Navegar é preciso: a vida cotidiana na era das World Families

Por Maria Collier de Mendonça

Escrevo este post tomada por tristeza e alegria. Parece contraditório? Não, o nome disso é saudade!

Na sexta-feira passada, choveu torrencialmente em São Paulo. Como o temporal congestionou o Aeroporto de Guarulhos, meu irmão e sua esposa, que voltavam para casa no Canadá, perderam o voo. Que surpresa boa! Por conta disso, nós passamos o sábado juntos e, à noite, eles finalmente embarcaram rumo à Calgary.

Faz tempo que a nossa comunicação acontece por meio de longas conversas via Skype, Facebook, telefone fixo ou celular. A família é grande: somos quatro irmãos, cada um mora com seu cônjuge e filhos numa cidade diferente, de modo que somente os nossos pais permaneceram no Recife.

Os sociólogos Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim lançaram há pouco Distant Love (2014): o livro explora as consequências da globalização na esfera íntima e afetiva. Está cada vez mais comum que netos e avós convivam diariamente utilizando o Skype ou outras redes sociais. Observa-se frequentemente, em distintos continentes, famílias formadas por casais com nacionalidades diferentes que vivem em um terceiro país, diferente de suas pátrias originais.

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Quando as relações de longa-distância tomam conta de nossos relacionamentos amorosos e de nossas famílias, espalhamo-nos por países, continentes e culturas. A partir dessas perspectivas, Beck e Beck-Gernsheim definiram o conceito de World Families, ou seja, quando o amor e os relacionamentos íntimos acontecem entre indivíduos ‘vivendo em’ ou ‘vindo de’ diferentes países e continentes. Nas suas mais variadas estruturações, as World Families apresentam a característica comum de incorporarem diferentes aspectos do mundo globalizado nas suas vidas pessoais e nos seus espaços de convivência íntima. Confusão, surpresa, tristeza e alegria — assim seguem suas vidas cotidianas e lidam com suas emoções.

Minha pergunta é: quanto à saudade, como lidar?

Não é novidade! A globalização motivou a migração de profissionais para novos países e continentes em busca de melhores oportunidades de trabalho. A socióloga holandesa Saskia Sassen escreveu sobre as cidades globais relacionando-as, por um lado, com a dinâmica da globalização dos mercados consumidores e, por outro, destacando consequentes questões de poder e desigualdade que se formam a partir desse fenômeno.

A economia global, marcada pelo fluxo do capital financeiro além das fronteiras nacionais, relaciona-se fortemente às cidades globais. Estas cidades concentram suas atividades econômicas nas indústrias de serviços especializados — financeiros, contábeis, de advocacia, telecomunicações, novas mídias — que operam como estruturas necessárias ao funcionamento das grandes corporações multinacionais, engendrando o sistema global. Desse modo, constitui-se uma economia em rede que envolve cidades globais, em diferentes continentes; as quais, por sua vez, participam de crescentes transações políticas, culturais, sociais e até criminais (Sassen, 2005, p. 40).

Já a documentarista polonesa, Iwona Markuszewska, desenvolveu sua pesquisa de mestrado na Universität Potsdam/ Alemanha e seu trabalho resultou no filme Airport Stories (2008). Sua investigação concentrou-se na geraçãodos modern nomads, composta por estudantes e graduados de variadas nacionalidades, na faixa de 20 a 50 anos — em maioria, solteiros que não residem nos seus países de origem.

Nesta pesquisa, Markuszewska apresenta o conceito de mobile home como uma nova ideia de casa ou pátria.Para a autora,a ideia de mobilidade origina-se de uma fusão entre globalização, turismo, brain drain e, naturalmente, migração.

O ponto alto na pesquisa de Markuszewska é a observação de que migração significa mudar de um local/país para outro com o objetivo de permanência no novo país. Portanto, migrantes tem duas casas/pátrias:a primeira, que foi deixada para trás, é frequentemente idealizada com a passagem do tempo, e a segunda ou nova casa/país.Já mobilidade não implica a permanência no novo país; na verdade, mobilidade nega a ideia de settlement. Consequentemente, para Markuszewska, esta nova geração móvel e flexível está redefinindo a home’s terminology. Afinal, a casa/pátria/home tornou-se móvelpara ajustar-se às necessidades de uma sociedade em transformação, na qual é preciso ‘ser capaz de levar sua casa consigo e evitar a saudade…’.

Markuszewska ainda ressalta que a mitologia da mobilidade tem sido construída a partir de códigos tipicamente turísticos, quando — paradoxalmente — mobilidade não vende férias, mas sim trabalho: nós somos móveis para nos ajustarmos a um mercado de trabalho globalizado. No entanto, esta ideologia turística tem sido divulgada nas produções cinematográficas, programas de TV e jornais, mostrando o esplendor dos países estrangeiros e  nos encorajando a fazer isto. Nesse contexto, as histórias de viajantes como heróis são contadas na literatura, no cinema, entre outras mídias…

Para finalizar este post, faço-lhes um convite: se assim somos, que sejamos inspirados pelo texto abaixo, disponível no site da Universidade de Coimbra, em Portugal, a casa/pátria dos nossos descobridores!

“Navegar é preciso, viver não é preciso” [?]
No século I a.c., o general romano Pompeu, encorajava marinheiros receosos, inaugurando a frase “Navigare necesse, vivere non est necesse.”

Corria o século XIV e o poeta italiano Petrarca transformava a expressão para “Navegar é preciso, viver não é preciso.”

“Quero para mim o espírito dessa frase”, escreveu depois Fernando Pessoa, confinando o seu sentido de vida à criação.

E cantando a coragem navegante, em jeito de fado brasileiro, Caetano Veloso escreveu Os Argonautas. “Navegar é preciso, viver …” Com um fim inacabado, a música lança as interrogações.

Navegar é preciso?
Sim! Navegar é uma viagem exata. Fazia-se com bússolas e astrolábios. Hoje, faz-se com satélites, GPS’ e www’s.

Viver não é preciso?
Não! É uma viagem feita de opções, medos, forças, inseguranças, persistências, constâncias e transições…

Mais de  dois mil anos depois, interrogamo-nos:
Viver não é preciso?
Não, quando navegar é sonhar, ousar, planejar, arriscar, empreender, realizar…
Porque aí, navegar é viver!

Bem-vindo, navegador!
A Universidade de Coimbra será sua companheira de navegação.
Neste momento de embarque apresentamos-lhe uma página que o vai guiar numa viagem segura e aliciante. Parta à descoberta de uma experiência acadêmica sem igual… Porque viver é acima de tudo im[preciso].

Universidade de Coimbra, Portugal, 2014.

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