Redes livres na escola: práticas da aprendizagem em rede

Izabel Goudart

O movimento de redes livres vem crescendo na América Latina e no mundo disseminando a possibilidade de construção e empoderamento popular de uma comunicação livre e de uma rede distribuída acessível economicamente, gerida colaborativamente pelos próprios pares e aberta à comunidade. Tais princípios, transpostos para o ambiente escolar, propiciam uma experiência de apropriação crítica do conceito de redes colaborativas e de uso dos recursos digitais, autonomia na gestão e definição de recursos e a promoção de um ambiente propício para a aprendizagem em rede.

O coletivo brasileiro redeslivres.org.br apresenta uma síntese das principais característica das redes livres. Estas devem: garantir a descentralização e evitar a monopolização de recursos, a coerção e a opressão; respeitar a neutralidade da rede; garantir o acesso público e livre; possuir estrutura de rede distribuída, onde o crescimento é possível a partir de qualquer ponto existente; interconexão entre pares que podem publicar e receber serviços e conteúdos em igualdade de condições; promover a criação de outras redes livres, sua interconexão e interoperabilidade. As redes livres são também denominadas de inteligência coletiva para o bem comum em um site similar, o redelivre.org.br. No caso, tais  redes  são  definidas como algo que extrapola o mundo dos bits e propõe ser uma ponte entre pessoas e ideias, possibilitando a composição de novas sinapses colaborativas para o consciente coletivo.

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Baseada no uso do potencial da comunicação wireless, as redes livres funcionam como redes mesh, sendo assim também denominadas.  As redes mesh são redes descentralizadas onde diversos pontos se comunicam de modo que, se um cair, a rede continua em funcionamento. Utilizando o protocolo 802.1 (wireless) e o espectro disponível de 2,4 Hz a 5 Hz — por meio de roteadores, antenas e outros dispositivos aliados ao uso de softwares livres —, é possível criar com facilidade e baixo custo uma rede mesh comunitária.  Uma referência mundial é a guifi-net, rede de telecomunicações aberta, livre e neutra que na Catalunha (Espanha) implantou cerca de 24 mil nós, cobrindo uma área de cerca de 32 mil Km  de rede livre na Europa.

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Fonte: guifi-net.

Como essas experiências e princípios podem ser traduzidos em práticas de aprendizagem em rede na escola?

Em 2013, no CAp/UFRJ, alunos, docentes, funcionários e tutores convidados desenvolveram colaborativamente a primeira rede wi-fi e livre na escola. Inicialmente, foram mapeados os interesses da comunidade, dos serviços e modos de funcionamento dessa rede, a partir de uma dinâmica de prototipagem rápida e reflexão conjunta, que contou com a participação de alunos do ensino médio,  da graduação, funcionários, docentes e colaboradores visitantes, além dos tutores. Um computador em desuso foi metarreciclado para uso como servidor e programado com o Linux e outros softwares livres. A partir daí, foi possível implantar vários serviços como: chat coletivo,  construção de site (hotglue),  subir e baixar arquivos,  redes social própria, etc. Todos esses serviços ficam disponíveis para a comunidade acessar via celulares ou outros dispositivos móveis e computadores da instituição, independente da internet global, pois funcionam com uma rede própria construída e administrada pela comunidade. A instalação de roteadores com duas bandas (2,4 Hz e 5 Hz), cujos firmwares de fábrica foram substituídos por softwares livres, permitem facilmente programar uma rede mesh, além de propiciar uma velocidade de upload e download superior ao que normalmente acessamos.

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O projeto está em fase experimental e tem continuidade prevista para 2014. Há muito a investigar; mas o potencial para a implantação de uma aprendizagem que de fato articule uma rede dentro da comunidade — e que possibilite a apropriação crítica dos recursos — ficaram bem evidentes no modo como, principalmente, os alunos aderiram e se entusiasmaram com a ideia. Para saber mais, acesse e acompanhe as atualizações do projeto Aprender Brincando: uma experiência colaborativa, em labhiper.com.br.  Aprender Brincando foi premiado pelo Instituto Claro, em 2011, no edital Novas formas de aprender e empreender na escola com as novas tecnologias. A iniciativa é coordenada pela Prof.ª Izabel Goudart (CAp/UFRJ).

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