Na era da distração, o que realmente se perde e o que apenas se transforma?

distracaoPatyF_sociotramas

Por Patrícia Fonseca Fanaya

Vivemos em um mundo loucamente acelerado. Uma época de atividade constante e sem trégua. Nossas vidas estão sempre repletas de afazeres e ruídos; povoadas por verdadeiras legiões de pessoas que muitas vezes nem conhecemos o suficiente, mas que demandam de nós atenção e interação. Buscamos freneticamente realizar diversas tarefas ao mesmo tempo, por meio das múltiplas telas que temos à disposição, sem que tenhamos muito tempo para pensar nem sobre elas e nem sobre o que fazemos com elas. Respondemos mensagens instantâneas vindas de diversos remetentes e grupos diferentes; falamos ao celular o tempo todo, até dentro de banheiros; acessamos as redes sociais para publicarmos selfies, curtirmos ou comentarmos posts de amigos; lemos os feeds de notícias de nossos veículos de comunicação preferidos; e tudo isso no exíguo período de meia hora que temos para o almoço — quando podemos usufruir desse luxo. Sintomas da cultura, como diria minha mentora intelectual.

Esse estado de hiperatividade e hiperconexão faz com que nos tornemos mais tolerantes com muitas coisas, por exemplo, o erro — o nosso e o dos outros. Passamos a incorporar o erro sem muita culpa em nossas vidas, afinal, “enviei aquele email correndo”, “não deu tempo de checar aquela informação”, “falei sem pensar muito”, “a foto foi tirada e postada no calor dos acontecimentos”, entre tantas outras respostas que costumamos dar e ouvir quando alguma coisa sai diferente (ou errada mesmo) do que aquilo que esperávamos ou esperavam de nós. Portanto, parece que junto com a normalização do erro e a amenização da culpa por errar com frequência, o perfeccionismo e a privacidade também estão se tornando coisas de um passado cada vez mais longínquo.

As perdas parecem ser inevitáveis nesse contexto em que vivemos e parece óbvio que algumas coisas podem ser irremediavelmente perdidas. Considero que, na categoria daquilo que pode ser irremediavelmente perdido estão algumas amizades — nem tão sólidas assim para serem fulminadas por um comentário irrefletido; um emprego — fruto daquela distração de enviar uma foto indiscreta do chefe ao colega da mesa ao lado e ter o azar de a criatura tomar ciência disso; dinheiro — caso realize operações financeiras sem o devido cuidado; e assim por diante.

Outra coisa que me parece perdida para sempre: o sonho de Arcádia, aquele da vida em estado puro, verdadeiro retorno ao ideal de “homem natural” inspirado na famosa frase de Horácio: “fugere urbem” — sonho este traduzido hoje pelo desejo de desconexão tecnológica. Parece-me um devaneio e até mesmo, por que não, uma sandice, gente que diz viver uma vida “desplugada”, “desconectada”. Oi? Como assim? Quer dizer que você escreve uma carta, leva até o correio e espera a resposta (há de esperar sentado) em vez de mandar um e-mail ou um WhatsApp? Quer dizer que você escreve um artigo, um conto, um livro na máquina de escrever e, quando erra uma palavra, lança mão daquele corretor branco melequento (ainda existe isso pra comprar?) ou rasga tudo e joga páginas e páginas no lixo? Ou ainda vai me dizer que viaja com a família e leva rolos e rolos de filmes e manda “revelar” as fotos das crianças quando retorna a casa? Não… Esse discurso dos “desconectados” não me parece crível.

Poderia continuar escrevendo muitas e muitas páginas sobre o que parece estar perdido em meio a tantos estados de excitação hipertecnológica cotidiana da mente, mas gostaria de falar um pouco sobre o que parece estar se transformando, se reajustando ou se adaptando para caber melhor nessa realidade de onipresença das tecnologias always-on: a atenção e o pensamento.

A atenção é, sem dúvidas, uma das capacidades mais profundamente afetadas não só pela hiperatividade permanente como pela hiperconexão. Parece que estamos sofrendo de escassez de atenção e, consequentemente, parece que estamos perdendo o poder de concentração. Uma boa dose de concentração parece ser o ingrediente indispensável à capacidade do pensamento, mas como vivemos em um mundo em que AGIR, — e não PENSAR — parece ser a palavra de ordem, as coisas andam bastante caóticas ultimamente. Mas será que AGIR e PENSAR são duas coisas tão diferentes assim? Será que PENSAR não é uma forma de AGIR?

Em um recente post para o site 13.7 cosmos & culture, Alva Noë comenta um recente experimento publicado na revista Science, e replicado em outras tantas publicações, cujos resultados concluíram que as pessoas preferiam levar choques elétricos a ter que passar algum tempo em companhia de seus próprios pensamentos.

Noë coloca em dúvida algumas conclusões apresentadas pelo experimento — não os dados em si, mas a interpretação deles. Ele começa pelo resultado mais fartamente discutido: uma porcentagem significativa de indivíduos se autoadministrou choques não dolorosos quando lhes foi dada a opção de passar entre seis e quinze minutos, sozinhos, em silêncio, na presença de seus próprios pensamentos.

Noë comenta que, como os sujeitos estavam ligados a um aparelho que dava choques, parece plausível dizer que as pessoas poderiam querer explorar os efeitos do autochoque, testando e refletindo sobre os resultados ou simplesmente entregando-se à curiosidade sobre seus efeitos, e que isso pode ser considerado como uma forma de engajamento com os pensamentos em vez de um distanciamento deles. A especulação sobre os efeitos dos choques não é comparável à verificação de e-mails, diz ele; é mais comparável com a percepção das sensações físicas, como aquela de se sentar em uma cadeira, ou comentar sobre a forma como a luz atravessa a cortina da janela iluminando o tapete e formando padrões. Essas especulações sobre as sensações podem ser modos de concentração, em vez de modos de distração. Não há dúvida de que os indivíduos sentiram algum prazer em se autoinflingir os choques, mas, mesmo que isso também seja verdade, eles não acharam que os choques fossem agradáveis por si mesmos, e nada disso demostraria que eles chegaram à conclusão que “apenas pensar” fosse algo aversivo. E, continua Noë, há uma boa razão para duvidar dessa conclusão: quando perguntados, a maioria das participantes do experimento relatou que a experiência de pensar era, no mínimo, um tanto agradável.

Noë também aponta o que ainda podemos aprender com outro teste descrito no artigo, em que os participantes foram pegos “trapaceando”, pois enviaram mensagens ou verificaram e-mails quando deveriam ter passado entre seis e quinze minutos apenas pensando. Aqui o conflito entre verificar e só pensar é real, diz ele, mas o impulso para verificar as mensagens pode não ter sido motivado pelo prazer, mas pela compulsão. As pessoas checam mensagens mesmo quando estão assistindo seus programas de TV favoritos — elas podem optar pela distração mesmo que isso signifique a diminuição do prazer.

A questão mais importante levantada por esse tipo de experimento, diz Noë, é avaliar se não há uma tendência a se operar com uma caricatura do que seja “só pensar”. A tendência, diz ele, é achar que pensar é algo cerebral e introspectivo e que contrasta com uma espécie de orientação exterior desprovida de um self em relação àquilo que está acontecendo ao nosso redor. Mas isso é confuso, diz ele. Um matemático resolvendo um problema no papel está olhando para fora ou pra dentro? E o visitante de uma galeria de arte observando uma pintura e tomando notas? Não é este tipo de olhar, contemplativo, ou a ação de tomar notas, formas diferentes que o pensamento assume para nós?

Ou seja, antes de saírmos por aí, apressadamente, concluindo que é a tecnologia que nos tem subtraído capacidades como a atenção, a concentração e até mesmo o pensamento, é necessário que reflitamos sobre a realidade despidos de velhos preconceitos que beiram a caricatura, e invoquemos um pouco mais Raul (sim, ele mesmo, o Seixas!) que, em suas próprias palavras, queria ser “uma metamorfose ambulante”. Em vez de pensarmos o mundo a partir das dualidades cartesianas do dentro e fora, interno e externo, mente e corpo, certo e errado, precisamos pensar que nossa hiperatividade conectada always-on está transformando, reajustando e adaptando nossas capacidades para que sejamos capazes de viver e sobreviver neste mundo que nós mesmos criamos. E neste mundo “novo”, AGIR é PENSAR e PENSAR é AGIR — como se algum dia de nossa história como espécie sobre a face da terra tivesse sido diferente… mas esse é um assunto para outro post :).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s