Você já leu um fanfic?

Por Eduardo d’Ávila

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Para muitos, a história da humanidade se inicia com o surgimento da forma escrita da linguagem verbal. Somente possível com tecnologia adequada para a realização dos registros — a cunha e a argila, bem como as primeiras articulações alfabéticas que geraram a escrita cuneiforme —, a escrita passa não só a registrar a história humana, mas, também, a influenciá-la por meio de sua proximidade com a política, direito, artes e tantas outras importantes áreas do conhecimento. Com o passar dos séculos, não somente se diversificaram as tecnologias industriais, mas também as tecnologias da linguagem. As tecnologias da linguagem, por sua vez, são geralmente centradas no valor cultural da escrita. Os modos variados de escrita variam e evoluem em relação direta com as tecnologias que os tornam possíveis.

A diferença entre os letramentos está nas práticas de escrita e leitura específicas e um dos mais recentes tipos de letramento é o digital. Com o uso do computador e seus diversos recursos de mediação da comunicação, é evidente — nesse tipo de letramento — a articulação entre escrita e ambientes virtuais. É a partir desse letramento que surge uma cultura eletrônica, com uma nova economia da escrita (Marcuschi, 2004). A Internet é um espaço sociodiscursivo que amplia as possibilidades de interação e incita o surgimento de vários gêneros — e isso quer dizer que, quando as tecnologias e dinâmicas se transformam, novos gêneros e misturas deles começam a surgir. É em meio a essa fartura de gêneros e estilos literários na rede que surgiram o e-mail, o chat, os fóruns de discussão, MUDs (do inglês Multi-User Dungeon, Dimension ou Domain), já tão comuns no nosso cotidiano. Agora é a vez dos Fanfics.

O nome fanfic vem da junção das palavras inglesas fan e fiction e se refere justamente à produção literária por parte de fãs que produzem suas próprias narrativas usando elementos de uma narrativa ficcional popular pré-existente. A produção de fanfics e a circulação desse tipo de conteúdo são elementos em direta conexão com a nova arquitetura de produção de conteúdo que bem desenhou Anderson (2006), como no esquema abaixo:

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O gráfico de Anderson explica como a produção de conteúdo de mídia (livro, televisão, cinema, quadrinhos etc.), outrora unilateral — produzida por produtores oficiais e consumidos pela massa — agora se configura com novos players. Anderson faz ainda uma distinção entre duas classificações de consumidores de acordo com o nível/intensidade de entusiasmo em relação a certo conteúdo: entusiastas são os que consomem o conteúdo original, os remixes e produzem também seu próprio conteúdo. Já o novato ou fã casual é aquele que se assemelha ao tradicional modelo de consumo de mídias de massa, apenas imerso no material “oficial” oferecido pelo produtor.

Jenkins (2006) afirma que os jovens já fazem parte desse processo de participação quando adotam novas formas de filiação (criando ou operando associações, comunidades online ou fóruns), de expressão (como os fanfics, vídeos, mash-ups e remixes em geral) e colaboração para resolução de problemas (como são os projetos de financiamento coletivo que usam a internet como plataforma). A quarta forma de interferir no fluxo da mídia e na arquitetura de produção é na circulação, por meio de podcasts, blogs, vlogs e afins. As quatro formas de interação citadas retratam bem o cenário contemporâneo da cultura participativa.

Ora, mas os fanfics existem já há um tempo, inclusive a cultura de fã também é antiga, tendo atingido, segundo Jenkins (2006) certo destaque nos Estados Unidos com os fãs de Star Trek e Star Wars; e, no Brasil, com inúmeros produtos de ficção que geram comoção e uma cultura underground de produção por parte de entusiastas. A diferença é que, agora, os meios de produção estão em processo de democratização e a organização e circulação do material produzido se dá em rede. Jenkins (2006) é um dos primeiros a afirmar, inclusive, que os fãs terão um papel central em como operará a cultura na era da convergência das mídias.

São tantos os cenários a serem analisados nessa nova arquitetura de participação dos fãs na produção de conteúdo… É possível analisar a polifonia das vozes envolvidas nessa cadeia, com as teorias de Bakhtin, a organização do capital social nas redes sociais próprias para fanfic por meio dos postulados de Bourdieu, a própria construção do self na rede com o “empréstimo” de um universo ficcional outrem, a ressignificação da fama ou a própria ressignificação do conceito de obra aberta de Umberto Eco. São tantas as possibilidades acadêmicas que deixo aqui apenas uma apresentação do universo dos fanfics e recomendo, então, três comunidades para observação:

http://fanfiction.com.br/ (Nacional)

http://www.fanficobsession.com.br/ (Nacional)

https://www.fanfiction.net/ (Internacional)

Referências:

ANDERSON, Cris. A Cauda Longa: do mercado de massa para o mercado de nicho. Trad. Afonso Celso da Cunha Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.

JENKINS, Henry (2006). Fans, Bloggers and Gamers: Exploring Participatory Culture. New York: New York University Press, 279 p.

MARCUSCHI, L. A. Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção do sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.

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