Transmediale-2015 — Impressões 2

Por Lucia Santaella

Sob o título de “Pós-digital: por quê?”, nos meus posts de 5 de junho/2014 e 30 de setembro/2014 neste blog, teci comentário sobre o Transmediale-2014. Esse evento elegeu como tema central o afterglow, cuja tradução mais literal em português é arrebol, a luz avermelhada do pôr do sol. A ideia era enfatizar que a luz do mundo digital estava entrando no seu crepúsculo. Neste ano de 2015, sob o título de Capture all, o Transmediale entrou decididamente na escuridão da noite digital.

Transmidiale 2015

Transmidiale 2015

O grande malfeitor, que tudo captura, são os algoritmos. Nada mais no universo escapa da lógica de seu poder invisível e onipresente. O governo e as corporações, as economias, a cultura, a vida, nossos pensamentos, nossos hábitos e nosso eu, as coisas, o tempo e o espaço estão submetidos à governabilidade algorítmica. Nesta versão renovada da sociedade de controle do capitalismo digital, tudo virou dados mercantilizados.

O tema da captura foi desmembrado em três grandes eixos a serem submetidos a cuidadoso escrutínio: a vida, o trabalho e o jogo. O que os algoritmos, relacionados a esses aspectos, estão provocando na economia, cultura e sociedade atuais? O espírito, que norteou a busca de respostas para essa complexa questão, alimentou-se de uma certa crença na possibilidade de resistência civil e artística. Em vez de simplesmente copiar a mímica do big data da ciência, as artes e humanidade devem explorar novas alianças críticas com as formas que a sociedade civil pode ter de produzir barulho público de modo a garantir a integridade e a disseminação ética da informação.

Algumas sessões de trabalho buscaram abrir brechas de luz na escuridão, discutindo os equívocos e ofuscamentos daquilo que costuma ser compreendido como governabilidade dos algoritmos. Na realidade, o evento não tinha por intenção levantar apenas críticas, mas buscar caminhos de resistência nos três eixos do trabalho, do jogo e da vida.

Esta multifacetada sociedade de vigilância ubíqua, operativa também no trabalho, visa a nos tornar mais produtivos. Mas será que queremos nos engajar em uma sociedade que tudo traduz em aceleração do trabalho? Quando o trabalho é cada vez mais definido por algoritmos, rotinas de regulamentação controlam e intensificam a performatividade. Qual é a possibilidade de recuar, sem ser marginalizado do mercado de trabalho?

Se a gamificação é também uma estratégia para a captura total que facilita a completa “dadificação” e mercantilização, isso significa que estamos condenados a uma decadência lúdica? Os painéis que levantaram os dilemas dos games apontaram para a intensificação do que se chama “o jogo dos comuns” que confia na abundância e sociabilidade do jogo em si mesmo. Ou melhor, como práticas P2P podem ser usadas para construir cenários lúdicos para espaços urbanos e sociais?

O que vem acontecendo com a vida em meio à avalanche de algoritmos? Quais são os impactos da lógica da padronização e da engenharia sobre os sistemas vivos? Qualquer direção que possamos tomar, sugestões, recomendações e estatísticas fisgam nosso olhar, transformando nossas vidas em índices de monetarização. Como as formas de contra-organização podem se manifestar através dos vãos e excessos das redes cibernéticas?

A grande maioria das discussões tinha como mira fundamental as pretensas perdas relativas ao eu, ao self. O que se lamenta é o eu quantificado, a automercantilização, a coisificação do eu, a perda da privacidade pessoal, o imaginário capitalista que permeia o planeta com seu modo próprio de captura, abraçando desde a subjetividade até a ecologia, desde o involuntário às racionalidades conscientes. Tais lamentos, infelizmente, nas vozes que se faziam ouvir pelos painéis, mesas redondas e mesmo conferências principais, foram deixando como saldo a impressão de que a inteligência e psiquismo coletivos, espraiados pelas redes planetárias de comunicação, não conseguiram abalar em quase nada o apego nostálgico ao eu cartesiano, ou seja, um eu unificado, senhor de si mesmo, autônomo e impermeável às transformações, instabilidades e incertezas que a alteridade produz em nós.

Essa tônica nostálgica, com entonações autorais sui-generis, atingiu seu clímax na palestra mais esperada e mais celebrada de todo o evento. O tema, Capture all: life, foi tratado por Byong-Chul Han. Esse filósofo coreano-alemão, com 56 anos e aparência de 30, hoje alocado na Universität der Künst, de Berlin, na qual trabalha com filosofia e novas mídias, está fazendo furor na Alemanha, com repercussões também na Escandinávia e Espanha. Sua biografia, sobre a qual não cabe aqui discorrer, tem lances extraordinários de genialidade. Alguns o consideram sucessor de Baudrillard ou Agamben. Vem publicando de um a dois livros, bem curtos (por volta de cem páginas), todos os anos e alguns deles já estão traduzidos para doze línguas. Os títulos dos livros primam pela força sugestiva. Seguem alguns deles: Hiperculturalidade (2006), A arte da permanência (2009), Por que dói o amor (2009), A agonia de Eros (2012), Sociedade da fadiga (2012), Sociedade da transparência (2013), No enxame (2014). O que une todos esses livros é o diagnóstico, que o autor realiza, das patologias psíquicas das sociedades atuais (aliás, baseado em Han, esse será o título de um dos capítulos “patologias psíquicas do pós-digital” do livro que estou no momento tentando terminar). À luz desse diagnóstico, a fadiga, por exemplo, traduz-se em fadiga de si mesmo, como foi magistralmente tratada no filme Melancolia, de Lars von Trier. Toda sociedade apresenta suas próprias enfermidades. Para Han, da enfermidade bacteriana, passamos para a viral e, agora, enfrentamos a enfermidade neuronal. A exposição de suas ideias — pontilhada de expressões breves e contundentes, tais como implosão psíquica, surplus de positividade, competição consigo mesmo, exibicionismo beirando o pornográfico etc. — era seguida pelo imenso público com atenção ávida e aquiescência irrestrita.

Outro ponto alto foi a conferência de McKenzie Wark que se tornou famoso desde a publicação do seu Manifesto Hacker (2004), no qual criticava duramente a mercantilização da informação. Passados dez anos, o tom de Wark, na conferência, era de descrença no poder de resistência dos hackers, poder subversivo com o qual um dia sonhou. Hoje, tudo se tornou funcional e inteiramente incorporado aos motores de controle e valor. Nesse sentido, o ceticismo desalentado ou irônico, que já se insinuava na abertura do evento, nessa palestra atingiu seu clímax — e as alternativas que sobraram para os hackers não são muito alentadoras: ou são perseguidos e presos, ou se protegem à margem de uma atuação que seja capaz de encontrar vias desviantes do sistema, ou são contratados pelas grandes corporações com altos salários. Em anos anteriores, os ideais do Transmediale alimentavam-se na figura heroica do hacker. Na descrença desse ideal, o que resta é a ironia como único e minguado farolete para se locomover na escuridão do mundo digital.

Felizmente, no último dia, enquanto o domingo de inverno belinense era banhado pelo sol e a limpidez do azul reaparecia no céu, a palestra de Bruce Sterling (escritor ciberpunk visionário e antecipador da internet das coisas) entrou pela Haus der Kulturen der Welt como uma golfada de ar puro. A lucidez, então, se casou com a luz que brilhava lá fora.

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Com humor irreverente, temperado pelo talento performático de seu discurso, Sterling evidenciou os lados do digital cujas cores a pretensa escuridão, que perpassou todo o evento, não deixou entrever. Relatou o experimento, no qual está envolvido, de desenvolvimento de um laboratório de internet das coisas, baseado em software livre. Conclusão: o que ficou de sua apresentação parece ser a lição de que a maioria dos discursos críticos só gasta saliva e silício, sem levar a nada, sem consequências pragmaticistas. Em suma: criticar não é falar, mas fazer.

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