Um lugar sem imagem não é um lugar

Por Patricia Huelsen

Recentemente tive que me debruçar na geração de conteúdos para dois sites, um sobre um projeto de recuperação de fontes históricas da cidade de São Paulo e outro sobre o São Paulo Medialab, instituto que está coordenando o referido projeto. Nesta empreitada, pude sentir na pele o que talvez muitos dos colegas publicitários e designers vivenciam diariamente: que um site sem imagem não é um site. Certamente as representações iconográficas fazem parte da nossa vida deste as cavernas.

Mas eu parecia pré-histórica: queria as letras, e as recomendações eram “use muita imagem, menus laterais (são mais fáceis para o acesso mobile) e uma faça um site de uma única página! Alguns colegas tentando me auxiliar na tarefa diziam: “Ninguém mais quer ler muito conteúdo. Ainda escutava: “Coloque as imagens maiores, por favor!” O meu texto teve que buscar espaço e competir pelos sentidos, onde tudo o que parecia importar eram as pitorescas imagens de nossas fontes de água, muitas delas cercadas por monumentos, outras modestas — mas todas descuidadas e esquecidas. Resultado: fiz um site duro, segundo um colega designer, com muito texto. Muito bem. Duro mesmo foi encontrar imagens que representassem as ideias!

A situação, como que se não pudesse fluir (fluss), remeteu ao clássico do Flussel: “Não é verdade, no entanto, que a invenção da escrita alfanumérica, a consciência imagística, mágica, tenha sido vencida ou reprimida pela nova consciência histórica ou linear, progressiva… E embora os primeiros letrados se tenham violentamente engajado contra as imagens, considerando-as alienantes, as imagens resistiam aos ataques. Absorviam elas os textos que contra elas avançavam e recodificavam os conceitos em ideias. À medida que os textos iam explicando as imagens, as imagens, por sua vez, iam ilustrando os textos.” Sem entrar na filosofia e na dialética entre texto e imagem, deixo aqui o que percebi e que talvez muitos já saibam: estamos próximos de ver os aspectos visuais na internet mudarem de verdade. “Aos artistas, o Photoshop, o Movie Maker, o YouTube; aos poetas, o teclado; e a todos, muita banda larga!”. De fato, se a Web incorporar as novas tecnologias de filmagem, edição e impressão 3D, os nossos sites cheios de textos poderão ficar ultrapassados.

Além dos famosos óculos 3D que têm sido noticiados, vale observar uma filmagem sobre Paris de todos os tempos em 3D e um carro produzido por uma impressora 3D — essas coisas já são realidade! Sei que ainda estamos aprendendo sobre como achar textos na Web (SEO), digitalizando acervos de textos e ainda engatinhamos na produção de conteúdo coletivo ou mesmo na comercialização de produtos via redes sociais. Mas, talvez, a Web de tantas palavras e links seja como o mundo cartesiano de Descarte, o mundo multitridimensional mesmo — que ainda está por surgir. A Web muito mais imagética pode ser um passo para ele. Imaginação? O que de fato devemos considerar é que a tecnologia e a realidade não andam juntas, e não só pela virtualidade, mas por que não andam na mesma velocidade. Seja pela dificuldade de adaptação humana, cultural ou pelos interesses monetários e comerciais. Sempre foi assim — temos tecnologia para as lâmpadas durarem a eternidade há mais de cem anos, mas só agora a indústria resolveu disponibilizar tal tecnologia comercialmente. Temos tecnologia para conectar todos os objetos que são ou serão produzidos, mas ainda não temos conexão boa e livre nas cidades, inclusive em São Paulo (Nova York, por exemplo, anunciou mudanças).

E como uma imagem fala mais que muitas palavras, deixo duas aqui: uma de duas fontes e outra de uma praça com wi-fi livre. A primeira trata-se do Largo da Memória, onde inicia-se o Projeto Fontes de São Paulo, iniciativa que busca mudanças para a cidade do ponto de vista estético, urbanístico, artístico, tecnológico e social. O largo conta com o obelisco mais antigo de São Paulo, que comemora este ano 200 anos, além de duas fontes de água ornadas com azulejos portugueses.

Deixo também a imagem da praça Dom José Gaspar, ao lado da Biblioteca Mario de Andrade, onde o wi-fi passa livre entre árvores centenárias, berço do movimento modernista da cidade. Fiquemos com as árvores e o verde vindouro das águas que, esperamos, cheguem para valer em dezembro. Que as chuvas reguem nossas árvores, lavem nossas almas e sejam uma fonte inspiradora para um 2015 cheio de boas imagens e bons textos. Um ano fluído para todos nós!

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Fonte: Catracalivre, S/A.

Fonte: Catracalivre, S/A.

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