Somos todos produtos?

 Por Valéria Rodrigues

Muito se fala sobre a hiperexposição dos indivíduos nas redes sociais e suas consequências em relação ao comportamento humano. As análises, em sua maioria, se concentram em trazer o olhar sobre a exposição narcisista e fútil, casos de depressão resultantes da percepção de que sua vida é menos interessante que a vida do outro e assim por diante.

Vamos aqui avaliar outro comportamento: como as pessoas se vendem como produtos nas redes e o consequente fenômeno de desinteresse pelo outro na vida real a partir do contato na rede social.

Quem já não passou pela situação de extrema felicidade ao reencontrar aquele ou aquela colega da época do colégio de quem não tinha noticias desde a formatura? A partir deste momento, trava-se um diálogo in box e ficamos sabemos sobre a profissão, família, perdas e conquistas do amigo recuperado após anos de separação. A conversa invariavelmente termina com aquela frase: “vamos marcar um almoço para colocar o papo em dia!”.

Nos dias que se seguem, sua timeline é invadida por fotos e posts do tal amigo ou amiga. Almoço com o pessoal do trabalho, final de semana com a família no sítio, o primeiro dia de aula do filho mais novo, a medalha de judô do filho mais velho, cineminha e jantarzinho com o marido, férias chegando, férias terminando, comentários sobre sua posição política, compartilhamento de apoio às ciclovias, resultado da última maratona, o cãozinho que chegou do pet com um lindo laçarote, e por aí vai.

Então você pensa: sobre o que vamos falar no tal almoço pra colocar o papo em dia? Já sei tudo sobre a vida da fulana. Não preciso do contato pessoal, pois já conheço tudo sobre a sua rotina e sua vida. O que mais além do que está na rede ela poderia me contar?

O reencontro, que foi extremamente prazeroso, foi realizado por meios técnicos e, portanto, se configura em uma comunicação secundária. Christoph Turcke, em seu livro Sociedade Excitada, conclui que a comunicação presencial não necessariamente é melhor que a virtual; porém, a comunicação mediada deve se alimentar da comunicação imediata e ser a referência primária na relação. Primeiro ponto: a grande exposição na rede pode minar a referência primária de um relacionamento.

Ao longo de uma semana acompanhando a atividade das pessoas nas redes, é possível compreender o posicionamento e a imagem que o indivíduo quer mostrar para a sociedade. Bauman definiu os indivíduos como “promotores das mercadorias e as mercadorias que promovem” estabelecendo uma relação mercadológica do ser como produto e como agente de seu próprio marketing.

Apoiando- se neste conceito criado por Bauman, podemos concluir que a exposição exagerada nas redes quebra duas regras de ouro do marketing: evitar exposição desnecessária da marca e jamais cair na tentação de overpromise (prometer além daquilo que você pode entregar).

Recentemente uma nova rede social, a ELLO, foi lançada no mercado divulgando um manifesto em que se coloca como uma ferramenta para “conectar, criar e celebrar a vida” garantindo que seus dados, suas preferências e seu perfil não serão usados por anunciantes. Seu manifesto termina dizendo: “Você não é um produto”.

Rede social Ello

Rede social Ello

Mas será que as pessoas não querem ser produtos? Estou curiosa para ver como será o futuro desta rede.

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