As abordagens etnográficas na pesquisa online

Por Maria Collier de Mendonça

Netnography_Sociotramas

O professor canadense Robert V. Kozinets ficou conhecido internacionalmente como o principal defensor e difusor do termo “netnografia”. Coordenador da área de marketing na York University em Toronto (Canadá), Kozinets escreveu o livro “Netnografia. Realizando pesquisa etnográfica online”, o qual foi recentemente traduzido para o português e lançado no Brasil pela editora Penso, em 2014. Seu livro é um guia descritivo dirigido à nova geração de pesquisadores, interessados em aplicar a netnografia como “uma forma especializada de etnografia adaptada às contingências específicas dos mundos sociais de hoje mediados por computadores” (KOZINETS, 2014, 9-10).

O professor destaca que a abordagem netnográfica tem se desenvolvido nos campos da pesquisa de marketing e consumo, mas também vem incorporando visões de diversos campos (antropologia, sociologia, estudos culturais) para estudar diferentes usos da internet e das TICs (tecnologias da informação e comunicação) em ambientes como fóruns, bate-papos, blogs, redes sociais, dentre outros.

Segundo Kozinets (ibid), as experiências sociais online são significativamente diferentes das experiências sociais face a face; por isso é preciso que o pesquisador ingresse na cultura ou comunidade online, adotando procedimentos técnicos e metodológicos específicos durante o planejamento, a entrada em campo, a observação, a coleta e a análise de dados digitais; assim como respeitando as questões éticas envolvidas no processo de pesquisa.

No vídeo abaixo, Kozinets sintetiza o que é netnografia:

Ao escreverem o artigo “Netnografia como Aporte Metodológico da Pesquisa em Comunicação Digital”, as pesquisadoras brasileiras Adriana Amaral, Geórgia Natal e Lucina Viana (2008) ressaltaram que o termo “netnografia” vem sendo mais utilizado nas áreas de marketing e administração, enquanto o termo “etnografia virtual” vem sendo mais utilizado pelos antropólogos e cientistas sociais; mas, sobretudo por Christine Hine, professora de sociologia na Universidade de Surrey (Reino Unido) e também autora de “Virtual Etnography” (publicado em Londres, pela editora Sage, em 2000).

No vídeo abaixo, Christine Hine fala sobre métodos qualitativos de pesquisa online:

Para finalizar, gostaria de citar o livro “Métodos de Pesquisa para Internet”, escrito no Brasil pelas pesquisadoras Suely Fragoso, Raquel Recuero e Adriana Amaral; já lançado pela editora Sulina, em 2011. No capítulo “abordagens etnográficas” (pp. 167-203), as autoras inicialmente conceituam o que é etnografia; em seguida discutem, comparam e mapeiam diferentes terminologias relacionadas à aplicação desta abordagem qualitativa online. São elas: a netnografia, a etnografia digital, a webnografia e a ciberantropologia.

Na síntese de Fragoso, Recuero e Amaral (ibid.), a netnografia é um neologismo (net + etnografia) criado no final dos anos 1990 para demarcar adaptações necessárias à prática etnográfica nos estudos online da comunicação, consumo, marketing ou comunidades de fãs. Também é frequentemente relacionada ao monitoramento de websites e grupos online. Além disso, tende a ser mais associada às pesquisas de mercado.

Já a etnografia digital busca ampliar possibilidades de criação colaborativa de narrativas audiovisuais, fazendo uso das redes digitais para produzir materiais de estudo capazes de atingir o público extraacadêmico online. Neste caso, a principal referência é o grupo coordenado pelo professor Michael Wesch, na Kansas State University, criador do famoso vídeo “The machine is us/ using us”.

A webnografia, por sua vez, tende a ser mais relacionada às métricas e audiências dos sites em ambientes de discussão, reunindo a análise de conteúdo à pesquisa etnográfica para analisar os ‘clusters’ que se formam, tais como os aspectos sociais, culturais e psicológicos na internet.

Por fim, a ciberantropologia tem como inspiração a antropologia do ciborgue de Donna Haraway; por isso, busca preparar o pesquisador para investigar o ser humano como uma categoria mais ampla, a partir da sua “reconstrução tecnológica.”

Frente à evolução de distintas abordagens etnográficas online, fica registrado o nosso intuito de convidar aqueles que desejem adentrar este campo a iniciarem suas leituras a partir dos autores supracitados.

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