Apps, gadgets, smart cities e smart solutions no front de um S.O.S. Calamidades

Por Kalynka Cruz

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Eu ainda dormia quando meu celular vibrou várias vezes na madrugada do último sábado, 25. Estava escuro. Pensei em alguns grupos do WhatsApp que não se calam nunca e no problema que tenho desde que migrei para o Android que não oferece (ou eu não sei fazer) a funcionalidade “silenciar grupos”. Enquanto acordava, o alerta se repetiu várias vezes e, mais atenta, descobri tratar-se de um som diferenciado — e então despertei assustada: alerta de terremoto… mas eu não senti nada, deve ser um bug, pensei. Peguei o celular e descobri que realmente e infelizmente havia acontecido um terremoto de 7.8 na escala Richter, só que no Nepal, bem longe de mim. O alarme havia soado porque estava configurado (por mim) para alertar todos os terremotos com mais de 6.1 na escala Richter, não importasse onde.

Mas o que fez uma pessoa desligada como eu instalar uma meia-dúzia de aplicativos para terremotos e outras calamidades no meu smartphone? Voltemos no tempo… Há alguns meses, o filme “Lo imposible” (disponível no Netflix ) — me fez refletir sobre a necessidade da criação de (data) smart cities capazes de antecipar e gerir ajuda por meio de redes de apoio locais, gadgets (e aplicativos), em casos de calamidade pública. Duas cenas me chamaram a atenção: na primeira, o personagem principal, que está na Tailândia, onde acabou de acontecer o mais desastroso Tsunami das últimas décadas, precisa localizar o resto de sua família. Mas os telefones fixos não funcionam mais e os celulares foram perdidos/destruídos no meio do caos. Então, o personagem encontra um homem que tem um celular e pede para ligar para a Espanha e descobrir se sua mulher conseguiu entrar em contato, mas o proprietário do aparelho nega a ligação: “Muitas pessoas aqui precisam da muita coisa (…) Já está quase sem bateria”. Ainda bem que nem todos no mundo pensam dessa forma…

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Na segunda cena, um outro homem que também “guardava” bateria para poder se comunicar com sua família, acaba oferecendo o aparelho para ele e assim o personagem descobre que, supostamente, deve ser o único sobrevivente. Muito sofrimento desnecessário que poderia ter sido amenizado com o uso da tecnologia. Imagine se redes paralelas pudessem ter sido mantidas e houvesse gadgets e apps previstos especialmente para esse tipo de situação, permitindo a demanda de ajuda e a reconexão das pessoas? A partir desta reflexão, iniciei uma pesquisa sobre a existência de gadgets, aplicativos e sistemas de segurança digitais que avisam e ajudam em caso de calamidades e descobri que são muitas e engenhosas as tentativas neste sentido — e que podem ajudar um bocado de gente se forem popularizadas, assim como a “safety check”, nova funcionalidade que o Facebook lançou no sábado no último dia 25 de abril. A ferramenta foi lançada logo após o terremoto no Nepal e já auxiliou em acalmar muitas famílias e provavelmente a ajudar muitas outras pessoas.

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Safety check — Já imaginaram em quantas outras coisas esta funcionalidade pode ser aplicada quando aprimorada (por enquanto, parece mais uma nova forma de check-in. “Kalynka está em um tsunami”)?

Mas, deixemos Zuckerberg e suas mágicas de lado e vamos aos interessantes aplicativos que descobri. O primeiro deles é o famosíssimo (lá no Japão) Yurekuru, um aplicativo (disponível em inglês e japonês) que já foi baixado mais de meio milhão de vezes. Qual seu segredo de sucesso? Ele consegue alertar sobre terremotos com alguns segundos de antecedência, o que pode muitas vezes significar uma vida salva. Outro aplicativo interessante chama-se Bousai Sokuhou (Yahoo Japan), que notifica vários tipos diferentes de situações: terremotos, tsunamis, dose de radiação, chuvas torrenciais, apagões, previsão do tempo etc. A Agência Meteorológica japonesa, muito eficaz, usa o Yurekuru Call, que envia alertas aos smartphones. Entre os franceses, descobri o “Alertes Tremblements de Terre”, que além de avisar sobre os terremotos, sua magnitude e distância, também mostra um mapa com toda a distribuição de terremotos no mundo. É a mesma lógica do americano Oz Quake, que, mais interativo do que app francês, permite o compartilhamento do aviso por Facebook, Twitter, GooglePlus, e-mail e SMS, o que pode ser fundamental se você está precisando de ajuda ou quer ajudar alguém. E por falar em ajuda, não apenas de smartphones (carregados e à prova d’água, por favor) vive um sobrevivente. Dêem uma olhada nestes gadgets interessantes aqui). Nos Estados Unidos, a California Integrated Seismic Network criou um software que funciona como um “engenheiro sismológico virtual” e que   faz o tipo de análise que um humano faria, mas sem descanso, o que garante ao software uma certa antecipação; paralelamente, o Laboratório de Pesquisa e Engenharia de Terremotos do Caltech trabalha em um aplicativo parceiro do software e que vai possibilitar que o smartphone em que o app esteja instalado faça uma contagem regressiva: terremoto em 3, 2, 1… socorro! De todos que conheci, o que mais me chamou a atenção foi o Earthquake Buddy, que emite alerta e coordenadas de GPS para quatro contatos seus, se um telefone detectar um terremoto. Assim fica mais fácil, não é?

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Aplicativo mostra mapa com áreas atingidas pelo terremoto e todos os eventos sísmicos da data

Além dos aplicativos em gadgets, os games também estão na mira de quem objetiva prevenir e gerenciar situações de calamidade. Recentemente, numerosas organizações (universidades, entidades privadas e públicas e órgãos governamentais etc) se reuniram e criaram o L’ISDRInternational Strategy for Disaster Reduction, que tem por objetivo reduzir o número de feridos e mortos nas catástrofes causadas por perigos naturais como terremotos, tsunamis, incêndios florestais, entre outros. Pensando nos jovens, o L’ISDR criou também um jogo online para ensinar à garotada como sobreviver e reagir após um desses eventos. Veja aqui).

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Mas, além de ajudar por meio da conscientização, prevenção rápida e conectividade com o auxílio de aplicativos, gadgets e até games, em que mais a tecnologia pode contribuir quando o assunto são as calamidades? Foi a segunda pergunta que me fiz durante o filme e que também virou objeto da minha busca online. Percebi que há uma preocupação global em construir smart cities preparadas também para a prevenção e a gestão de calamidades e também para a resiliência após grandes crises. Na Índia, a cidade de Visakhapatnam foi atingida em 2014 por um ciclone devastador, mas graças à ação rápida das autoridades — que conseguiram anteceder a tragédia e enviar a população para abrigos — foi possível reduzir o número de mortos. No entanto, apesar do sucesso da empreitada, como Visakhapatnam é coincidentemente uma das primeiras smart cities da Índia, o governo acredita que muito mais poderia ter sido feito neste sentido, uma vez que prever e gerenciar calamidades também deve ser uma das metas desse tipo de cidade. No mesmo ano do incidente, a Índia criou um fundo de 1200 bilhões de dólares que será investido em cem cidades por todo o país que pretendam se tornar smart cities.

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Ilustração do projeto governamental Indiano para as smarts cities.

Esta adaptação prevê iniciativas “verdes” de alta tecnologia, a gestão mais eficiente de recursos (incluindo água e energia), transporte público que use energia limpa, redução na emissão de carbono, entre uma série de outras ações que levem em consideração os impactos na vida climática. Tudo isso, sem esquecer também que estas cidades devem contar com projetos que trabalhem com a prevenção para a redução do risco de desastres e gerenciamento de calamidades por meio da conectividade para se tornarem, então, uma espécie de “data-smart cities”.

Mas, isto funciona? Parece que sim. Uma das primeiras vezes que as ações de análises de dados aplicados à gestão de desastres aconteceram foi em 2010, quando o Haiti foi devastado por um terremoto. O governo do Haiti, ONGs e algumas empresas de gestão de dados concatenaram dados públicos, sociais e privados para gerenciar a distribuição de ajuda após o terremoto por meio de informações sobre a concentração de pessoas/vítimas por área, prédios com risco de desabamento, sistema de distribuição de alimentos, entre outros, provando que a tecnologia associada ao gerenciamento de dados pode e deve auxiliar em casos de crises geradas por calamidades.

Esperamos que a convergência de todo esse aparato tecnológico consiga ainda salvar muitas vidas!

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