Projetos Colaborativos de Tradução nas Redes Digitais da Internet

Por Patrícia Fonseca Fanaya

Os investimentos massivos nas tecnologias digitais inteligentes e distribuídas em rede têm feito surgir novas e inusitadas práticas de tradução, que se vêm desenvolvendo de maneira vigorosa e muitas vezes dispensam a figura do tradutor profissional, como os projetos colaborativos de tradução levados adiante por voluntários e aqueles baseados em inteligência artificial.

Inúmeras organizações com foco na produção de conteúdos digitais têm colaborado para que o mundo se torne cada vez menor, por meio do estímulo à participação de tradutores amadores em projetos colaborativos de tradução — que vão da literatura à música, da legendagem à dublagem de filmes autorais e à gravação de eventos entre amigos etc. Os projetos colaborativos incentivam os seguidores ou assinantes de sites ou canais na internet e nas redes sociais a produzir materiais traduzidos em diversas línguas, que visam a oferecer acesso a conteúdos por eles gerados/publicados ao maior número possível de pessoas ao redor do globo, ampliando assim seu poder de comunicação. Portanto, milhões de textos, diálogos, letras de músicas, audiovisuais, entre outros produtos da atividade da tradução, são gerados por dia nas redes digitais da internet, por pessoas comuns, sem que a maioria se dê conta de que se tratam, também, de genuínos produtos da atividade tradutória em circulação.

O TED — projeto sem fins lucrativos, dedicado à difusão de boas ideias — é um excelente exemplo de projeto colaborativo de tradução presente nas redes digitais da internet, como se pode constatar abaixo:

Figura 1 — Print screen obtida em 25/03/2014, às 9h55min.

Figura 1 — Print screen obtida em 25/03/2014, às 9h55min.

Logo abaixo da imagem que ilustra a página de entrada do site se pode ler: “O Open Translation Project é um esforço voluntário mundial para legendar os TED Talks, e permitir que suas ideias inspiradoras cruzem línguas e fronteiras”. A seguir, na abertura da seção History se encontra o seguinte texto: “A ideia de traduzir os TED Talks surgiu por demanda popular. Espectadores apaixonados ao redor do mundo começaram a perguntar se podiam traduzir as conversas a fim de compartilhá-las com amigos e familiares (alguns foram até mesmo enviando-nos traduções prontas!). Reconhecendo a necessidade real — e uma oportunidade de acessibilidade radicalmente aberta — o TED desenvolveu um sistema para permitir que voluntários traduzam suas conversas preferidas em qualquer idioma”. Como se pode perceber, quanto mais voluntários dispostos a traduzir e legendar os Ted Talks do inglês para outras línguas, maior acesso é dado às conversas e maior é o alcance da comunicação da organização.

Outros exemplos vêm das grandes empresas presentes nas redes digitais da internet, como Google e Facebook, que também investem muitos recursos em projetos de inteligência artificial voltados à tradução. O Google investe no aperfeiçoamento do aplicativo Google Translate, e recentemente a empresa adquiriu o aplicativo Word Lens, que permite a tradução de textos impressos para diversas línguas apenas fazendo com que uma câmera (de smartphones, tablets etc.) se volte para o texto a ser traduzido — o que, para os usuários adeptos do Google Glass, significa traduzir textos apenas com um olhar.

O Facebook, por sua vez, com a aquisição da empresa Mobile Technologies, busca aperfeiçoar os recursos de tradução para as tecnologias móveis. Além disso, a empresa disponibiliza, em parceria com o Bing (ferramenta da Microsoft), traduções dos posts dos usuários que estejam em outras línguas, como se pode constatar na imagem a seguir:

Figura 2 — Print screen obtida no dia 25/03/2014, às 16h03min (a autorização para a obtenção dessa imagem pode ser lida na mensagem no canto inferior direito da própria imagem).

Figura 2 — Print screen obtida no dia 25/03/2014, às 16h03min (a autorização para a obtenção dessa imagem pode ser lida na mensagem no canto inferior direito da própria imagem).

Nas próximas imagens, pode-se constatar que o projeto do Facebook também conta com a participação voluntária de membros da rede que se interessem em contribuir para a democratização de acesso ao conteúdo que circula na rede.

Figura 3 — Print screen, em 25/03/2014, às 11h38min.

Figura 3 — Print screen, em 25/03/2014, às 11h38min.

Figura 4 — Print screen, em 25/03/2014, às 11h33min.

Figura 4 — Print screen, em 25/03/2014, às 11h33min.

Na página Inside Facebook se lê: “A missão do Facebook se espalhou muito além de Menlo Park, Califórnia. Mark Zuckerberg, CEO da empresa e seu cofundador, quer conectar o mundo. Não só ele é uma força motriz por trás da Internet.org, o plano para levar o acesso à Internet aos países menos desenvolvidos, mas o Facebook também tem intensificado seus serviços de tradução por meio da aquisição da start-up de tecnologias móveis, fabricantes do aplicativo de tradução Jibbigo”.

Figura 5 — Print screen, em 15/04/ 2014, às 15h04min.

Figura 5 — Print screen, em 15/04/ 2014, às 15h04min.

A página em inglês da Wikipedia também abriga um projeto de tradução colaborativa, que solicita que seus usuários verifiquem os artigos listados, enviados em outras línguas, e atestem se vale ou não a pena que sejam traduzidos. Além disso, os usuários também podem: traduzir verbetes inteiros; traduzir apenas uma seção de um verbete que não esteja traduzida; realizar revisão a fim de organizar, corrigir e melhorar textos já traduzidos, como sugerido na página abaixo:

Figura 6 — Print screen, em 15/04/2014, às 15h41min.

Figura 6 — Print screen, em 15/04/2014, às 15h41min.

O Skype anunciou recentemente que está lançando a versão teste de um software capaz de realizar a tradução de voz instantânea de chamadas entre usuários. A ideia da Microsoft é fazer seu mais popular serviço de mensagens ser capaz de atravessar as barreiras linguísticas que dificultam o diálogo. De acordo com a empresa, o Skype Translator abre inúmeras possibilidades inéditas para os campos da educação, da diplomacia, das famílias multilíngues e dos negócios, pois as barreiras linguísticas representam um bloqueio real à produtividade e às conexões humanas. “É cedo para essa tecnologia, mas a visão de Star Trek para um Tradutor Universal não está a uma galáxia de distância, e seu potencial é tão emocionante como os exemplos de Jornada nas Estrelas”, disse Gurdeep Pall, vice-presidente da Microsoft para o Skype.

De acordo com a Microsoft, a empresa tem trabalhado nessa tecnologia há mais de uma década. A tradução em tempo real é muito difícil de ser realizada porque requer o reconhecimento preciso da fala e a tradução on-the-fly da língua; mas a tecnologia está finalmente tornando-se possível graças à “aprendizagem profunda” (deep learning), que é um campo da ciência da computação que se baseia na simulação, em computador, das redes neurais ou conexões entre os neurônios, que têm a finalidade de imitar, ao menos em alguns aspectos, a forma como o cérebro se comporta. Os modelos de aprendizagem profunda não são nem de perto complexos como os do cérebro, que contém dezenas de bilhões de neurônios, mas a abordagem permite que as máquinas “aprendam” e melhorem seu desempenho a partir da análise de volumes massivos de dados.

Além dessas novas faces da atividade tradutória presentes nas redes digitais, outras ainda mais intrigantes devem surgir nos próximos anos como resposta aos desafios a serem vencidos no panorama da comunicação real time exigida pelas redes digitais.

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