Indivíduos sem individualidade e o discurso do coletivo

Por Patrícia Fanaya

Outro dia, em animado café com amigos, estávamos comentando como anda difícil entender o que se passa no mundo nos últimos tempos. Uma hora são as passeatas sem liderança e/ou discurso, noutra são encapuzados que saem por aí quebrando tudo sem explicação, ora são estupros coletivos ocorrendo à plena luz do dia, só para citar alguns exemplos. Meu amigo dizia não conseguir entender a lógica subjacente aos acontecimentos, pois, sem motivações claras ou um discurso unificador, coerente, tudo parece perder o sentido e cair no vazio.

Respondi ao meu amigo que enxergava, pelo menos, dois problemas a serem destrinchados, em sua visão:

  1. Uma lógica segundo a qual se aplica diretamente a lei da causalidade;
  2. Uma crença de que o discurso linear, unificado e coerente é a ferramenta capaz de explicar a realidade à nossa volta.

A lei da causalidade explica muita coisa, de fato; mas não tudo. Ela explica, por exemplo, que se eu lançar meu corpo de uma altura “x”, a gravidade me puxará em direção à terra e eu vou me esborrachar no chão — e posso até morrer. O que ela não explica é porque, por exemplo, bem-nascidos que têm acesso à educação de qualidade viajam pelo mundo e, teoricamente (pelo menos no discurso que propagam), querem um mundo de paz e harmonia, saem quebrando tudo por aí e chegam a amarrar gente em poste e a espancá-los até quase a morte. Parece-me que estamos diante da necessidade de outro tipo de lógica, pois essa não está mais dando conta da realidade complexa como ela se apresenta.

Na minha modesta opinião, disse ao amigo, sempre houve uma supervalorização do discurso como ferramenta capaz de explicar a realidade. Vejam bem, não estou dizendo que o discurso não seja uma ferramenta poderosíssima; aliás, ele tem poder até de criar outras, novas e até falsas realidades. O que estou dizendo é que há uma supervalorização em relação à sua capacidade de explicar a realidade.

Um discurso, por mais lógico, coerente e bem articulado que seja, é sempre uma versão, uma face da realidade que se apresenta. Nada mais do que isso. E essa versão não tem o poder de, por si só, explicar a realidade, pois a tal da realidade não nos é dada conhecer inteiramente e, como bem apontou Schopenhauer, todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo. O que, no máximo, esse discurso-versão é capaz de fazer é apresentar os argumentos, as razões e os objetivos daquele determinado agente, individual ou coletivo, num determinado tempo — e em determinado contexto e circunstância — dizer o que diz, como diz e para quem diz.

No entanto, essa lógica de comunicação linear, representada por agentes conhecidos, que assumem suas posições determinadas no processo de comunicação, a qual vigorou por décadas, não parece mais dar conta do fenômeno da comunicação nos tempos em que vivemos. A comunicação em rede e always on possui outra lógica, e não se consegue mais ter o controle do processo de comunicação.

Quem produz o discurso? Quem é o emissor? Quem é o receptor? Em que canais a comunicação está acontecendo? Essas questões não estão entre as mais fáceis de responder. O que se tem são questões complexas como a compressão do tempo, a convergência dos meios, o anonimato, a privacidade, entre tantos outros fatores que surgem com esse novo panorama e que abalam não só os sistemas de comunicação como foram estabelecidos no passado não muito distante, mas os sistemas sociais, culturais e legais. Esse é um panorama muito diferente daquele dos meios dominados por grandes grupos de comunicação com endereços fixos e profissionais contratados.

O fenômeno que talvez mais chame a minha atenção é aquele que passei a chamar de “indivíduos sem individualidade” — graças à minha inspiradora conversa com a Flaviana Lima, que também estava presente no café entre amigos e a quem dou o crédito da expressão que resumiu tudo em três palavras.

Seriado: One Tree Hill

Seriado: One Tree Hill

Os “indivíduos sem individualidade” surgem como um curioso produto da confusão, em minha opinião, muitas vezes conveniente e proposital, que se faz entre individualidade e individualismo. Vamos por partes com a explicação.

O fenômeno da emergência das novas tecnologias trouxe de volta ao discurso contemporâneo, com muita força, conceitos e palavras como colaboração, coletivo, compartilhamento, entre tantas outras que constituem o jargão da área.

O ressurgimento de uma espécie de homem colaborativo, voltado ao coletivo, disposto a compartilhar tudo — de ideias a dinheiro — surge, então, como um alento em tempos de reconhecido e alardeado individualismo exacerbado como o foram as décadas de oitenta e de noventa do século passado. Aos poucos, os termos e conceitos desse renovado discurso de colaboração, até então restrito às práticas do mundo da tecnologia, foram sendo (re)tomados por outras áreas e utilizados de acordo com a conveniência daqueles que o adotavam. E aí a confusão começou a reinar.

Individualidade é diferente de individualismo, assim como colaboração é diferente de colaboracionismo. Não se devem confundir as coisas, pois a história já nos mostrou que o preço a pagar é muito alto quando se tenta borrar as fronteiras semânticas para muito além dos limites das boas práticas gramaticais.

O indivíduo sem individualidade é aquele que ao mesmo tempo em que quer se destacar do coletivo por meio de artifícios dos mais variados, quer se diluir no meio do coletivismo para não ser reconhecido e nem ter que arcar com o ônus de suas escolhas, comportamentos e atitudes. O indivíduo sem individualidade é aquele que não tem um discurso próprio, pois está sempre disposto a assumir qualquer discurso pronto de um coletivismo sem rosto — afinal, ele não tem individualidade, é apenas mais um no meio de muitos. Essa é a estranha lógica da confusão conveniente que percebo estar vigendo hoje no mundo.

Mas essa é apenas a minha versão, prezados leitores. Pois, diferentemente dos indivíduos sem individualidade, ainda me permito ter a minha visão individual, mesmo que limitada pelas minhas experiências e passível de contestação, e a compartilho de bom grado com a coletividade. Porque, para uma pessoa como eu, cheia de individualidade e muito orgulhosa disso, se trataria de uma verdadeira morte em vida me ver diluída em qualquer espécie de coletivismo sem rosto. E qualquer amigo meu, com rosto, sabe bem disso.

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Um comentário sobre “Indivíduos sem individualidade e o discurso do coletivo

  1. Nivaldo disse:

    Boa sacada, sobretudo, essa da versão ou versões da realidade. Penso q essas coisas de ser Maria vai com as outras e não sei bem o faço aqui, sempre existiram, mas agora ganharam destaque dada a velocidade e as peculiaridades de nosso tempo (um segundo de fama etc., etc.). Assim, quero aparecer, preciso, mas como aparecer se sou leso? Daí diluir minha individualidade no coletivo me pareçe menos pior q me descobrirem, já q agora também recuso o sucesso do lar. Ou seja, há como q um algo a empurrar (para a cena dos acontecimentos) a pessoas para um “aparecer” uma tal necessidade que é preciso participar, mesmo sem q estas saibam ao certo para que. Assim o importante é sair (junto) na foto, para onde ela vai ou para quem serve tampouco interessa, desde que eu lá esteja. P.S.: não creio tratar-se de paradigma e ou sua quebras.

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