“O homem, o ciborgue, a vertigem”

Por Maria Ribeiro

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“Human After All” de Chase Tafoya. Fonte: This isn’t happiness.

Atrás da vidraça de uma livraria, exemplares enfileirados da mesma obra. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano, organizado e traduzido por Tomaz Tadeu e publicado pela Autêntica Editora LTDA. A 1ª. edição do volume data do ano 2000 e a 2ª., ali exposta, de 2013. O livro reúne quatro ensaios e o epicentro temático é a tradução do terceiro deles, o “Manifesto ciborgue”, escrito por Donna Haraway nos idos da década de 1980 e “um clássico da literatura feminista sobre ciência e tecnologia”, segundo texto constante da orelha. Tadeu é o autor de “Nós, ciborgues: o corpo elétrico e a dissolução do humano”, brevíssimo texto de abertura, ocupado em declamar o conhecido cotejo sobre o destronamento do sujeito, a partir de figuras conhecidas: Marx, Freud, Nietzsche, Heidegger, Foucault, Deleuze, Derrida, Lyotard e Blanchot. O homem exilado do cogito teve que explicar o motivo pelo qual nós declinamos as coisas da vida (ver mercado de trabalho, ver episódios de violência, ver práticas biopolíticas, ver tantos outros exemplos) no masculino. Foi obrigado a refletir sobre a supressão de etnias do discurso predominante, das almas resistentes à evangelização perpetrada por um outro, ao que conclui: “(…) não existe sujeito ou subjetividade fora da história e da linguagem, fora da cultura e das relações de poder”. E diante da implosão de si, coabitando com os próprios destroços, Tadeu pergunta-se o que perguntariam alguns de nós. O que ― de tudo, desde a morte do sujeito ― sobra?

Há no limite entre o corpo do homem e a máquina um abismo que não se aterra. Daí a realidade do ciborgue surgir como ponto de entroncamento entre nossa substância úmida e a solidez de hardwares, como ramificação que recusa a religação das suas raízes por deliberação de certa hierarquia salvadora, por mando de um enunciador. Somos todos, indistintamente, transformados em “seres artificiais”, inconscientes da ontologia que nos determina a natureza. A pós-humanidade, não a temamos, é menos uma batalha que um exercício de conciliação entre criatura (nós/tecnologia) e criador (nós/tecnologia). Uma passagem de Aprender a Rezar na Era Técnica, romance de Gonçalo M. Tavares já citado em outra paragem, soa crucial. A tecnologia, por ora, é substituída pelo coelho; muita embora a troca não resulte na anemia do argumento. Afinal, creio não ser o problema uma picada na mata ou o uso de métodos de identificação por radiofrequência, mas a maneira pela qual passamos a lidar com o outro, esse nós-mesmos. Então, o personagem Lenz veste calças e botas, um colete, uma arma, prepara-se para a caça. “Por seu turno, os elementos ágeis da natureza reivindicavam uma desobediência que não era tolerável. Lenz ia caçar devido a uma certa determinação política. Um coelho era um adversário minúsculo, mas obrigava-o a tomar uma posição em cima da terra, dentro do mapa de combate. Um opositor mesquinho ― um coelho ― obrigava Lenz a uma tensão muscular, a um ligar da astúcia (…)”. O opositor (o caminho aberto a golpes de faca ou a etiqueta RFID), o outro, aquele não sou (?), obriga-me.

Tadeu inclui em sua apresentação a taxionomia proposta por Gray, Mentor e Figueroa-Sarriera. No artigo Constructing the Knowledge of Cibernetic Organisms, constante do The cyborg handbook, os autores classificam as “tecnologias ciborguianas” em: “1. restauradoras: permitem restaurar funções e substituir órgãos e membros perdidos; 2. Normalizadoras: retornam as criaturas a uma indiferente normalidade; 3. reconfiguradoras: criam criaturas pós-humanas que são iguais aos seres humanos e, ao mesmo tempo, diferente deles; 4. melhoradoras: criam criaturas melhoradas, relativamente ao ser humano”. Ilustram as subdivisões 1. aqueles que usam óculos ou próteses em geral e os que tiveram o coração transplantado; 2. os consumidores de psicoterápicos e crianças que, ao agirem como crianças, são amansadas com doses de Ritalina; 3. os superhumanos (superatletas, supermodelos etc.) ; 4. drones agrícolas e braços robóticos com CRM. E cada vez mais perto estamos da fantástica enciclopédia chinesa visitada por Borges; que nos ensina ― e tantas vezes a arte precede a ciência ― sobre os lugares onde assentamos noções estacionárias sobre o mundo. Se assentados no sujeito, a vertigem. Se assentados no discurso (tecnoprofeta ou biocatastrofista, segundo Dominique Lecourt), a vertigem. Se assentados no outro, a vertigem. Nosso distúrbio sensorial, nossa tonteira momentânea, rareia desde o defrontamento. Diante de nós, o condicional de Tadeu já nos preenche o tempo, assim, um tanto. Ele, o condicional, depende de um desaclopamento do cogito, o que equivale a um mundo-possível-centrismo. Deixo o trecho como tarefa. Para que consideremos sua sugestão e anotemos as possibilidades inscritas nele:

“Se existe, entretanto, uma criatura tecno-humana que simula o humano, que em tudo parece humana, que age como um humano, que se comporta como um humano, mas cujas ações e comportamentos não podem ser retroagidos a nenhuma interioridade, a nenhuma racionalidade, a nenhuma essencialidade, em suma, a nenhuma das qualidades que utilizamos para caracterizar o humano, porque feita de fluxos e circuitos, de fios e de silício, e não do macio e fofo tecido de que somos ainda feitos, então é a própria singularidade e exclusividade do humano que se dissolve”.

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