genérica”. Pesquisas mais inteligentes surgirão nas veredas de tais recomendações.

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