Pós-digital: por quê?

Lucia Santaella

Costumo ter grande apreço e cuidado com o uso dos termos. É o que nos ensinou C. S. Peirce na sua ética da terminologia. De uns tempos para cá, é de tal ordem a proliferação de termos que tenho insistido na necessidade de colocar essa ética em prática.

No campo cada vez mais expandido da cultura digital ou cibercultura, por exemplo, vêm emergindo novos termos cujos significados não são prima facie compreensíveis. Ao contrário, eles aparecem sempre envoltos em uma névoa de ambiguidade, cujo esclarecimento depende de pesquisas cuidadosas dos contextos em que estão sendo empregados e dos textos em que se apresentam. Assim são termos como “pós-virtual”, “pós-digital”, “divisor digital” (digital divide) e “além do digital” (beyond the digital).

O pós-virtual e pós-digital apareceram no contexto da crítica da cultura e da arte digitais, enquanto o digital divide está mais voltado para as questões sobre inclusão e exclusão digital. O além do digital parece estar perto do digital divide, mas abrangendo um espectro maior de problemas relacionados com tudo aquilo que está aquém ou além do digital. Embora o digital pareça tender para o infinito, há realidades que o digital não abriga. Quais são elas, cumpre ser investigado.

Há mais de duas décadas venho pesquisando sobre a trama complexa da cultura midiática. Cumpre lembrar que o primeiro livro publicado no Brasil com o título de Cultura das mídias (1992) é de minha autoria, em um momento em que a palavra “mídias” estava ainda longe de encontrar seu lugar no contexto dos estudos e crítica da cultura no país. Desde então, em todos os meus livros que vieram na continuidade desse, voltados mais especificamente para a cultura digital, em meio a preocupações de várias ordens, tenho elegido o intrincado campo das artes como carro-chefe do meu pensamento.

É em razão disso que, por entre as névoas em que estão envolvidos os termos acima indicados, escolhi introduzir a questão do pós-digital, pois é esta questão que está mais especificamente implicada com o contexto das artes. Aliás, vale lembrar que o grande tema do Transmediale-Berlin, de 2014, foi justamente o pós-digital. Sabe-se que o Transmediale é considerado um dos eventos mais importantes do mundo no campo da cultura e artes digitais, gozando de um prestígio consolidado pela tradição. Por que o grande tema elegido para 2014 foi o pós-digital? Eis o fio que tratarei de deslindar, mesmo que brevemente, no que se segue.

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Trata-se de um evento gigantesco, realizado há muitos anos em Berlim, que envolve filósofos, artistas, teóricos e críticos da cultura e da arte de várias partes do mundo. Pessoas são escolhidas por serem representativas e capazes de fornecer panoramas do estado da arte e indicadores das tendências da cultura e arte midiáticas.

Sendo o tema de 2014 o pós-digital, surge a pergunta: o que é o digital? De resto, uma pergunta não facilmente respondível. Qualquer coisa que é criada no computador? Qualquer coisa que esteja em uma tela eletrônica? Que resulta de um código? Que é ativo? Que está em rede?

Se nem o digital está claro, o que se quer dizer com pós-digital? A explicação, no Transmediale, foi dada por meio do seguinte subtítulo: o resto de brilho do midiático, ou ainda, o resto de luz do crepúsculo do midiático. A poeira que se levanta no crepúsculo e o lixo que não dá mais para empurrar para as margens.

O tom é nitidamente de ressaca: o que sobrou do sonho e das utopias midiáticas. Mas, ao mesmo tempo, o pós-digital é colocado como momento de reflexão em que é ainda possível desenvolver críticas e práticas transversais que atravessam diversos campos culturais.

Os subtemas abordados nas palestras nos ajudam a compreender melhor as questões. São eles:

  • A materialidade do digital de uma perspectiva geofísica e geopolítica.
  • O que entra pela porta dos fundos do digital, especialmente o hackativismo.
  • O corpo do digital e suas implicações na identidade, sexualidade e prazer como meio para se refletir sobre a política e a cultura.

Os tópicos dos subtemas versam sobre o seguinte:

A informação quer ser livre. Mas, diante da vigilância e do controle geopolítico crescentes, os direitos digitais devem preservar a liberdade de expressão, a privacidade on-line e a acessibilidade da informação. É o que reivindicam os hackers, ativistas e artistas.

O uso e abuso militar dos atributos geográficos. O controle geopolítico do Estado e das corporações.

As ambivalências irresolvíveis entre o fragmentário e o múltiplo, a vigilância e a privacidade, o analógico e o digital, o físico e o virtual, o real e algo mais, o visível e o invisível — e como o big data estufou a cultura digital de contradições.

O lixo digital que também invade nossas vidas cotidianas.

O lixo antropogênico e a crise ontológica da natureza. Da sopa biótica à sopa plástica. As moléculas sintéticas derivadas do plástico que hoje pululam nas águas dos oceanos criando novas formas de vida, pós-biológicas e novas paisagens pós-naturais.

Formas de vida de grande complexidade derivadas do surplus tóxico que levam do antropocentrismo ao antropo-de-centrismo.

Os sentidos e a mídia. Não apenas o que fazemos com as tecnologias, mas muito mais o que elas fazem conosco. A reprogramação de nossa vida sensorial.

Como as intervenções inventivas têm de estar atentas aos processos invisíveis que correm nos subterrâneos das redes.

Os dados invisíveis subjacentes às ciências biológicas, aos laboratórios científicos de pesquisa e aos nossos corpos.

Os anti-ambientes da arte, no sentido de McLuhan, como contrapontos ao habitat estatístico invisível no qual vivemos. Depois do reconhecimento produtivo da cultura digital e do desvelamento de sua estética, como ficará a arte na era da computação invisível distribuída pelo ambiente? Os artistas híbridos: artistas, performers, cientistas da computação e programadores.

Trabalho em rede é, por natureza, trabalho de arte. O ponto não é produzir objetos artísticos, mas gerar contextos de conectividade que são emergentes e imprevisíveis.

A resistência ética dos artistas.

Por fim, como as práticas de pesquisa ficarão afetadas pelo pós-digital? Respostas para isso podem ser encontradas no Newspaper Post-Digital Research, devidamente publicado para acompanhar o evento.

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3 comentários sobre “Pós-digital: por quê?

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