O telencéfalo, a escrita, o código genético, o iglu, o candomblé e a máquina de café

Por Maria Ribeiro

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Figura 1. Rafael Coutinho e quadro do projeto “1.000 quadros“.

Ao cabo, batizamos “vida” os episódios transcorridos num dado intervalo de tempo. Consta nas lápides tumulares, e em geral, a mui brevíssima súmula — duas sequências numéricas, oito dígitos; os anos de nascimento e de morte. Então, alguém escapou para fora de uma esfera matriz — ab utero — para, alcançado o epitáfio, retornar à Esfera Matriz, à terra/Terra, seguindo o potentoso raciocínio circular de Sloterdijk. A cristandade também viu na vertigem ontológica o mapa da existência: do pó ao pó. E, computados filósofos alemães e tementes a Deus, soma-se um pequeno bocado ou o suficiente para dar crédito à magra tese que pretendo desenvolver.

Pois. Parece razoável afirmar que, até que o último número seja gravado na pedra mortuária, seguimos atulhando os dias com um inexaurível mobiliário simbólico; de modo primário e fundamental, constituído pela língua, não por acaso, “materna”. “Enquanto vive a criatura/deve levar as próprias vértebras (…)”, escreve Osip Mandel’ṧtam, citado por Agamben. Se viva a criatura, haverá de carregar consigo o esqueleto que lhe confere forma, seu feitio, seu privilegiado (?) patrimônio humano (o telencéfalo, a escrita, o código genético, o iglu, o candomblé, a máquina de café etc.). Ora, concordantes de que o cosmos é, para o humano, um conjunto ordenado de coisas e nomes — e dirá Flusser que a realidade é, ela mesma, um agrupamento organizado de palavras; talvez, ainda mais importante, de palavras “in statu nascendi” — deveremos conceder especial atenção para a contextura narrativa fincada entre nascença e óbito. Dito de outra maneira, o método eleito para a arrumação das nossas representações, “organizadas [as representações] como linguagem”, determina a natureza da “vida”.

Mas antes de dar continuidade ao meu raciocínio, devo apontar, pelo menos, conceitos embaciados: “realidade” e “vida”. Sublinha feita, sigamos.

Uma já muitíssimo conhecida embrulhada estampa, ainda, páginas de dissertações e teses dedicadas à cibercultura — a saber, a contenda real versus virtual. Uns afirmam serem dimensões antagônicas, outros enxergam na complementaridade a saída para coexistência. Os primeiros, transitam daqui para lá, de lá para cá, mais uma vez e de novo. Os demais, estão aqui e lá, concomitantemente.

A primeira via de análise espera preservar a realidade — a compleição física, o meio ambiente, o cérebro, a política, as relações, o martelo que fere o dedo, o hic et nunc — das pirotecnias tecnológicas. A segunda via, por sua vez, borra os limites, reivindicando balizas originais, porque nunca antes experimentadas. Assim, não termina o homem no corpo biológico que apodrece sob o solo nem entre as capas duras de um livro de memórias. O modo particular do virtual é, por sua vez, a reinvenção da vida em curso, nunca estanque, mas extra-ordinária.

Bastariam uns poucos exemplos e o revenge porn, a moist mind de Roy Ascott, outdoors pixados por drones, redes sociais digitais capazes de interferir no estado de espírito do usuário, deprimindo-o, sistematicamente. “Em 2013, pesquisadores da Universidade Benihang, na China, analisaram 70 milhões de posts do Weibo, rede social chinesa que mistura características do Twitter e do Facebook. Usando um software que lia palavras-chave, eles classificaram cada post como alegre, triste ou irritado — e viram como ele se propagava pela rede. As mensagens irritadas eram as que se espalhavam mais rápido, e chegavam mais longe (…)”, explica Alexandre de Santi na reportagem intitulada O lado negro do Facebook. Mas lado nigérrimo do humano tem provado, desde o pedaço de pau empunhado, ser um tanto mais eficaz que a vontade de potência de 1,4 bilhão de pessoas cujas contas pessoais fazem girar a máquina registradora do blue balloon.

Assim, e de volta às sequências numéricas esculpidas nas sepulturas, sugiro a substituição do binômio “real/virtual” pelo conceito de “vida”. E por “vida”, simplesmente, a imensa mônada que foge à compreensão absoluta do ser vivente (1), organizada segundo determinações linguísticas, culturais, institucionais, artísticas e todos os a posteriori que sucedem nossa declaração de “nascido vivo” (2). “Une vie est partout, dans touts les moments que traverse tel ou tel sujet vivant et que mesurent tels objets vécus (…)”, escreverá um criptográfico Deleuze — e é o suficiente, por ora.

“A narração da experiência está unida ao corpo e à voz, a uma presença real do sujeito na cena do passado. Não há testemunho sem experiência, mas tampouco há experiência sem narração: a linguagem liberta o aspecto mudo da experiência, redime-a do seu imediatismo ou de seu esquecimento e a transforma no comunicável, isto é, no comum”, escreverá, com clareza, Beatriz Sarlo em Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. O testemunho poderá nos redimir do falso antagonismo, tornando legítima a coabitação de (inventados) contrários. O testemunho põe o corpo do vertebrado à frente do discurso fazendo do discurso um registro dos ossos — do rijo corpo contemplativo ao corpo sem fundamento, bodenlos, do humano desintegrado.

Do corpo ao corpo.

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