Ciberativismo e Noticiário — da mídia torpedista às redes sociais

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Por Magaly Prado

Estou com um livro no prelo e em breve vou lançá-lo. Sinta-se convidado desde já, se você morar em São Paulo. O título é “Ciberativismo e Noticiário — da mídia torpedista às redes sociais” e sai pela editora Alta Books. Separei uns trechos da apresentação para que você fique a par da história que me levou a escrevê-lo — primeiro, por meio de um estudo acadêmico no CIP, da faculdade Cásper Líbero; e, depois, atualizado para virar livro.

Quando dei início, não imaginava a reviravolta no corpus de pesquisa que aconteceria ao longo dos meses. É certo que estava bem-acostumada a atualizar os demais estudos que já havia realizado, pois, em geral, trabalho com tecnologia digital, algo em constante inovação. Afinal, uma nova tática revolucionária está em curso e eu preciso colocar ponto final nesta pesquisa? Não é justo, mas, ao escolher o ciberativismo, não esperava tamanho alvoroço no decorrer da metodologia que escolhi. Vou explicar.

A pretensão era discutir como os modos de fazer política mudam com a comunicação que usa as tecnologias digitais. Por exemplo, como celulares enviando torpedos (ou, hoje em dia mais comumente dizer, enviando um “Whats”) para “chamar” as pessoas para protestar nas ruas com a estrondosa (a palavra aqui não é exagerada; é estrondosa mesmo!) ajuda das redes sociais permitia alastrar esses tipos de “convites”. Também cabia analisar a consequente cobertura que a mídia faz das manifestações ocasionadas por esses chamados e verificar o trabalho da mídia independente, mostrando a crua realidade — inclusive, em tempo real — via streaming, para escancarar o que de fato acontece nos movimentos políticos dos últimos tempos.

Só não imaginava que a pesquisa inicial extrapolasse tanto meus objetivos e ganharia tamanho corpo. Afinal, em fins de 2012, quando dei início ao estudo, as manifestações aconteciam — algumas são arroladas ao longo do livro —, porém não com a intensidade marcada pelo fatiloquente “junho de 2013” nas redes e nas ruas. Desfecho da ocasião: quando pensava em qual dos movimentos escolher (cheguei a cogitar a Marcha das Vadias) para trazer como case e melhor exemplificar, estourou o que podemos nomear de “outono brasileiro” ou “jornadas de junho”. Foi então que me deparei, de modo óbvio, com outro viés de corpus de pesquisa; ou seja, o foco não poderia estar em simplesmente mostrar o estado da arte do ciberativismo brasileiro (com algumas referências no mundo), pontuando o que mais se destacava. Simplesmente, “caiu no meu colo” o movimento — inicialmente a favor da total mobilidade urbana e contra o aumento das tarifas de transporte público — deflagrado no começo de junho de 2013, época em que eu estava com o trabalho em fase de qualificação. Reorientar era preciso e, então, mudanças de rumo me fizeram pesquisar o que vinha acontecendo e o que andavam dizendo das manifestações de junho (de 2013) para cá (de 2014).

Tornou-se imperativo entender como uma nova realidade jornalística foi propagada, com a mistura da mídia de massa e a mídia independente a cobrir um dos atos que culminou em uma tomada das ruas como não se via desde que a internet entrou na vida das pessoas. O que ou quem, até então, era denominado jocosamente pelos contrários de plantão como “ativistas de sofá”, “só cliqueativismo”, “agitadores de redes sociais”, “militantes do Twitter” etc. mostrou que não era só isso. Um novo ambiente foi instaurado nas redes e nas ruas e a cobertura dele provocou uma quebra de paradigma na imprensa tradicional, insensível aos novos modos de reportar, para dar lugar (sem volta) a uma mídia livre. Ei, você jornalista, da mídia de massa, que faz o papel oposto a essa mídia vetusta a que estou me referindo, não é sobre você que estou falando. Não estou generalizando e, aliás, pontuo alguns de seus feitos favoráveis, assim como temos a certeza de que as mídias sociais também possuem seu lado negativo. Óbvio!

Infelizmente, não vou entrar no mérito de como exatamente as redes espalham as informações e muito menos sobre posts promovidos, como se dá no Facebook (provavelmente, a principal delas no uso como plataforma de ativismo entre os brasileiros (quiçá de outras nacionalidades), por exemplo. Isso seria farto assunto para uma nova pesquisa. Aliás, aqui cabe bem o que Lucia Santaella acentua em seu mais recente livro, Comunicação Ubíqua: Repercussões na Cultura e na Educação, no capítulo Política nas Redes em tempo Real: “É certo que os movimentos sociais, tanto tradicionais quanto atuais, nas redes ou fora delas, nem sempre apresentam metas voltadas para a justiça e emancipação.”

Há movimentos sociais de todos os tipos: fundamentalistas, conservadores ou revolucionários, legais ou ilegais, criminosos ou libertários. Apesar disso, felizmente, os movimentos emancipatórios ganham em número e diversidade dos movimentos criminosos. É para esse que mais interessa chamar atenção, já que é neles que podemos nos engajar (SANTAELLA, 2013: 104).

Exatamente. É no poder dos movimentos emancipatórios que a inteligência coletiva das pessoas em rede denota e é a eles que o este estudo se atém; ou seja, aos aspectos positivos do ciberativismo e à sua capacidade de instigar as pessoas, como podemos ver no coração dos protestos pelo histórico de ocupações nas ruas. De qualquer forma, com o alcance tremendo que as redes dão, pipocaram diversas opiniões e tive o cuidado de trazer um mínimo registro — no estilo de curadoria de conteúdo (tão em voga nos últimos anos) — de algumas dessas opiniões e de instantâneos de práticas coletivas.

Trata-se de um breve apanhado, que mostra diversas facetas deste momento histórico do Brasil. Insisto no “breve” para deixar claro que não é realmente completo, porque é impossível a dedicação integral ao estudo de pesquisa. Sonho, um dia, ficar apenas pesquisando os temas que considero caros para o entendimento das atitudes de quem se dedica a mudar o estado de coisas, da arte, da política e da vida. No entanto, aceito sugestões para refinar este texto aqui e ali para, quem sabe, uma segunda edição. Assim, no intuito de fechar essa apresentação, trago reflexões de Bruno Latour (2014: 4) sobre o mundo da pesquisa, para autenticar o que penso: “C’est dans le feu du travail collectif sur le texte (et non pas sur les idées du texte) que l’auteur s’aperçoit peu à peu de cette immense distance et que le texte peut être ensuite corrigé, réécrit, rattrapé. Ecrire c’est, par définition, réécrire”.

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