#RedditRevolt: povo unido da Internet — Um segundo relato

Por Hermano Cintra

No dia 2 de julho, Victoria Taylor perdeu o emprego. Victoria quem? Por que isto importa?

Victoria era uma das administradoras mais ativas e benquistas do popular site Reddit, autoproclamada a primeira página da Internet. Não concordo com a epígrafe. O famigerado Facebook é imensamente mais popular. Várias outras mídias sociais produzem conteúdos mais originais. Porém, a relevância do Reddit é hoje inegável na Internet de língua inglesa. Afinal, são mais de 36 milhões de usuários registrados, quase cinco vezes este número em visitantes únicos mensais e mais de 7,5 bilhões de page views (fonte).

Mas, claro, isto ainda não torna a demissão interessante, só indica alguma relevância e contexto. O que fez dela um fato digno de nota e comentário foi sua extraordinária repercussão primeiramente dentro da própria comunidade e, posteriormente, na mídia em geral em função dos desenvolvimentos ainda em curso em reação ao fato, cujo desenrolar pode ser acompanhado por meio das hashtags #RedditRevolt ou #TheDarkening.

O que mais impressiona nesse caso foi a velocidade. Cerca de 24 horas após a demissão de Victoria, mais de 1.200 subreddits (salas de discussão nas quais usuários registrados postam conteúdos relacionados a um tema específico) tinham “escurecido”, ou seja, seus moderadores tinham alterado as permissões de acesso ao espaço tornando-o privado e portanto inacessível aos demais membros. O AMAgeddon, assim batizado porque Victoria Taylor era a administradora responsável por apoiar as populares AMA — Ask Me Anything — com personalidades do calibre de Barack Obama, atingiu cerca de 13% do total de subreddits. Isto é muito mais significativo quando se leva em conta que o blackout incluiu a quase totalidade dos fóruns mais populares, alguns com mais de nove milhões de inscritos, vários com mais de três milhões, boa parte deles subreddits default assinados automaticamente por todos os novos usuários cadastrados. Na noite do próprio dia 2, o assunto já estava na mídia “especializada”; no dia seguinte, chegava à “grande imprensa”; e, obviamente, um subreddit havia sido criado para discutir o assunto / promover a revolta.

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Ato contínuo, uma verdadeira enxurrada de tweets começou a surgir sobre o assunto e um abaixo-assinado pedindo a renuncia da CEO do Reddit postado há mais de um mês no Change.org foi “adotado” pela revolta. Em poucos dias, a petição, antes pouco popular, atingiu 200 mil assinaturas. Ellen Pao mal resistiu uma semana e, no dia 10 de julho, anunciou sua demissão “consensual”, sendo substituída por um dos fundadores da comunidade que em 2006 havia sido vendida para o gigante editorial americano Condé Nast.

A esta altura, Pao já era uma figurinha carimbada em função de uma ação amplamente noticiada movida contra seu antigo empregador (Kleiner Perkins Claufield & Bauers, importante empresa de capital de risco) por discriminação de gênero (caso que merece até um verbete na Wikipédia), perdida de maneira acachapante nas cortes da Califórnia (existe também uma entrada sobre esta figura na Encyclopedia Dramatica para quem preferir uma versão muito mais apimentada e nada moderada do caso). Por isso, sua contratação em 2013 já havia provocado discussão na comunidade, um desconforto crescente à medida que o litígio com seu antigo empregador foi ganhando a imprensa, bastante amplificado ao tornar-se CEO interina do Reddit em novembro passado, com a saída de seu chefe.

Mais importante, no entanto, a batalha já estava conflagrada poucos meses antes, quando Pao decidiu banir o controverso subreddit FPH (fat people hate). Embora outros quatro subreddits tenham sido cassados no mesmo ato, houve certo consenso na comunidade sobre o alvo ser único e a desculpa esfarrapada, dado existirem dezenas de salas de discussão no Reddit nas quais o shitposting impera solenemente — certamente beirando o assédio moral identificado pelo administradores como motivo da decisão. Também foi muito criticada por deletar comentários sobre sua ação judicial, banindo usuários com rapidez nunca antes vista na comunidade. Embora o Reddit não possa ser incluído no submundo “libertário” totalmente sem limites da Internet, ainda faz parte de um substrato que não aceita qualquer tipo de censura. As reações foram imediatas e virulentas, formando o caldo para a revolta a seguir.

Ao autor aqui interessa novamente a capacidade de organização e o potencial criativo da revolta, discutidos de maneira mais longa no relato feito em outubro passado sobre o fenômeno GamerGate. Claro, muitos dos participantes do movimento contra a mídia especializada em videogames prontamente perfilaram-se à linha de frente da batalha contra a censura no Reddit. Especialmente nos primeiros dias (mas ainda hoje) era comum ver os hashtags #GamerGate e #RedditRevolt publicados lado a lado. Uma estratégia para atrair público, visto que apesar de estarmos perto do aniversário de um ano da revolta dos gamers, o movimento continua firme, forte e cada vez mais determinado a combater parte da mídia do setor e suas práticas. O subreddit utilizado por este movimento, Kotaku in Action (Kotaku é um dos sites sobre games sendo combatidos), rapidamente tornou-se também quartel-general para o #RedditRevolt.

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De forma análoga, uma impressionante quantidade de material gráfico foi criado para insuflar os espíritos e divulgar mensagens contra “Chairman Pao”, como já havia sido apelidada a nêmese do movimento. O vídeo “Why Don’t You Go Over to Voat?”, criado poucos dias após a demissão, tem uma animação da personagem como cantora, inclui um boneco de massa de modelar em stop motion, além de uma coletânea de imagens, ilustrando um remix paródia da canção “Somewhere Only We Know” da banda inglesa Keane, lindamente cantada por uma das vozes do GamerGate Sings (links para 8chan são propositadamente precários e quebram de tempos em tempos; para localizar novamente, siga para o board Gamergate Headquarters, clique em “catalog” e busque por “sings”). Voat é um clone do Reddit adotado como alternativa durante está última revolta, cujos acessos aumentaram vertiginosamente.

Outro ponto de contato entre os dois movimentos é a oposição em comum feita pelo novo feminismo radical americano. Novamente, a imprensa situada à esquerda do espectro político preferiu concentrar-se em ofensas chulas feitas à Ellen Pao em vez de procurar qualquer mérito nas acusações sobre seus desmandos. Desta vez, chegou-se ao ponto do public editor (uma espécie de ombudsman) do New York Times publicar um artigo condenando a edição absolutamente opinativa da matéria dando a notícia da renúncia de Ellen Pao (neste link encontra-se um comparativo entre a primeira versão do artigo, neutra, e a segunda, um editorial fora de local, já que neste veículo estas peças devem aparecer na coluna “Op Ed”).

Isto se soma a uma outra impressionante falha da imprensa tradicional em separar o ruído gerado pelos trolls dos mais diversos sabores, sempre com a tática única de agredir para chamar atenção, dos participantes de uma “revolta de consumidores” (embora seja estranho e, de alguma forma, inapropriado associar aos redditors esta figura do mercado). Mesma desculpa adotada por Pao a posteriori em um artigo para o Washington Post. Além disto, apesar da grande mobilização gerada em tão pouco tempo, a revolta foi disparada pelos moderadores do site. Foram eles que apagaram os principais subreddits.

O “clamor das massas” veio depois, e os trolls tiveram um papel absolutamente secundário, que apenas uma imprensa que definitivamente não entende a Internet pode considerar relevante. Vale lembrar que os moderadores são voluntários com poderes específicos para gerir um subreddit, mas não administradores, como era Victoria Taylor. A insatisfação dos moderadores com a adminstração era antiga e ia além das verdadeiras trapalhadas aqui relatadas, com queixas frequentes à comunicação deles com a empresa, habilidade reconhecida na funcionária demitida — por isso mesmo, tão querida na comunidade.

Para não estender demais este post, fecho com um último pensamento, uma pergunta “antiga”, da internet dos anos 90, antes do sucesso das redes sociais massivas como o Facebook: comunidades virtuais seriam “monetizáveis”? Claro, isto envolve outro importante debate. Seria o Reddit, ou melhor seriam os subreddits exemplos efetivos de comunidades virtuais? Estas, certamente, podem florescer em vários espaços — até mesmo em grupos do Facebook. Perguntando de outra maneira: seria possível criar um espaço de convivência comunitária eficaz e ao mesmo tempo pretender lucro? Ou, ao final, a ingerência do capital acabará por minar o caldo social destes espaços? Você se lembra do Digg? Um dia, ele foi o Reddit da vez. No Voat, existe uma viva discussão no /ideasforvoat/ sobre como financiar o empreendimento por crowdfunding ficando à margem do capital de risco e das grandes corporações…

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