A Orkutização do Facebook

Por Cíntia Dal Bello

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Ingressei no Mestrado em Comunicação e Semiótica da PUC-SP em 2007. Meu projeto ansiava por perscrutar as relações entre identidade, subjetividade e cibercultura: o objeto de estudo era o que, então, passei a chamar de “identidade-perfil” e elegi como lócus de observação o Orkut. Na época, considerei a possibilidade de debruçar-me sobre o promissor Second Life. Mas, o fato de ter sido vítima de um fake profile no ano anterior, instigava-me a enfrentar as problemáticas da plataforma. Ou melhor, da “comunidade online”, como o Orkut se definia, então. O resultado da pesquisa realizada na época pode ser conferido na dissertação, defendida em 2009, e disponível para consulta aqui. Mas, antes que a memória pregue suas peças, desejo registrar e compartilhar alguns momentos do percurso, esperançosa de que o mergulho netnográfico, reconsiderado após tanto tempo, tenha algum valor que, na época, escapou à pesquisa. Também servirá de base para que pensemos sobre a tal “orkutização” do Facebook.

Não pertenço à leva dos primeiros usuários do Orkut, lançado em 2004, mas ainda assim, só pude entrar com um convite. O formato de “clube fechado” conferia status de “VIP” aos poucos felizardos, ao passo que conformava uma espécie de ambiente controlado — afinal, se apenas amigos de amigos estão aqui, não há com o que se preocupar, certo? Hum… não. Convites começaram a ser vendidos e leiloados. A lógica do “só entra quem é conhecido”, “quem é de confiança”, “quem merece”, não perdurou por muito tempo. Logo, todo mundo tinha Orkut. E quem não tinha, era assediado até entrar. O Orkut virou febre nacional, cresceu exponencialmente. Falava-se que, por culpa dos assíduos brasileiros, a plataforma ficava lenta. Desgostosos, os norte-americanos logo optaram por outros “sites de relacionamento”. O Orkut, então, lançou versão em língua portuguesa e angariou ainda mais usuários.

Quem me apresentou o Orkut? Uma amiga da época do Colégio Técnico em Publicidade, por telefone, ressaltando que era “um barato” e que “até o nosso Colégio estava lá”. Ela me mandou um convite, entrei, e demorou para eu entender que, o que havia na verdade, era uma comunidade formada por alunos e ex-alunos que erigiam tópicos para agregar turmas específicas de formandos, elogiar professores e compartilhar boas lembranças. Frases evasivas, reuniões vazias, promessas de reencontro que nunca se cumpriram, um monte de gente e, ao mesmo tempo, ninguém, em jogos de relacionamento que praticamente não tinham nada a ver com o tema da comunidade, sem falar nos moderadores que deixavam a comunidade abandonada… Impressões iniciais que se confirmaram depois, na observação detalhada de 54 comunidades.

Embora a rede tenha sido desativada em setembro de 2014, o conteúdo público de sua “vasta coleção de comunidades” está disponível para visitação no “Arquivo de Comunidades do Orkut“. Conexões e conversas estão ali, devidamente preservadas, mas sem as fotos de identificação dos usuários. Entretanto, encontrar uma comunidade específica é difícil, pois embora estejam agrupadas por letras, a ordem alfabética, dentro de cada grupo, não é rigorosa. Além de não haver uma ferramenta de pesquisa mais séria para consulta do arquivo, um dado relevante para entender a “importância” de uma comunidade foi excluído: o número de membros.

Algo que me chamou a atenção, desde o início da pesquisa, foi o fato de que muitos usuários tornavam-se membros de comunidades não porque desejassem encontrar pessoas com interesses comuns, ou porque quisessem discutir o tema proposto, mas simplesmente para agregar, em seu perfil, o “selo” da comunidade. O conjunto de “selos” contribuía para a composição da identidade do usuário. Aparentemente, essa era a razão de existir de muitas comunidades, algumas grandiosas como “Eu odeio segunda-feira” ou “Eu amo chocolate”. No Facebook, existem páginas, grupos e eventos com esses mesmos rótulos, mas a dinâmica da plataforma não permite que os usuários se apropriem desses elementos como discurso autorreferencial.

Os fake profiles do Orkut constituem uma história à parte. Proliferaram-se a partir do momento em que, do dia para a noite, a plataforma resolveu tornar pública a informação de quem havia visitado o perfil. É preciso lembrar que não havia chaves de segurança ou níveis de privacidade nos primeiros anos da rede. Bastava ser “amigo” para ter acesso a todo o conteúdo publicado. E, apesar dos indicadores de sucesso propostos pelo Orkut — legal, confiável e sexy —, rapidamente os brasileiros assumiram a quantidade de amigos como válido indicador de popularidade: adicionava-se qualquer um que pudesse aumentar a audiência particular. Quando as visitas aos perfis alheios tornaram-se públicas, uma série de problemas veio à tona: ex-namorados foram pegos espionando suas “ex”, pessoas comprometidas foram flagradas passando por perfis de bonitos desconhecidos, desafetos insuspeitos e inimigos declarados deixaram seus rastros de especulação. A solução pareceu bastante democrática: aqueles que quisessem descobrir quem havia visitado o seu perfil não poderiam se furtar de ter suas próprias visitas reveladas. Consequentemente, quem queria saber quem visitava o seu perfil oficial, mas desejava manter suas espiadinhas no anonimato, partiu para a construção de um fake profile.

Minha própria experiência, conjuntamente com a observação de vários casos, levou-me a concluir que os fakes hostis normalmente são criados por alguém muito próximo. Uma adolescente de 16 anos confidenciou-me que havia levado três meses para compor um fake que não parecesse fake só para dar um susto na melhor amiga, já que não concordava com a forma com que ela tratava os pais. Depois de adicionada, planejou todo um script de interações assustadoras, mas logo após o primeiro movimento agressivo, a decepção: a amiga cometeu “orkuticídio” para preservar a privacidade. A frustração que a adolescente sentia era quase tangível.

Mas, o universo fake não se restringia a essa categoria. O mergulho netnográfico me fez conhecer uma variedade imensa de identidades-perfis: perfis de figuras históricas, de celebridades, de personagens de filmes, desenhos animados e histórias infantis, perfis de bebês, animais e objetos, perfis assumidamente “fakes”, perfis que, nem de longe, pareciam “fakes” e perfis que se pretendiam “reais”, mas que hiper-realizavam seus usuários. Essa significativa quantidade de amostras possibilitou que eu pensasse a relação entre as categorias de representação e simulação, e abandonasse qualquer pretensão de indicar as fronteiras entre real e ficcional. Devo assumir que também dei muitas risadas com alguns fakes criativos!

A experiência netnográfica no Orkut foi riquíssima. Lembro, ainda, de algo bastante peculiar: os depoimentos (ou testemunhais), que tinham lugar de destaque na composição da identidade-perfil. Como a publicação desse tipo de conteúdo passava pela aprovação do usuário, costumava ser utilizado para o encaminhamento de mensagens privadas. No antigo blog “Pérolas do Orkut”, hoje “Pérolas”, havia uma série de depoimentos que foram publicados por descuido, com o agravante de que não podiam ser deletados.

Quando defendi a dissertação, em 2009, o Orkut ainda era a “rede social” mais acessada no Brasil. Entretanto, na mídia só havia espaço para a nova sensação do momento: o Twitter. Facebook já estava por aqui, timidamente ganhando adeptos entre aqueles que estavam cansados da mesmice (ou dos problemas) do Orkut. Muitos mantiveram perfis em ambas as redes por algum tempo. O encanto do Facebook residia em social games como Mafia Wars e Farmville. No Orkut, BuddyPoke e Colheita Feliz também marcavam uma nova fase de uso das redes sociais.

No início do meu Doutorado, em 2010, pude observar que os brasileiros que migraram para o Facebook passaram a destilar uma espécie de “ódio de classe”. Denunciavam a “favelização do Orkut”, cheio de hackers, vírus, barracos, baixarias e gifs animados irritantes, e torciam para que o Face jamais se apresentasse em versão traduzida, confiantes de que o fato de estar em Inglês constituía uma barreira de ingresso das camadas menos favorecidas. A plataforma também tomou cuidado para que os nomes não pudessem ser escritos com uso de caracteres especiais, como ocorria no Orkut, de modo que cada perfil efetivamente correspondesse a uma única pessoa.

Por fim, defendi minha Tese sobre subjetividade e tele-existência em redes sociais em 2013 e o Orkut morreu logo depois, em 2014, deixando poucos saudosos. Google Plus não conseguiu decolar como pretendia, nem mesmo com a estratégia de auxiliar os usuários a migrarem seus perfis do Orkut. E todo mundo tem Face, está no Face… e está enjoado do Face, que não tem os gifs animados do Orkut; mas, em contrapartida, tem montes de imagens com frases de autoajuda, memes nonsense, piadinhas políticas e vídeos de gatinhos charmosos e bebês gargalhando que sempre travam a timeline das conexões menos afortunadas. Percebo o deslocamento da atenção para os grupos do WhatsApp — pequenos ou grandes, formados ora por amigos íntimos, ora por desconhecidos adicionados por amigos comuns, novos espaços de relacionamento e projeção subjetiva que reciclarão os velhos-novos dilemas conhecidos desde o Orkut… E onde “rolam” as mesmas imagens, e frases, e memes, e piadinhas, e vídeos etc. que têm “orkutizado” o Facebook! ; )

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