Conte um segredo: o desabafo público e coletivo

Por Anyzaura Vieira Voltolini

Não é prioridade guardar segredos nas redes sociais. Pelo contrário: os sites de redes sociais digitais cresceram promovendo a publicização e coletivização das vidas particulares de seus usuários. Se pararmos pra analisar a maioria das plataformas digitais que focam os laços sociais, o anônimo e desconhecido se tornam acessíveis e públicos, capazes de construir a imagem preferida e até atingir outros usuários por meio da moral conquistada nas quantidades de “curtir” e seguidores.

Como vimos no último post, os personagens criados nascem em meio à multiplicidade identitária decorrente da ambiguidade interacional. Os usuários se deparam com uma diversidade relacional.

Pode-se, então, cultivar uma possível manutenção dos laços sociais. Por exemplo: as ferramentas que o Facebook oferece, são usadas, primordialmente, para o crescimento desses laços.

Para Raquel Recuero, em Redes Sociais na Internet, os sites de redes sociais priorizam sua publicização a partir da obrigação de criação de perfis — ou seja, obrigam seus usuários a criar identificações para participarem das representações oferecidas. Daí começam a surgir as identidades.

O app mais comentado no decorrer das últimas semanas é o Secret: lá, não é preciso ter o perfil publicado e ser identificado. Mas, mesmo com esse ambiente tão “liberal”, seus usuários sentiram a necessidade de identificação. Engraçado, não? A ideia de uma plataforma onde o desabafo predomina e aquelas palavras consideradas agressivas ou vergonhosas podem ser ditas não foi muito bem-sucedida. Afinal, os próprios interagentes começaram a contrapor tal ideia com a publicação de imagens assinadas com as iniciais. Tudo para conseguirem mais seguidores e likes.

No Secret, você precisa se registrar — mas seu perfil não estará vinculado à sua imagem no Facebook ou a um e-mail cadastrado. Seu segredo pode ser comentado por um desconhecido e compartilhado, também. Pode-se remover o segredo se não for agradável e, ainda, é permitido assinar os segredos desse usuário, a fim de acompanhar qualquer que sejam as atualizações.

“Quando um segredo viaja para além dos dois graus de separação (amigos de amigos de 

Sociotramas25agosto14

amigos), aparece o local de onde ele foi postado. Essa contextualização, apesar de básica, dá um senso de realidade ao meu mundo no Secret de tal jeito que minha cabeça já começa a especular como é que eu fui conectada com aquela mensagem.”

O aplicativo pede seu número de telefone para localizar os segredos mais próximos; com isso, talvez haja possibilidade de descobrir algum usuário e, consequentemente, seu segredo. Algumas imagens divulgadas no Secret podem dizer muito sobre o usuário, já que algumas mostram bichos de estimação ou o ambiente que frequenta.

É interessante analisar os elementos que distinguem o Secret de outras plataformas, mas eles só atraem os usuários para uma forma diferente de publicização.

Também é importante frisar que a conversa entre as redes e os aplicativos proporcionam um jogo de compartilhamento e publicização de postagens maior e mais eficiente, o que provoca o usuário a jogar nesse time da interação móvel (como exemplos, podemos citar os aplicativos Foursquare, Instagram e, agora, Secret).

Os recursos fornecidos nas redes ajudam a publicização da vida dos usuários, compondo um ambiente mais espontâneo, mais envolvente. Neste, somos libertados de problemas frequentemente vividos nas relações sociais face a face. Podemos omitir, por exemplo, a aparência, a falta de mobilidade física e a condição econômica — dentre outras informações que acharmos inadequadas para o contexto do aplicativo.

“Assim, no espaço virtual, pode-se experimentar o que não se é, ou mesmo ser aquilo que não tenho coragem de ser no espaço social convencional, ou territorial” é o que diz Baldanza em Comunicação no Ciberespaço. Porém, é interessante notar que são nas emoções que realmente nos expomos. Assim ocorre, por exemplo, no Facebook, quando respondemos a uma marcação em alguma imagem; comentamos a fotografia de um amigo; quando manifestamos alguma situação vivida e fazemos declarações num post. Situações diversas, registradas nas redes, que expõem os sentimentos, afetos e emoções — fatos que escancaram nossa personalidade e quem somos.

Constrói-se uma imagem: a imagem de quem queremos ser. E o Secret vem para romper essa criação — ou, simplesmente, para agregar uma nova forma de construir essa imagem. Podemos ser quem quisermos.

Mas uma notícia desta semana acabou por expor alguns problemas do Secret. Nesta quinta (21/08), a app store removeu o Secret para iPhones. A denúncia contra o app foi somente no Brasil e aApple resolveu retirá-lo sem justificativa. Segundo Sarah Jane, porta voz do Secret, houve casos de imagens indevidas publicadas por usuários brasileiros. Também foi proibida a publicação de fotos pessoais do aparelho celular e assinatura.

Além disso, o anonimato prometido pelo aplicativo já foi diluído por hackers, e a promessa de segredo do perfil já foi burlada. Afinal de contas, esse é o único segredo proposto pelo app, já que o próprio segredo já está sendo contado.

Portanto, o Secret veio confirmar a necessidade da publicização dos personagens que circulam nas conexões infinitas da rede. Mas, pensando bem, se é falado no Secret, pode ser falado em qualquer outra plataforma, já que os “segredos” são ditos com o objetivo de obter mais popularidade. O gostinho de “fazer algo errado” é o único fator singular do aplicativo, pois quando descobrir o usuário mais perto de você compartilhando um “segredo”, a curiosidade irá, certamente, aguçar a vontade de interagir face a face. E o segredo… Ah, segredo para quê? Estamos numa rede de compartilhamento. Estamos na internet.

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