It’s a Match! Jovens e o jogo do flerte digital

Por Marcelo de Mattos Salgado

Figura 1 — Casal que se conheceu no Tinder fez tatuagem com o símbolo do aplicativo. Reprodução/Instagram/luh_jahnke

Figura 1 — Casal que se conheceu no Tinder fez tatuagem com o símbolo do aplicativo. Reprodução/Instagram/luh_jahnke

O fim do ano passado foi agitado para nosso grupo de estudos: publicamos o livro homônimo “Sociotramas — Estudos multitemáticos sobre redes digitais” e realizamos o colóquio “A onipresença dos jovens nas redes digitais”. Hoje, trago os dados e alguns comentários sobre a modesta (mas interessante) pesquisa que fiz como base do artigo que apresentei, intitulado “A gamificação do romance entre os jovens”.

Lembro que, duas décadas atrás, quando eu era um jovem nerd e gamer, os jogos eletrônicos tinham uma imagem um tanto marginalizada; eram “coisas de criança”, de gente antissocial e esquisita. Neste meio tempo, houve o que gosto de chamar de uma “normalização dos games” e de suas características na sociedade. Portanto, uma normalização não apenas dos games como evento lúdico em si, mas também de suas propriedades — e derivações.

O cientista de análise de dados Michael Wu define gamificação como “o uso de atributos de jogos para direcionar comportamento típico de jogos em indivíduos dentro de um contexto fora de um jogo”. Tais comportamentos incluem a busca por diversão e o estímulo a um comportamento repetitivo — ou “viciante”. Quanto aos contextos que podem herdar tais atributos de games, destaco os sites e aplicativos de flerte e namoro como Tinder, Hot or Not e OkCupid. Para conhecer os resultados e tendências indicadas na pesquisa qualitativa que fiz no fim de 2014, clique aqui para o arquivo PDF. O artigo de 18 páginas que escrevi sobre o assunto será publicado no próximo livro do Sociotramas — fique ligado. Por agora, comento um resultado interessante nos aplicativos Tinder e Hot or Not, que tem sua gamificação evidenciada também nas interfaces de usuário (U.I. ou user interface), na valorização das fotos e em seus sites (veja as figuras 2 e 3).

Figura 2 — Hot or Not (aplicativo). Esta é a página inicial do site na Internet. Ênfase para "jogar" e "entre no jogo", destacados por setas vermelhas que fiz

Figura 2 — Hot or Not (aplicativo). Esta é a página inicial do site na Internet. Ênfase para “jogar” e “entre no jogo”, destacados por setas vermelhas que fiz

Figura 3 — Tinder (aplicativo). Quando duas pessoas se "gostam", esta tela aparece. Destaque para o "keep playing" (continue a jogar). Cobri as fotos das duas pessoas com círculos vermelhos

Figura 3 — Tinder (aplicativo). Quando duas pessoas se “gostam”, esta tela aparece. Destaque para o “keep playing” (continue a jogar). Cobri as fotos das duas pessoas com círculos vermelhos

O grupo de jovens pesquisado (universitários de São Paulo, SP, entre 16 e 24 anos) consistiu na módica quantidade de 78 pessoas (N=78), que responderam a 14 perguntas — 12 sobre o que pensam a respeito de sites e aplicativos de namoro e flerte. Os jovens acessaram o questionário on-line e, por mero acaso, obtive respostas de 38 homens e 40 mulheres.

A expectativa inicial era que os sites e aplicativos mencionados tenderiam a atrair pessoas que buscam relacionamentos passageiros, superficiais. Isto foi confirmado, assim como a figura 4 mostra: 66% ou dois terços dos jovens concordam que usam tais recursos para “ficar”, beijar, “nada sério”; e apenas 13% discordam da proposição.

Figura 4 — Pesquisa — Sobre os motivos que levam a usar aplicativos e sites de namoro e flerte. Resposta: encontrar alguém para "ficar" (beijar etc.), nada sério

Figura 4 — Pesquisa — Sobre os motivos que levam a usar aplicativos e sites de namoro e flerte. Resposta: encontrar alguém para “ficar” (beijar etc.), nada sério

Mas houve uma surpresa interessante em outra pergunta, quando uma quantidade significativa, ou 44% dos rapazes e moças, mostraram interesse em usar Tinder, OkCupid e afins para procurar uma “relação séria” — 26% discordam. Veja a figura 5:

Figura 5 — Pesquisa — Sobre os motivos que levam a usar aplicativos e sites de namoro e flerte. Resposta: achar alguém para uma relação séria

Figura 5 — Pesquisa — Sobre os motivos que levam a usar aplicativos e sites de namoro e flerte. Resposta: achar alguém para uma relação séria

A figura 1, que ilustra a abertura deste texto, seria exemplo disto: o Tinder permitiu a um casal brasileiro conhecer-se por meio do aplicativo. Os dois estão apaixonados a tal ponto que decidiram fazer, ambos, uma tatuagem com o símbolo do Tinder — isso mesmo! Mas o encantamento do flerte digital, ainda que seja muito mais prevalente entre os jovens no caso dos aplicativos como o Tinder, também alcança os mais velhos. Quer ver?

Tenho uma breve história para fechar este texto — coisa de algumas semanas atrás. Conheço um senhor já grisalho, taxista, com quem às vezes converso. Ele ficou viúvo uns dois anos atrás e me deu a entender que se sentia um tanto sozinho, que queria conhecer uma senhora como ele. Seus filhos também achavam boa ideia. Não tive dúvidas: apresentei a possibilidade do Tinder e já me prontifiquei a instalar o aplicativo em seu celular. Passado o fim do ano de 2014, encontrei o taxista com olhos enormes e um sorriso largo, querendo puxar papo.

Resumo: ele já está a namorar há três meses uma senhora divorciada, também com filhos. Extremamente felizes, já conheceram as famílias um do outro e estão buscando um apartamento para morar juntos. Falou que vai me chamar para o casamento quando acontecer (a coisa nitidamente vai muito, muito bem). Nesses tempos de supermercados de gente, será que posso adicionar o título de cupido digital a meu currículo?

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