RedeLabs: políticas públicas para os laboratórios cidadãos

Por Izabel Goudart

Após a efervescência de eleições (sem defender aqui continuidade ou ruptura…), venho aproveitar para falar sobre políticas públicas em âmbito nacional e ibero-americano, que visam a promover e estimular a implantação de uma rede de laboratórios abertos, experimentais ou cidadãos, entre várias denominações. Já abordei o tema dos laboratórios experimentais no post Rede transdisciplinares de colaboração, em 2012. Na época, finalizei o texto com uma citação de Edward Shanken, comentando sobre o futuro de tais laboratórios, que aqui volto a destacar: um futuro que ateste como as mudanças correntes de concepção e construção de conhecimento e da sociedade, como um critério evolutivo, adquiriram reconhecimento científico e valor cultural e uma distribuição ubíqua. Talvez ainda não tenhamos chegado lá, mas há muitos braços, mãos e mentes, corpos inteiros debruçados para atingir esse objetivo. E mais, para que nossos chefes de estado tomem como prioritário o desenvolvimento de uma agenda futura em que cada governo possa criar e fomentar espaços que impulsionem a inovação cidadã. Dentre as funções desses espaços estariam a difusão, promoção, apoio e o estímulo ao surgimento de novos contextos de produção, abertos e colaborativos, que sejam efetivamente acessíveis e inclusivos.

Ações nesse sentido têm sido formuladas no âmbito de uma Cúpula Ibero-americana por meio do projeto Cidadania 2.0, gerido pela Secretaria Geral Ibero-Americana, que tem como finalidade promover a inovação cidadã ibero-americana mediante o uso de meios digitais com o fim de fomentar a transformação social, a governança democrática e o desenvolvimento social, cultural e econômico.

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O Cidadania 2.0 vem sendo articulado como um espaço de trabalho conjunto entre sociedade civil, governo e empresas baseado em dinâmicas colaborativas e abertas. O projeto nasceu em 2011, na Cúpula de Mar del Plata. Uma visualização das ações e eventos realizados e uma agenda de ações e eventos até o início de 2015 pode ser acessada em Cidadania 2.0 em 5 min.

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Dentre as ações, foi redigida colaborativamente uma carta com proposições para impulsionar a inovação cidadã, apresentada aos chefes de Estado e de Governo na Cúpula do Panamá 2013. A Inovação Cidadã (IC) é entendida como a participação ativa dos cidadãos em iniciativas inovadoras que buscam transformar a realidade social, a fim de alcançar uma maior inclusão social. Tais iniciativas são apoiadas pelas tecnologias digitais que possibilitam há muitos coletivos ter maior capacidade de autoorganização, mediante práticas colaborativas, trabalho em rede e transferência de conhecimento.

Destaca-se como prioridade o desenvolvimento de uma agenda futura, a partir da qual os governos fomentem a criação de espaços denominados de “Laboratórios Cidadãos”, onde o trabalho colaborativo seria facilitado para estimular o desenvolvimento da capacidade inovadora do exercício da cidadania. O novo cidadão emerge a partir do potencial de articulação em rede, da expansão do âmbito em que podem atuar e da capacidade de identificar oportunidades e problemas de sua comunidade e propor projetos e soluções que possam ser motoras de transformação social, por meio de uma ativa comunicação e participação da comunidade. O projeto Redes Livres é um exemplo das possibilidades de articulação autônoma de uma comunidade em relação à apropriação de recursos digitais de comunicação em rede. Como resultado da carta de proposições, 22 países ibero-americanos, impulsionados pelo Panamá e o México, aprovaram um comunicado especial instando a Cidadania 2.0 a iniciar uma agenda de propostas para a região. O Brasil encontra-se incluído neste documento. Em 2014, foi lançado para edição colaborativa online um segundo documento aberto, que tem como objetivo estabelecer o que são os laboratórios cidadãos, como beneficiam seu país/comunidade e como podem ser implantados e desenvolvido com o fim de fomentar a IC. Esse documento será apresentado na próxima cúpula, a XXIV Cúpula Iberomericana de Chefes de Estado e de Governo que ocorrerá dias 8 e 9 de dezembro de 2014, na cidade de Vera Cruz, México, com o tema: Educação, Inovação e Cultura. Para conhecer as proposições e colaborar na sua construção, basta acessar a página do documento.

No período que antecede a Cúpula (23 de novembro a 5 de dezembro), será realizado o Labic Vera Cruz, no México. Laboratório imersivo em que dez projetos ibero-americanos desenvolverão colaborativamente protótipos de projetos de IC aplicados à realidade dos países envolvidos. A metodologia utilizada é inspirada no modelo desenvolvido pelo Medialab Prado, onde equipes de trabalho são constituídas pelos proponentes dos projetos, um grupo de colaboradores e tutores. Oportunidade de multiplicar os mediadores que atuaram na proliferação dessa rede de laboratórios. A presença física, afinal, é um elemento-chave na constituição e fortalecimento dos vínculos que articulam a trama da rede.

No Brasil, a articulação de propostas foi retomada na plataforma RedesLabs, desenvolvida atualmente por Felipe Fonseca e Luciana Fleischman como uma parceria entre o Ubalab e a Coordenadoria Geral da Cultura Digital do Ministério da Cultura. Seguindo a linha adotada ao longo desta pesquisa, todas as análises e propostas elencadas trabalham com o horizonte do incentivo a uma cultura digital da abertura que se ocupe da produção do comum, pautando-se pelos princípios da inclusão, da diversidade, da sustentabilidade e da produção interdisciplinar, e priorizando estes como elementos de resistência às possíveis armadilhas interpostas por uma percebida submissão gradual da produção cultural às regras do mercado. Na plataforma, encontramos uma vasta e rica documentação contendo um mapeamento de iniciativas brasileiras e referências internacionais de modelos de laboratórios experimentais de cultura digital e estratégias para consolidação de ações que incentivem uma cultura digital de abertura no Brasil. Apesar de parecer ingênuo e utópico falar de tais propostas, principalmente diante do cenário político delineado em nosso país, como educadora e artista quero acreditar que as palavras de Shanken possam nos ser ofertadas como uma possibilidade do real e respirar um pouco de ar fresco, ganhando, assim, impulso para continuar investindo em pesquisa e experimentações nesse sentido, aplicadas à educação formal, fazendo coro à consolidação dessa rede. O primeiro laboratório cidadão brasileiro, previsto nas metas lançadas para os próximos cinco anos no documento elaborado pela Cidadania 2.0, será implantando na cidade de São Paulo, como iniciativa da prefeitura da cidade. Fica o convite para colaborarmos na tessitura dessa rede de laboratórios no exercício de outras e novas possibilidades de exercício da cidadania.

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