II. Pós-digital: por quê?

Por Lucia Santaella

"Post-Digital Research" at Transmediale 2014

“Post-Digital Research” at Transmediale 2014

Com o algarismo II, este post sinaliza a continuação de um post publicado no dia 05 de junho de 2014. Lá, tratei de introduzir a pergunta e de redigir um breve ensaio com respostas sobre este assunto que me parece bastante relevante. No contexto internacional, termos como “pós-digital” e “pós-mídia” tornaram-se correntes. Quando isso acontece, temos de perseguir o rastro de seus sentidos. No post anterior, apresentei uma síntese da proposta que, sob o nome de pós-digital, foi desenvolvida no temário do influente evento internacional Transmediale-2014, de Berlin. A questão não se esgotou aí. Em associação com o Centro de Pesquisa em Estética Digital da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, o Transmediale publicou uma revista com participações complementares ao tema do evento, portanto, inteiramente dedicadas à questão do “pós-digital”.

À maneira de depoimentos, os artigos publicados primam tanto pela diversidade de pontos de vista, quanto pela convergência dessa diversidade na consideração do pós-digital como uma leitura fundamentalmente crítica do digital como este se traduz em sua fase atual. Esta apresentação não visa unificar os diferenciados pontos de vista, mas sim configurar o caleidoscópio de suas facetas por meio da seleção de segmentos de afirmações e interpretações dos autores capazes de desenhar esse caleidoscópio.

Para Florian Kramer, o pós-digital apresenta duas temporalidades. Antes tomado como uma reflexão crítica sobre o imaterialismo da estética digital, hoje descreve a caótica (messy) condição da arte e mídia depois das revoluções da tecnologia digital. “O pós-digital não reconhece a distinção entre mídia velha e nova mídia, nem a afirmação ideológica da superioridade de uma sobre a outra. O pós-digital mistura uma e outra, sempre aplicando a experimentação cultural das redes às tecnologias analógicas que ele re-investiga e re-usa”. Assim, o pós-digital passa a se referir a um estado de coisas em que mudanças a partir da tecnologia de informação digital já se tornaram lugares comuns. Não é mais visto como revolucionário, opondo-se efetivamente ao termo “novas mídias” em suas versões a-críticas.

Nesse contexto, artistas pós-digitais utilizam suas mídias para suas próprias estéticas materiais, sejam elas analógicas ou digitais. Kramer chega a afirmar que não há algo que pode ser chamado de mídia digital, apenas existindo informação digital ou digitalizada. Em suma, em um mundo regido por big data e pela ideologia da inovação, o pós-digital pode ser pensado como a crítica do capitalismo semântico.

Segundo Lotte Philipsen, o pós-digital pavimenta o caminho para se considerar os potenciais estéticos da arte sem automaticamente submeter a experiência estética à tecnologia. Enquanto isso, Christian Ulrik Andersen, recorrendo às teses da filosofia da história de Walter Benjamin, defende a revivescência da memória material dos cassetes na medida em que essa memória vai além da simples compreensão de um determinismo tecnológico. Trata-se de uma memória que não é mera revelação de um desenvolvimento que parte dos cassetes até o i-tunes, mas aponta para uma miríade de práticas que ainda carregam potenciais. Assim, como queria Benjamin, os cassetes podem ser vistos como algo que lampeja em um momento de perigo. De que perigo se trata? De se alimentar discursos tecno-culturais que levam à crença de que a tecnologia representa uma história que conduz a uma eficiência crescente, e que as condições das tecnologias digitais presentes podem maximizar a liberdade individual e a produção social. Esses mitos são desafiados pelas memórias dos cassetes, na medida em que estas exploram o discurso do passado no presente, como uma crítica potencial. O retorno às mídias antigas não é essencialista, mas expressa como nossas tecnologias materiais são também signos e como o cruzamento de materialidades e signos, nas tecnologias digitais, conduzem a formas de controle.

De acordo com Josephine Bosma, o pós-digital serve para colocar em relevo que o digital não se reduz a telas, mas inclui o uso escultural de redes e hardware, a arte do software e do código, as práticas do novo conceptualismo, estas que vão da arte ativista aos objetos que se apresentam sob a rubrica da pós-internet. Inclui ainda a impermeabilidade visual, a dispersão espacial e a mistura perfeita das dimensões conceituais e midiáticas presentes em muitos trabalhos e práticas. Em síntese, quando se considera um campo digital expandido, emerge uma nova visão da arte que envolve estruturas, sistemas ou processos que são muito vastos, muitos dispersivos ou muito pequenos para que possam ser vistos a olho nu.

Para Jonas Fritsch e Bodil Marie Stavning Thomsen, quando se pretende analisar o que afeta e é afetado pela fabricação urbana, ou seja, nossa habilidade de agir e ser agido na cidade, é preciso levar em conta o que Brian Massumi chama de micropercepções ligadas às implicações macropolíticas. Winnie Soon, por seu lado, pergunta como, na era pós-digital, quando live data estão constantemente sendo gerados, consumidos, manipulados e circulados através das redes, podemos ainda entender a noção de vida?

A pergunta de James Charlton, por sua vez, dirige-se para o sentido em si do pós-digital. Pode-se reconhecê-lo não simplesmente como um pensamento sobre o que veio depois do digital, mas sim como um re-pensamento sobre a materialidade em sintonia com o revisionismo que ocorreu por ocasião das práticas artísticas ultraconceituais e desmaterializadas dos anos 1950 e 60. Quer dizer, não se trata de pensar o desaparecimento da materialidade. Ao contrário, repensar a materialidade em termos conceituais significa afirmar a significância do método em vez de um estado de materialidade.

Robert Jackson afirma que o pós-digital refere-se à condição atual na qual o digital gera mais problemas do que pode resolver. Já, para Geoff Cox, o pós-digital descreve as mídias digitais que não mais buscam a inovação tecnológica ou o aperfeiçoamento, considerando o digital como algo que aconteceu e é reconfigurável. Na condição pós-digital, termos como novas e velhas mídias não fazem sentido, aplicando-se apenas a tecnologias com mais ou menos estabilidade ou desestabilidade. Magnus Laurie, por sua vez, ao chamar o pós-digital de era do pós-sentimento pós-digital, lembra que o fetichismo da personalidade promete certeza em um momento de profunda incerteza, o que nos coloca em um tempo no qual o desaparecimento poderia ser mais desejável do que a presença. Jamie Allen e David Gauthier consideram o pós-digital não só como histórico/temporal, mas também atencional, revelador da profundidade, estrato e verticalidade, portanto, não apenas relativo a trajetórias horizontais. Nessa medida, o pós-digital não se refere a transformações midiáticas como um meio para implementar ou re-implementar arquétipos artísticos e estéticos. O que é deixado atrás ou para depois do digital, não revelado e recuado da visão é o que realmente tem importância e significância: uma verdadeira arqueologia midiática do presente. Pregando a necessidade de uma infraestrutura crítica, os autores a concebem como uma zona de indeterminação sensível tanto da arte quanto da técnica, uma neutralização das funções e sinceras demandas de cada uma, práticas misturadas de arte e não arte, do tecnológico e não tecnológico, compondo um novo milieu sensório.

Em suma, o debate está aí posto para que cada um tome sua posição teórica e/ou prática e/ou criativa diante dele.

Peer-reviewed Newpaper, Volume 3, Issue 1, 2014. Aarhus University/reSource transmedial culture, Berlin/Transmediale.

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