Exercício Hipotético

Por Mariane Cara

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Impossível não parar alguns minutos para se dedicar às suposições de como será a juventude das crianças que hoje estão na faixa dos 3 aos 7 anos. Claro que estas elocubrações tem um certo grau de ficção, devidamente enevoadas pelo zeitgeist atual (e digital), mas ainda que conservemos a limitação da observação enclausurada pelas manifestações do presente, façamos este breve exercício hipotético, tendo como premissa a ubiquidade das câmeras e a estetização das experiências destes pequenos.

Ponto de partida: o ventre. A criança ainda em forma de feto já é percebida essencialmente pela função escópica, antes mesmo da mãe sentir o primeiro chute do pezinho. Lembro agora do comentário de uma colega que dizia ter ficado compulsiva na época de sua primeira gravidez, exigindo do médico que em toda consulta de pré-natal fosse prescrita uma ultrassonografia; assim, poderia tranquilamente observar seu filho e tranquilizar-se, pela visão, que tudo corria bem na gravidez.

As neuroses da visualização estão em todos os lugares. E eis que chega o dia em que essas crianças — remotamente assistidas — saem do ambiente confortável do ventre e vêm fazer parte de nosso teatro da vida em sociedade, onde são submetidas, — antes mesmo de completarem um ou dois meses, às extenuantes sessões de fotografias de estúdio, cuidadosamente produzidas para a eternização imagética do efêmero instante (com direito a sonecas perpassadas pela intensidade do flash). Nos desígnios do aprimoramento estético, a sua majestade, o bebê continua sua trajetória impecável rumo às exteriorizações extremas.

Mal completa um ano e começa a nova prova de fogo narcísica: as tão badaladas megafestas de aniversário — e, para que os pais não façam feio, é preciso planejamento e altas doses de investimento. Não basta a contratação de buffets para que os pequenos tenham uma festa à altura de seu protagonismo familiar, é preciso uma decoração em estilo provençal, devidamente tematizada e customizada, lembrancinhas inumeráveis, sessões de cabeleireiros, maquiadores e mais uma miríade de atrações fabricadas especialmente para os infantes. Quando a folia na piscina de bolinhas ou na cama elástica vira lugar-comum, a solução que as crianças encontram é sacar o celular da bolsa da mãe para brincar de selfie com os amigos. Em épocas de exibição irrestrita, os selfies parecem uma escolha mais acertada do que o antiquado esconde-esconde. No cardápio, nada de beijinhos ou cajuzinhos: a tendência é investir em doces personalizados, cupcakes, pop cakes, macarrons e outras tantas guloseimas de dar inveja aos banquetes de Marie Antoniette na época áurea dos excessos franceses. Apesar das (já) abundantes estilizações, a celebração ainda espera o momento do clímax: o vídeo com uma série de imagens de uma vida sistematicamente documentada. Ao assistirem ao vídeo, boa parte dos pequenos aparecem na tela como personagens da história, fascinados com a experiência de verem suas imagens projetadas, prestando atenção aos detalhes mais fugazes de suas aparições. Momento de júbilo para todos os refletidos.

Saindo das festas e indo para o ambiente familiar, mais especificamente o cotidiano mediado pela TV a cabo, YouTube e alguns games disponíveis em celulares e tablets, notamos com evidência marcante as estilizações infindáveis. Seriados nacionais e estrangeiros apresentam uma estética esfuziante e multicor, com personagens excessivamente maquiados, com poses, estilos e gostos peculiares: de Chiquititas a Carrossel, passando por I Carly, Sam&Cat ou semelhantes. Os desenhos tradicionais reaparecem totalmente repaginados e estrategicamente estilizados para o século XXI: Moranguinho não se empanturra de doces, não passa o tempo cuidando de seu gatinho, nem tem cabelo desgrenhado ou roupas demodé. Agora ela é uma miniempresária, dona de um badalado café, tem cabelo alisado e exemplarmente brilhante, longos cílios, maquiagem impecável, vive pendurada no celular para conversar com as amigas e só consome frutas ou alimentos de baixa caloria. Só lhe falta um Instagram para postar poses de sua barriga negativa. O mesmo com My Little Poney.

Notamos que, antes mesmo de alçarem os voos da leitura e da escrita, as crianças são precocemente estilizadas e inseridas nos estratagemas da coquetterie, amplificando os processos de autoestilização e catalisando as energias libidinais no Eu.

Valeria agora o salto hipotético para 2021 ou 2024: como será a autoestima e, sobretudo, a sociabilidade destas crianças? Gerações criadas sob a perspectiva da identidade excepcional, na qual cada indivíduo é extremamente especial — como o caso dos Ys — já possuem um descompasso entre suas idiossincrasias e a realidade do mercado de trabalho/relações interpessoais. Agora, o que esperar de uma geração como a destas crianças que, além de serem tratadas como “especiais”, são também expostas às tantas estetizações de uma sociedade pautada pelo perfeccionismo decorativo e que se compraz em fitar seu semblante espetacular nas inúmeras bidimensionalizações das imagens digitais?

Definitivamente uma preocupação de mãe que, como todas as demais, está sujeita aos modismos e às vicissitudes de nosso tempo.

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