CSI: Cyber e as narrativas de TV sobre o digital

Por Eduardo d’Avila

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A relevância das séries de televisão americanas na cultura mundial desde o advento da TV nos Estados Unidos é inegável. Hoje são tantas as séries e seus estilos e gêneros quantas são as opções de ficção lançadas mensalmente no mercado editorial, por exemplo. Algumas séries possuem uma audiência de nicho, por serem exibidas em canais menores e contarem histórias muito específicas para um público muito bem demarcado, como é o caso de Looking, um seriado sobre a comunidade gay de São Francisco nos dias de hoje que vai ao ar pela HBO. Ou, ainda, a série Girlfriend’s Guide to Divorce, que vai ao ar pelo canal Bravo! e fala sobre o divórcio depois dos 40 anos sob uma perspectiva feminina.

As séries de TV, segundo Carrión, operam mais do que qualquer outra manifestação artística nos dias de hoje em três níveis simultâneos: o do consumo, da interpretação — e, combinados os dois, há ainda um terceiro nível, o de reescritura. Ainda segundo o autor, a audiência das séries é especialmente interativa. Nesse sentido, o espectador das séries consome um produto audiovisual, o interpreta gozando de relativa liberdade e, por meio de suas interações e respostas como audiência, molda não só o desenrolar da própria série, mas também constrói a marca que o seriado deixará na cultura: é a reescritura à qual Carrión se refere. É a audiência e a inteligência coletiva de fãs midiáticos (como já havia dito Jenkins) que definirá a relevância da série no contexto cultural, principalmente no que diz respeito à mudança de conceitos e ideias coletivas em nível global. Se isso acontece independentemente do fato da série ter um milhão de espectadores americanos por episódio, como Girlfriend’s Guide to Divorce, ou 300 mil espectadores, como Looking, é possível imaginar a escala da reescritura cultural que acontece com a nova franquia da série CSI, com o título de CSI: Cyber, que tem sido vista por 15 milhões de telespectadores a cada episódio desde a sua estreia.

A série original, com o título de CSI, foi criada por Anthony E. Zuiker e foi ao ar pela primeira vez em outubro de 2000 nos Estados Unidos e abril de 2001 no Brasil. Precursora no tema de investigação criminal, a série ganhou consumidores e interpretadores ávidos que logo trataram de reescrever ou reformular a ideia de ciência do crime, a ciência forense, ao redor do globo. Aclamada também pela crítica, a série ganhou seis vezes o prêmio de excelência na televisão, o Emmy. O crescimento da franquia se deu em livros e games além da TV e acabou resultando em outros dois seriados derivados (spin-offs) — CSI: Miami e CSI: NY.

Explicados pelos próprios títulos, ambas as séries derivadas da original transportam o espectador para novas cidades, de Las Vegas, onde se passa o CSI original, para Miami e NY, com outros tipos de crime e processos de investigação envolvidos. A história em Miami durou dez anos, enquanto a de Nova Iorque durou apenas nove. O CSI original já segue para a sua décima sexta temporada. Ao fim dos anos de 2010, os espectadores acompanhavam três equipes de investigação criminal diferentes: uma em Las Vegas, investigando crimes guiados pela descontrolada indústria dos cassinos; uma em Miami, investigando crimes ligados ao aspecto multicultural e multirracial da cidade; e outra em Nova Iorque, investigando os crimes da mais pulsante megalópole do mundo e liderados por um policial assombrado pelos ataques de 11 de Setembro de 2001. As três histórias seguiam em paralelo, mas muito bem contextualizadas por suas cidades.

Por volta de 2010 ou 2011, a noção de território era clara por parte do telespectador e as séries derivadas do CSI partiam do pressuposto da cidade como personagem. Apesar dos procedimentos forenses avançados tecnologicamente e das ferramentas digitais sempre presentes no processo de investigação, a noção de território e delimitação cultural, social, e geográfica dos crimes ainda carregava um conceito de território que hoje pode ser considerado obsoleto, provavelmente pensado no fim dos anos de 1990 quando o conceito da série foi criado. Isso quer dizer que, por mais que as séries estivessem reescrevendo durante a primeira década dos anos 2000 as noções de investigação criminal, da psique do criminoso e das motivações contemporâneas do crime (que segundo as séries deixaram de ter motivações claras passionais e passaram a encontrar também a incerteza do existir contemporâneo e criaram uma nova classe de sociopatas), o conceito de lugar, de território, de espaço, estava ainda arreigado a valores ideológicos da era pré-digital. Frequentemente éramos introduzidos ao conceito de jurisdição, e ao figurativo emaranhado de legislações de cada estado americano e a dificuldade que isso significava quando um caso se desdobrava para outros estados ou cidades. Se a configuração do crime tratasse então de fronteiras de país, aí sim os peritos criminais se viam de mãos atadas. Era a noção de rede limitada, onde pontos poderiam se conectar uns aos outros, ao exemplo do líder de investigação de Miami que segue um suspeito até Nova Iorque e lá recebe apoio do líder de investigação local, mas cujos pontos e conexões eram limitados e não tendendo ao infinito como hoje concebe-se o conceito de rede. O território sempre encontrava seus limites, quase sempre nas cidades. Eram territórios marcados pelos títulos das séries: Las Vegas, Miami ou Nova Iorque, escolha uma cidade.

A partir de virada a primeira década de 2000, ambas as séries derivadas, Miami e Nova Iorque, começaram a perder audiência, indicando um desinteresse pela repetição da fórmula por meio de uma simples mudança no eixo de território. É como se a audiência já estivesse em grande parte incorporado a perda da noção de território e a ideia do apagamento de fronteiras que André Lemos coloca como uma das características principais da cultura contemporânea. Num fluxo de acontecimentos que só pode ser identificado como não acidental, ambas as séries derivadas, Miami e NY, não resistiram aos primeiros anos da segunda década de 2000 e foram canceladas em 2012 e 2013, respectivamente.

Sem suas séries derivadas, cabe à série original se reinventar e tocar conflitos contemporâneos com o fim de manter sua audiência. Desde então, o time de Las Vegas teve de lidar com as fronteiras com o México, ou com passageiros de aviões, reinterpretando as noções de território da série e expandindo-os para além de Las Vegas; também lidou com as bonecas de borracha e casos de cibercrime, reinterpretando ainda suas noções de limites em relação à tecnologia e os meios digitais na outra ponta do conflito: o criminoso.

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Então, em 18 de fevereiro de 2014 foi anunciado um novo spin-off da série. Intitulada CSI: Cyber, mostraria as investigações da Divisão de Crimes Cibernéticos do FBI. Estrelada pela recém-ganhadora do Oscar pelo filme Boyhood, Patricia Arquette, a série conta com uma mistura grande de personagens e casos. A equipe de Avery (personagem de Arquette) está situada em Washington, mas a cidade da sede não é tão relevante quanto nos seriados derivados anteriores. A ciência do crime cibernético de Avery tem que lidar com o aspecto etéreo do cibercrime, com os fortes atributos de dispersividade e anonimato do autor do crime e com o confuso aspecto de fronteiras e jurisdições dos crimes de natureza digital. Em todos os episódios já exibidos até a presente data, os crimes investigados pela equipe Cyber acontecem em diferentes cidades e estados dos Estados Unidos — e, às vezes, possuem sua criação intelectual ou desdobramentos em outros países.

Mas lidar com essas questões existenciais do digital em um seriado de audiência massiva é uma tarefa complicada e comprometeria a narrativa ao adentrar por questionamentos filosóficos. Como explicar para a audiência que o crime cibernético pode inclusive não se dar em um espaço físico — como explicar o aspecto etéreo do cyberspaço? A solução: lidar com o tema em termos de novos territórios. É que, ainda segundo André Lemos, com a cultura digital das mídias pós-massivas e principalmente as tecnologias móveis vemos se agravaram os processos de desterritorialização, mas, ao mesmo tempo, criamos também novas territorializações. Ainda transcrevendo as ideias de André Lemos, lembramos que a noção de território está atrelada à ideia de controle. Advinda da etologia, mostrando o como o comportamento dos animais estabelece zonas efetivas de controle, a noção de território tem relação com o conceito de acesso e controle interior de fronteiras e são essas duas palavras-chave — acesso e controle — que permitirão a compreensão da sociedade tecnológica contemporânea.

André Lemos cita, por exemplo, a criminalidade desterritorializada dos membros do PCC (Primeiro Comando da Capital, organização criminosa) que, de dentro de uma prisão e devidamente territorializados pelo sistema judicial, ainda conseguem organizar ataques à cidade e ao Estado de São Paulo. Esse, segundo o autor, é um exemplo de processo desterritorializantes por meio de redes telemáticas, computadores e da principal ferramenta dos encarcerados: o telefone celular. Em se tratando de uma série de TV cuja franquia caminha para sua segunda década com foco em criminalidade, como lidar com o espaço ilimitado construído por redes de informação planetárias, um espaço puro, sem fricção, etéreo e virtual? Como encaixar tais conceitos sobre o ciberespaço em uma narrativa para a TV de forma que a audiência compreenda? Em outras palavras, como criar uma narrativa interessante, sem que o investigador do FBI e o hacker criminoso passem o episódio inteiro sentados à frente de um dispositivo digital? Como tornar a trama física e traduzir o gênero policial consagrado por perseguições e pistas físicas quando se consideram crimes na rede? A solução de CSI: Cyber é dar nomes, estabelecer cenários e fronteiras, tirar do anonimato e demarcar novos territórios no digital para que o invisível se torne visível.

Partindo do pressuposto que as outras séries derivadas tiveram em seu subtítulo o território, como Miami ou NY, fica clara, então, a tentativa de territorializar e demarcar o terreno da nova série: o ciberespaço. O sociólogo Manuel Castells polariza o tema ao nomear um espaço de fluxo aquele que é uma espécie de intercessão entre o ciber e o físico. E é bem por aí que a série explica o ciberespaço. Há uma necessidade no seriado de exibir computadores, redes de satélites, cabos, modens, dispositivos digitais de diferentes naturezas, ou seja, concretizar a estrutura da rede telemática para que o espectador tenha algo palpável, territorializado e compreensível diante de si. Isso é feito de maneira fantasiosa, inclusive, criando interfaces e dando plasticidade a programas e funções computacionais que não a possuem — como os identificadores de face, por exemplo, que não funcionam da maneira como a série decidiu mostrar, exibindo uma biblioteca de rostos por segundo até encontrar um que corresponda ao procurado. Isso é a materialização da função de software para conforto intelectual do espectador.

O grande desafio da série, então, será não pasteurizar a questão do digital. Apesar do contexto romântico da citação de Antoine de Saint-Exupéry, nos estudos de ciberespaço, o essencial também é invisível aos olhos. É no que não se vê, no que não tem forma ou rosto; é lá que está grande parte da essência do ciberespaço. As conexões sem fio (wi-fi) não são vistas, o tão falado código binário que constitui a base das informações digitais é visto por quase ninguém. A deepweb, o grupo de ativistas Anonymous e demais hackers incógnitos quase nada tem de forma ou rosto nesse universo. A problematização da série vem justamente dessa tentativa de desmascaramento dessas questões de uma maneira quase fantasiosa.

Michelle Hilmes, estudiosa da área de Televisão nos Estados Unidos, afirma que são as séries de ficção as principais responsáveis por educar e espelhar valores e crenças em um recorte geográfico, cultural e cronológico. Conseguimos entender a ascensão do feminismo moderno por meio do contexto de recepção de Mary Tyler Moore Show, por exemplo, nos anos de 1970 até 1977, quando a série foi ao ar. Na década de 1990, conseguimos entender a paranoia e o medo das descobertas sobre o universo em Arquivo-X. Hoje, a ficção de Orphan Black e os limites da ciência, clones e as questões de liberdade sobre o corpo são a pauta da série e de nossas discussões. Tais seriados de ficção marcam a cultura e, no contexto de sua emissão (principalmente no contexto temporal, já que vivemos na globalização), sempre irão definir para gerações futuras nossos anseios e questões filosóficas e culturais.

CSI: Cyber parece já ser considerada viável comercialmente e deve durar alguns anos, sendo em boa parte responsável por emoldurar nosso pensamento sobre o digital na segunda década dos anos 2000. Todavia, o erro se encontra na separação entre o virtual e o físico, entre o visível e o invisível. Apesar de contribuir com a explicação dos novos territórios criados pela cibercultura (inclusive a série tem um dicionário, explicando a definição da problemática digital de cada episódio, cartografando o digital), a série falha gravemente ao ignorar o aspecto etéreo e anônimo do digital e, principalmente, do crime digital. O seriado, por ser cria de CSI, precisa da fórmula “assassino + pistas + investigações = prisão e futura condenação do criminoso”, o que pode comprometer todo o serviço cultural que a versão Cyber da série poderia oferecer. Todavia, para além da noção de território e da materialidade/imaterialidade de todas as coisas ciber, a série tem um ponto coerente: a humanização do ciber. Assim como afirma Santaella, a cibercultura, como qualquer cultura, é criatura humana. E isso é o que a série tenta mostrar: que, apesar do intimidador maquinário, o humano sempre está por trás de tudo.

Ainda no universo das séries e relembrando sua relevância, a série The Good Wife tem tratado as questões digitais com muito mais lucidez, ao lidar com assuntos como moedas virtuais, inteligência coletiva, códigos abertos, privacidade e até as políticas em território digital. A título de sugestão para os estudiosos de cibercultura, recomendo a série de Ridley Scott, pelo menos até CSI: Cyber achar o seu caminho dentro do assunto — se achar.

Referências para elaboração do post

CARRIÓN, Jorge. TeleShakespeare. 2014.

SANTAELLA, Lucia. Da cultura das mídias à cibercultura: o advento do pós-humano. 2003.
Disponível em: http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/famecos/article/viewFile/229/174

LEMOS, André. Cibercultura como território recombinante.
Disponível em: http://www.com.ufv.br/cibercultura/wp-content/uploads/2014/02/01.-Andr%C3%A9-Lemos-Cibercultura-como-Territ%C3%B3rio-Recombinante.pdf

CASTELLS, Manoel. The rise of network society. 1996.

HILMES, Michele. The Television History Book. 1996.

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