Além da vida: sobre a morte em ambientes digitais

Por Magaly Prado — colaboraram Marcelo Salgado, Eduardo Faria e Maria Collier

É bem provável que você tenha lido a história (viralizada) sobre o adolescente que continua jogando videogame com o pai depois de morto. Até porque, se você lê os posts deste blog, gosta deste tipo de assunto, certo? Mas, espera: vamos voltar no tempo. Antes, restavam os álbuns de fotografia de família; depois, alguns vídeos caseiros. Os diários não podiam ser lidos, havíamos de respeitar o que escreveu quem partiu; já os livros dos escritores — uma lembrança e tanto.

Na era digital, o que a pessoa que morreu deixa em seu computador e em todos os dispositivos móveis fica lá. Na internet, por exemplo, tudo o que se escreve permanece: é como escrever na pedra. Já nas redes sociais ocorre algo estranho. Muitos dos familiares não sabem como fechar o perfil, não possuem senhas, ou mesmo nem sabem em quais redes a pessoa estava. Para alguns, isso se torna um problema. Em outros casos, a família deixa o perfil aberto como uma espécie de memória digital.

No Facebook, por exemplo, quando outras pessoas marcam alguém que morreu, entra automaticamente na página da pessoa, se ela deixou essa possibilidade aberta. Quem nunca entrou em um perfil e descobriu, entre os amigos em comum, algum amigo que já se foi… São essas as duas possibilidades deles voltarem à tona. Há quem delete o perfil do amigo que morreu exatamente para fugir dessas lembranças.

Diferente de perfis que foram criados, principalmente no Twitter, após a morte delas, em geral, antes de 2004. Muitos são de pessoas importantes (poetas, escritores, pensadores, artistas), e um público considerável segue os mortos. Quem “alimenta” essas contas? Provavelmente, admiradores. Além de perfis que ficam muitas vezes no limbo, porque familiares não sabem retirá-los, e os perfis criados especialmente como homenagem às pessoas queridas, nos deparamos a cada dia com revelações que só a tecnologia atual nos traz.

A leitura da matéria “Adolescente disputa partidas de videogame com pai morto há dez anos – Garoto descobre que recorde do pai, transformado em competidor ‘fantasma’ em jogo de corrida, está gravado em Xbox antigo”, da editoria Sociedade/Tecnologia, de O Globo (não assinada), de 30 de julho de 2014, suscitou em mim a vontade de me expressar a respeito e enviei o link ao grupo de discussão Sociotramas (que mantém este blog) ressaltando a linda história. Acabei por incitar em alguns dos meus colegas do grupo, que possuem os mesmos interesses, sinapses em relação a aspectos da morte tratados nos dias de hoje. A partir daí, recordaram de outras situações nas redes sociais, nos videogames, nos aplicativos, nas séries de TV, que retratam as tecnologias digitais etc., e se esta semana não fosse a minha vez de publicar o post, as relembranças não teriam parado por aqui. Comecemos com o primeiro exemplo: a matéria que deu o start nas nossas cabeças.

“Frustração ou satisfação definitivamente não são as únicas emoções que um jogador de videogame pode sentir ao se lançar numa partida de seu jogo favorito”, eis a abertura da matéria.

O adolescente 00WARTHERAPY00 compartilhou no YouTube sua história emocionante. Digo mais: comovente, impressionante e tocante, já que nos tocou a ponto de levantarmos alguns exemplos além deste. Mas, vamos à história (com informações da matéria).

Um vídeo que questiona se games podem proporcionar uma experiência espiritual (Can Video Games Be A Spiritual Experience?), cuja apresentação diz: “Alguma vez você já teve uma experiência durante os jogos, que era tão transcendente, tão poderosa, que quase poderia ser descrita como espiritual?” E afirma: “O sentimento de conexão cósmica pode atingir qualquer pessoa”, fez com que um rapaz — hoje com 16 anos, já que aos seis, perdeu seu pai — contasse sua história dois meses atrás, por meio da caixa de comentários. O jovem jogou “RalliSport Challenge” (game de corrida de carros) durante dois anos com seu pai, em um Xbox. Com a morte dele, o menino parou de brincar com o console, o que é compreensível. Por uma década, não tocou no brinquedo, com medo das lembranças que poderiam surgir. Até que, recentemente, ele decidiu testar o jogo novamente.

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“Quando comecei a jogar, encontrei um fantasma!”, relatou o adolescente.

Conforme matéria de O Globo, “ele explicou então que, quando um competidor bate o recorde de volta mais rápida na pista, ele fica registrado como um corredor fantasma”. E adivinhem quem era o fantasma-corredor mais veloz? O pai dele, claro. Depois de dez anos com o jogo deixado de lado, ele estava lá, o “fantasma, soberano, dono da volta mais rápida do circuito.” Provavelmente, nesta versão do jogo.

“Então eu joguei, joguei e joguei, até ser quase bom, o suficiente para ser melhor do que o fantasma. Até que um dia eu o ultrapassei e… Parei em frente à linha de chegada para garantir que o fantasma não seria deletado”, conta o rapaz, que, ao posterizar seu parceiro de corridas e por conta dessa atitude — uma das mais encantadoras e inesperadas de sua história — até hoje pode disputar corridas virtuais com seu pai. Quer dizer, sabemos que é com a máquina, mas que traz a lembrança de seu pai, o que por si só, é linda!

Luto digital

Mas o luto digital também pode tomar outra forma muito interessante, que mistura o cemitério clássico — de lápides e túmulos — à tecnologia de realidade aumentada, também chamada QR (quick response ou resposta veloz), derivada dos códigos de barras.

O cemitério da Pensilvânia, por exemplo, permite que uma visitante equipada com um celular ou smartphone faça a leitura do código QR em uma lápide e acesse a história da vida do falecido, ouça sua música favorita e veja algumas fotos suas.

Esta relação tão íntima e multimidiática com alguém que já partiu só poderia ser mesmo possível com tal (relativa) facilidade por meio das tecnologias digitais. A partir do que escreve Lucia Santaella em “Comunicação Ubíqua” e Bruno Latour em seu “Reassembling the Social: An Introduction to Actor-Network Theory”, poderíamos dizer que a lápide do cemitério da Pensilvânia não é mais um simples objeto passivo — a visão tradicionalista, reducionista e muito mais limitada; tal lápide seria um objeto “inteligente”, “social” e integrante da internet das coisas. Tal lápide representaria a comunicação ubíqua, de fato: pervasiva (penetrante, difusa) e móvel ao mesmo tempo.

Ressurreição digital

O fantasma corporizado pela tecnologia é mais antigo do que pensamos: vai desde as pinturas, cartas, além de fotografias dos falecidos e vídeos caseiros — que já citamos — e gravações sonoras dos tempos mais recentes. Tudo isso é parte do processo de luto: entre negação, raiva, negociação, depressão e aceitação há sempre a memória física daquele ente querido que partiu, uma evidência de sua existência.

Começamos a nos perguntar se a densidade da memória e do rastro digital da existência de um indivíduo não atrapalharia o processo de luto daqueles que ficam.

Recentemente, muitos assuntos da era digital formaram os conflitos dos episódios da série britânica “Black Mirror”. Ao tratar sempre de um futuro próximo e tecnologicamente possível, a série faz com que a cada episódio enfrentemos o desconhecido abismo para onde a tecnologia nos empurra. Por vezes a perspectiva futura é otimista e encorajadora; e às vezes, como no caso do episódio “Be Right Back” (primeiro da segunda temporada), é assustador.

MorteDigitais_Sociotramas

O episódio é sobre uma viúva das redes sociais. Martha e Ash formam um casal jovem e feliz e se mudam para uma casa no interior com ares de fazenda. Apesar de se darem relativamente bem, Ash parece dedicar tanta atenção à tarefa de alimentar seus perfis em redes sociais quanto à tarefa de ser bom cônjuge. Sim, ele é retratado como um viciado em redes sociais, mas, aparentemente, não parece diferente de qualquer um de nós.

A história começa quando Ash morre em um acidente de carro. Durante o velório do marido, Martha descobre que há um aplicativo que permite que se “converse” com os mortos. Na verdade, não se trata de uma mesa redonda espírita digital, mas um serviço que reúne todo e qualquer rastro digital do falecido — incluindo fotos, gravações de voz e interações de texto deixado nas redes sociais — e cria um algoritmo da personalidade da pessoa que responde às perguntas com o gosto e memórias do falecido.

Se o novo ser digital que emerge das memórias do falecido é um simulacro ou uma extensão da pessoa que ganha, portanto, uma vida exclusivamente digital e aparentemente imortal, é uma questão para outro post. O fato é que Martha descobre que está grávida e então toma uma medida desesperada: contrata a tecnologia que permite falar com o Ash digital ao telefone. Isso é o suficiente para que Martha ofereça ainda mais inputs sobre a vida do Ash humano, todas absorvidas pela inteligência digital. A decisão seguinte de Martha pode ser considerada a mais grotesca, mas é facilmente compreendida por qualquer pessoa que já se viu estacionada no estágio de negação do luto: ela coloca o Ash digital em um corpo robótico androide feito à imagem de seu falecido marido.

Daí em diante a angústia e suspense são gentilmente terríveis e acometem o coração do espectador com a típica estranheza de qualquer ser humano desafiando a natureza. A ressurreição digital de Ash sugere, antes de mais nada, que a autorrepresentação de cada um de nós em nossos perfis nas redes sociais é falsa, não sagrada, e por mais que nos represente em detalhes cotidianos, nunca irá traduzir digitalmente a nossa alma.

Martha vive em um ficcional futuro que é próximo do nosso, mas conversar diariamente com um algoritmo que responde como seu marido e fazer dele um robô que vive em sua casa é — porém em menor proporção — como desacelerar o carro na linha de chegada para que a versão digital do seu pai em uma corrida de carros em um jogo não seja deletado. Até que ponto a memória digital começará a nos atrapalhar em relação à difícil tarefa de chegar ao estágio final do luto — a aceitação?

Morte e vida nas redes sociais

De acordo com outra matéria publicada no jornal O Globo em julho de 2014, o luto digital e/ou virtual mostrou sua força também após a queda do avião da Malaysia Air Lines no leste na Ucrânia. Tal acidente matou cerca de 300 pessoas e gerou diversos posts de despedida nas redes sociais, escritos pelos parentes e amigos das vítimas. A mesma reportagem também relatou casos de mães brasileiras que perderam seus filhos, mas mantiveram seus perfis on-line visando a preservar a memória deles, para que amigos e familiares pudessem deixar mensagens de condolências e solidariedade.

Ao final, esta matéria ressaltou ainda que o tema do luto digital e/ou virtual já tem sido estudado no ambiente acadêmico e citou, como exemplo, o e-book digital organizado pelos professores Cristiano Maciel e Vinicius Pereira, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Esta publicação, intitulada “Digital Legacy and Interaction: Post-Mortem Issues” (Legado digital e interação: Questões pós-morte), foi publicada em 2013 e reuniu artigos de pesquisadores de diversos países, os quais têm estudado questões técnicas, legais e culturais relacionadas à morte no contexto dos ambientes digitais.

Aqueles que se interessarem por pesquisar este tema podem acessar mais dois artigos acadêmicos, já publicados no Brasil. São eles: “Luto virtual: o processo de elaboração do luto no ciberespaço”(GURGEL et al., 2011) e “Memorial Facebook. Meu epitáfio é minha página. As representações da morte no ciberespaço” (MUELLER, 2014). No primeiro deles, Gurgel et al. (2011) analisam as manifestações do luto no ciberespaço, tais como as interações entre os internautas e os significados de suas falas no contexto da elaboração dos processos de luto. Já no segundo, Mueller (2014) estuda os modos como a presença dos corpos virtuais dos falecidos alteram as manifestações de luto e as representações da morte, ao atuarem especialmente nas redes sociais.

Participe com sua história

Encabecei tamanha agitação que resolvi estender o convite a vocês leitores: participe desta inspiração e poste nos comentários outros exemplos de ocorrências semelhantes, digamos, macabras. Podemos, de forma coletiva, incluir os comentários e formar uma narrativa a várias mãos e repostar com parceria de todos vocês. Topam?

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