Narrativa Transmídia — Entrevistas: Vicente Gosciola e Maurício Mota

Por Thiago Mittermayer

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No início de dezembro de 2013 apresentei a pesquisa “Narrativa Transmídia e as Redes Sociais Digitais” como trabalho de conclusão do curso de graduação de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP.

Os objetivos da pesquisa eram analisar os processos e métodos de desenvolvimentos de projetos transmidiáticos, o panorama do Brasil na realização de tais projetos e verificar a utilização da narrativa transmídia nas redes sociais digitais. Algumas ideias iniciais foram lançadas em meu último post sobre o Twitterfiction.

Uma das etapas utilizadas no método de pesquisa foi a realização de duas entrevistas: a primeira, com o Prof. Dr. Vicente Gosciola, pesquisador da área; e a segunda, com Maurício Mota — produtor e desenvolvedor de projetos transmidiáticos. Vicente Gosciola é professor titular do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi e autor dos livros “Roteiro para as Novas Mídias: do Cinema às Mídias Interativas” (2010) e “Narrativas Transmedia: entre Teorías y Práticas” (2012). Já Maurício Mota é o responsável por trazer a narrativa transmídia para o Brasil e um dos cofundadores da produtora The Alchemists, nascida em 2008 no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

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É esta etapa de entrevistas que quero compartilhar com vocês:

Thiago Mittermayer: Qual a sua definição de narrativa transmídia?

Vicente Gosciola: Tenho dedicado todo o meu tempo de pesquisa nos últimos anos à conceituação de narrativa transmídia. Venho publicando a respeito e preparo um livro sobre o tema. Para não ser muito extenso, acho importante ressaltar: narrativa transmídia não é crossmedia, ela não é moda ou mania; narrativa transmídia é uma estratégia de comunicação; essa estratégia organiza uma história, dividindo-a em partes, ou até expandindo-as, e as oferece ao público por meio das plataformas que melhor possam expressá-las, ainda que de modo independente, mas garantindo o máximo de coerência entre elas e, sempre que possível, fazendo o melhor uso da cultura colaborativa e da participação dos fãs.

Mauricio Mota: Narrativa transmídia é uma narrativa — ficcional ou documental — contada de maneira a aprofundar a relação entre o usuário daquele texto, o autor e as plataformas onde aquela narrativa se dá. É uma história contada usando o melhor de cada plataforma e de maneira participativa, de acordo com a necessidade do autor e dos seus fãs.

Mittermayer: Você acredita que a principal dificuldade seja não ter padrões, processos e métodos para o desenvolvimento de projetos na área? Aponte aspectos positivos e negativos da narrativa transmídia.

Gosciola: Não acredito em modelos, a comunicação só é criativa fora dessas amarras. A teorização sobre a narrativa transmídia também depende desse desprendimento. Seria raso demais enumerar o positivo e o negativo da narrativa transmídia; as estratégias de comunicação assim são: as vivas têm seus defeitos, mas são bem-sucedidas apesar disso ou exatamente por isso, enquanto que as estratégias mortas…

Mota: A dificuldade principal é que os mercados nos quais a narrativa transmídia está envolvida — comunicação, mídia, publicidade, entretenimento — são mercados muito voláteis e que sempre estão em busca da próxima plataforma ou ideia inovadora. Não são mercados focados em perenidade ou desenvolvimento de processos. Sempre querem a próxima novidade que vá revolucionar o mercado e encantar o cliente. Uma outra dificuldade é que, com a vinda da narrativa transmídia para o Brasil — e sendo o responsável por trazê-la senti na pele —, as pessoas naturalmente focaram nas plataformas e não no conteúdo e na qualidade da história a ser contada. Dessa forma, temos péssimas histórias replicadas em muitas plataformas. Isto posto, acho que o processo e método mais importante a ser explorado é o de construir boas histórias. O transmídia vem depois. Acho que a narrativa transmídia só tem aspectos positivos. Os negativos vêm do mercado que a usa de maneira irresponsável.

Mittermayer: A indústria brasileira está pronta para desenvolver projetos transmidiáticos? Em quais níveis?

Gosciola: Ela já vem fazendo no mais alto nível, desde que haja orçamento para tanto. A narrativa transmídia não pede para ser glamorosa ou contundente, ela só quer estar junto ao seu público, que não é o público específico de transmídia — que não existe —, mas é o público que quer histórias, onde estiver, e delas quer participar.

Mota: Sim, no mesmo nível que Hollywood no que diz respeito a interatividade e participação. Mas ainda temos muito o que evoluir no que diz respeito a produção (escala e qualidade) e histórias bem contadas (roteiro, desenvolvimento).

Mittermayer: Dentre as redes sociais digitais de hoje, qual você acredita que melhor se encaixa com a estrutura da narrativa transmídia?

Gosciola: Qualquer rede social digital pode ser útil à narrativa transmídia, sem discriminação, desde que favoreça o encaminhamento da parte da história que lhe é incumbida ao seu público final.

Mota: Nenhuma. O foco deve ser SEMPRE a história. Não há melhor ou pior plataforma. E sim maior ou menos relevância com a sua história. “Quem converge são os públicos, e não as plataformas”, já diria Henry Jenkins.

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Interessou-se pelo tema? Uma evolução desta pesquisa está disponível aqui.

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3 comentários sobre “Narrativa Transmídia — Entrevistas: Vicente Gosciola e Maurício Mota

  1. Anamaria Rossi disse:

    Olá! Estou pesquisando sobre o tema transmídia para um máster que faço em Barcelona e me interessaria ter acesso ao seu trabalho. O link acima não funciona. Como posso acessá-lo?
    Desde já, obrigada.

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