Terror nas redes: propaganda e premediação

Por Marcelo de Mattos Salgado

Reprodução e montagem a partir do canal do YouTube AllEyesOnSyria

EDITADO EM 26/8/2014: o canal mencionado neste texto foi fechado, o que significa que muitos dos links que o mencionam aqui não têm mais o destino original. Não se sabe se alguém denunciou excessos do “AllEyesOnSyria” e o YouTube baniu o canal, mas os registros em texto e reflexões aqui feitas continuam válidos — mais ainda depois da decapitação do jornalista James Foley por terroristas islâmicos (que também divulgaram o vídeo no YouTube) e o crescimento do Estado Islâmico (antigo ISIS ou ISIL). Muitos outros canais similares ainda existem e provavelmente continuarão a surgir no YouTube, como o EyesOnSyria. Tais são as naturezas do terrorismo e da tecnologia digital: ágeis, fluídicas e incontroláveis.

“Notícias diárias sobre as guerras nos estados árabes. Nós não somos um canal feito para chocar e não queremos entretê-los. Nós documentamos as guerras nos países árabes (Síria, Iraque, Palestina e Egito). (…) Seguimos as regras do YouTube e somos forçados a editar e borrar imagens quando o vídeo é violento. Nossos espectadores são maiores de 18 anos (…)”

Isto é parte da mensagem (traduzida de um inglês com falhas e editada por mim) que o canal do YouTube AllEyesOnSyria (“Todos os olhos na Síria”) traz em seus vídeos. Aviso que o canal é entupido de vídeos sobre as referidas guerras — alguns deles, muito violentos. Isso mesmo: temos assassinatos e destruição reais registrados (e até festejados) no YouTube.

O objetivo aqui não é julgar o que é certo ou errado, mas marcar o uso comunicacional das tecnologias digitais para causas de guerra e/ou terroristas como um fenômeno em crescimento — com cada vez mais exemplos — e provocar reflexões. Bom ressaltar: terrorismo é um assunto que, bem mais do que outros, tem uma camada densa de ideologia e política, e opiniões diferentes sempre surgem a respeito. Com base no referido canal do YouTube, vamos conhecer alguns casos.

Desde a mensagem no canto superior esquerdo da página inicial (“Todos unidos por uma Palestina livre”) até uma boa olhada nos vídeos enviados pelo AllEyesOnSyria nos últimos meses é possível perceber um padrão: exaltar os guerrilheiros palestinos e mostrar barbaridades cometidas por Israel. Em outras palavras, o canal aparenta ter por agenda elevar a causa palestina e islâmica e apontar os judeus (israelenses, em particular) como vilões. Não por acaso, a expressão “marketing geopolítico” já foi usada por alguns pensadores à direita do espectro político (mais conservadores) para criticar os palestinos, em relação a fenômenos similares nesta guerra; enquanto à esquerda, autores como o socialista Noam Chomsky atacam os E.U.A. e seu aliado Israel consistentemente. O posicionamento recente do governo brasileiro (há 12 anos com o PT, partido associado tipicamente à esquerda) contra Israel reforça tais alinhamentos políticos.

De volta ao canal do YouTube especificamente visto aqui, é razoável propor que — para além de poucos vídeos neutros — ele faz propaganda da causa palestina, o que não é, por si, algo necessariamente bom ou ruim. No AllEyesOnSyria há vídeos que mostram mães e crianças palestinas chorando porque perderam parentes para mísseis israelenses e títulos que não disfarçam o apelo emocional, como “De partir o coração”. Ao mesmo tempo, o canal traz o registro de um casamento judeu interrompido por mísseis do Hamas (grupo islâmico palestino considerado por muitos países como terrorista). Mais um exemplo: o vídeo em que uma soldada israelense está “totalmente com medo” por conta de mísseis lançados pelo Hamas (de acordo com a descrição, ela chora “como uma menina de cinco anos”). Em outro vídeo, o título diz “Atenção: atirador do Hamas mata soldado israelense com tiro direto” (se quiser, veja aqui. Alerta: mesmo com a imagem borrada, pode ser perturbador).

Na África, a Nigéria também conheceu sua versão do “terror nas redes” em maio deste ano. O grupo terrorista islâmico Boko Haram (tradução: “educação ocidental é pecado”) ficou em destaque no noticiário recente após sequestrar 276 meninas no início de maio, na Nigéria — os terroristas haviam queimado vivos 50 meninos no início deste ano, mas tal horror não bastou para provocar a ira digital coletiva. Até o fim desta redação, o Boko Haram ainda estava com mais de 210 meninas (algumas dezenas conseguiram fugir do grupo). Vários setores da sociedade, inclusive a primeira-dama dos E.U.A., Michele Obama, criaram a campanha #BringBackOurGirls, ou “Traga de volta nossas meninas”, que partiu do Twitter — e ecoa o texto de 2012 da colega Maria Collier de Mendonça sobre o “ativismo de sofá”, ou seja, o teleativismo digital, a ação à distância feita com cliques. O que o Boko Haram achou disso? Os terroristas fizeram pouco do ativismo digital — mas, curiosamente, o próprio grupo tem divulgado seus vídeos na Internet.

Em vídeo publicado na Internet, líder do Boko Haram afirma que venderá as meninas que sequestrou - Link:https://www.youtube.com/watch?v=AGAobW5uRK0

Em vídeo publicado na Internet, líder do Boko Haram afirma que venderá as meninas que sequestrou

Esses exemplos também apontam para o paralelo feito por Galloway (págs. 151 e 201) — que há alguns anos acho extremamente provocativo e interessante, mas ainda mais atualmente — entre o protocolo de Internet e a atividade hacker de um lado e o terrorismo do outro. Em poucas palavras: as tecnologias digitais, que desde sua origem artificial são extremamente flexíveis e propensas a criar espaços sociais incertos e heterogêneos (ver Bauman e Santaella, entre muitos outros) seriam a tecnologia terrorista por excelência — e não proponho isso de forma pejorativa, mas para estimular o debate. Outro caso é a revista unicamente digital “Inspire”, editada pela Al-Qaeda (isso mesmo!), que também não existe apenas nos zeros e uns por acaso. Mas, como essa explosiva (cof!) mistura entre terrorismo, guerras, mídias e tecnologias digitais afeta a nossa vida individualmente e em sociedade?

O professor e pesquisador Richard Grusin, que palestrou em 2013 na PUC-SP a convite de nosso grupo de estudos Sociotramas, começou a criar ainda em 2002 o conceito de “pré-mediação”, ou premediação (premediation). No livro publicado em 2010, Grusin apresenta a premediação como um fenômeno a partir do qual o futuro já estaria “pré-mediado”, ou seja, pré-formatado e apresentado pelas mídias antes de chegar ao presente. O autor parte exatamente do atentado terrorista de 11/9, quando as duas torres do World Trade Center foram derrubadas por aviões, e avalia as premediações dali em diante.

“Premediação” sugere, pois, a criação midiática — sobretudo no contexto digital, em que a conectividade é muito mais fácil e vasta — da sensação de inevitabilidade diante de um fato. Por exemplo: a premediação sobre um conflito ou guerra nas mídias ao longo de vários meses (e, em particular, no ambiente digital) criaria a impressão de que resistir à guerra é inútil; que é uma realidade inescapável. Também por isto, o autor faz referência ao filme Minority Report (2002), que sugere a ficção de um sistema “pré-crime”, capaz de prever e punir quem (supostamente) cometerá delitos.

Grusin também foca o aspecto afetivo: como as premediações podem produzir e manter a sensação de expectativa dos cidadãos a níveis baixos, exatamente por administrar constantemente a maneira pela qual o futuro é apresentado. Acrescento a dessensibilização como um ingrediente importante à mistura trazida por Grusin: só é possível administrar expectativas, medos e pré-formatar futuros se você conta com pessoas cada vez menos sensíveis à realidade — leia-se: pessoas que são menos afetadas, mais indiferentes. Violência, conteúdo sexual ou corrupção de políticos… Não importa. A dessensibilização também é evidenciada por índices crescentes de narcisismo, e parece misturar-se à expansão das tecnologias digitais.

Como um dos resultados, temos a assustadora tendência que alguns especialistas chamam de “Jihad Cool”: a propaganda em mídias digitais de grupos terroristas como ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) tem alcançado com eficiência, em particular, homens jovens de países ocidentais que, com frequência, se encantam pela versão “romantizada” e “bacana” da vida dos guerrilheiros que é vendida nas redes digitais: usar armas de fogo, “rebelar-se contra o sistema” e “lutar por um ideal” pode ser extremamente sedutor para muitos jovens — e não faltam casos por toda a História.

É exatamente o que vemos, por exemplo, no canal do YouTube mencionado no início deste texto: violência extrema, desde a destruição de tanques de guerra e estruturas até o registro direto do assassinato de pessoas. E tudo no YouTube, o maior site para divulgação de vídeos — que, a início, pode ser acessado até por uma criança. É a espetacularização digital da violência a um nível jamais visto e a premediação (e mediação) de horrores humanos, inclusive com aplicativo para Android e iPhone que avisa quando um míssil for lançado na Faixa de Gaza. Por consequência, temos também o esgarçamento de referenciais do que é aceitável ou não pelas pessoas — a dessensibilização progressiva da sociedade.

Terror nas redes sociais digitais, propaganda, premediações, dessensibilização… Há um limite para tudo isso?

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3 comentários sobre “Terror nas redes: propaganda e premediação

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