Fonte: http://www.jeanleongerome.org/Pollice-Verso-(Thumbs-Down).html

Tourette 2.0

Por Maria Ribeiro

O post começa com cenas de agressão explícita e desemboca no azulado polegar ereto do Facebook. Mas não antes de fazer (brevíssima) reflexão sobre games, detendo-se diante de um quadro do século XIX e quase encerrando a flanagem na beirada dos apontamentos feitos por Georges Albert Édouard Brutus Gilles de la Tourette. Já fui acusada de “confusão mental”, ao que prefiro a expressão barthesiana “voo de mosquitos”. “Voo de mosquitos” é, ainda assim, uma figura de modo que. De modo que meu lápis contornará um objeto específico: a comunicação violenta. Note não se tratar da CNV (Comunicação Não Violenta), processo desenvolvido pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg (1934 -). O caso é mesmo de pedra na vidraça e “sangue no zóio”.

Agressão explícita. O estado americano de Nova Jersey superou, em 2012, os 8 milhões e 800 mil habitantes. É o mais povoado e uma das menores extensões federativas dos E.U.A. Em algum lugar dos seus 22.608 km², criou-se um jogo de nome “Knocked Out” ou “Knockout King”. Um dia qualquer do ano de 2011, por volta da meia-noite, o pequeno grupo de adolescentes avança uma viela. O cinquentão Matthew Quain, funcionário de uma pizzaria, ricocheta no ar e desaba desacordado. Entre um episódio e o outro, a assustadora destreza demonstrada pelo “rei do nocaute”. A vítima, desde que sozinha e desatenta, é escolhida ao acaso. Pode ser judia, ciclista, imigrante, idosa, mulher. Um mendigo ou um executivo, já que os pertences do nocauteado são sequer examinados. Caso o alvo não caia inconsciente com os golpes do nomeado líder da rodada, o grupo se reúne para dar cabo da tarefa. A regra é simples e o objeto da violência deve ser gravemente ferido ou morto. Há imagens e nenhum adjetivo adequado: elas são o que são. Alguns ataques foram gravados pelos próprios adolescentes e outros capturados por câmeras de vigilância instaladas nas ruas.

Fonte: http://www.stltoday.com/news/local/crime-and-courts/st-louis-knockout-game-case-dismissed-after-witness-misses-court/article_6c93b0d4-3c83-11e1-afe7-0019bb30f31a.html

Figura 1. Matthew Quain dias depois do ataque

Games. São inúmeras as possibilidades de análise inscritas no fenômeno “Knockout King”. Um pesquisador de games, por exemplo, poderia considerar os desdobramentos da ideia de “jogo”. Quando lançado para dentro do ambiente virtual, o usuário reage a partir de estímulos sonoros, visuais e táteis (controles tremelicantes, assentos que sacodem etc.). É preciso, portanto, reorganizar os modos de interação, a fim de perscrutar a paisagem binária por meio de um avatar. Já o tête-à-tête, quando das nossas atividades rotineiras, dispensa a reordenação de experiências anteriores, privilegiando a ação ela mesma. Tal “dispensa” ocorre apenas em casos de situações repetidas, evidente. Assim, o indivíduo executa certo repertório diário, quase autômato, mal se apercebendo de nuanças extraordinárias. Se um adolescente, habituado ao circo romano das cidades, dos filmes, dos telejornais, reproduz ações similares a de um jogo eletrônico qualquer, como isolar as violências “real” e “virtual”? Ambas são “de fato”: há, diante do indivíduo, um humano ou um console.

(No meio de lunetas, relógios de pulso, marca-passos, memória expandida, hipermobilidade e biohackers está o embate da possibilidade e realidade… Bio-lógico, tecno-lógico e em razão de que razão um dado –logos é considerado o conveniente ou o adequado?).

Fonte: http://www.jeanleongerome.org/Pollice-Verso-(Thumbs-Down).html

Figura 2. “Pollice Verso” (1872). Obra do francês Jean-Léon Gérôme.

Quadro do século XIX. A obra “Pollice Verso”, pintada pelo francês Jean-Léon Gérôme, faz referência a certa prática comum nas arenas da Roma Antiga. A expressão latina significa “com o polegar virado” e registra a decisão da audiência sobre o destino do gladiador rendido. Há controvérsias sobre a posição do polegar (se para cima ou para baixo, na horizontal ou escondido entre os demais dedos da mão) e sua respectiva sentença (execução ou benevolência). A chamada Web 2.0, assim como qualquer território — tal qual espaço apropriado pelo homem — desvela aspectos contemporâneos daquilo que Marcel Mauss chamou de “fato social total” e que mereceria atenção maior do que a dedicada aqui. A prática do comentário violento é exemplo curioso. Ocupado em desqualificar a opinião alheia a partir do insulto, a observação crítica (do grego krinein, julgar) não surge com a Internet, é evidente. As cantigas de escárnio integram um gênero que remonta a Idade Média. E entre o Trovadorismo e o ano de 2013, a figura de Georges Albert Édouard Brutus Gilles de la Tourette. O médico francês dá nome à chamada Síndrome de Tourette (ST), uma patologia caracterizada por diversos tiques e que inclui um distúrbio chamado “cropalia”, o uso involuntário ou inapropriado de palavras obscenas. A ST é uma doença, de origem neuropsiquiátrica, não se confundindo com o costume de dirigir impropérios a amigos e desconhecidos. Já a figura que dá nome ao título, Tourette 2.0, tem como alvo as ideias de ubiquidade, como onipresença, e pervasividade, certa tendência para a propagação. Desde que conectados, numa espécie de amálgama entre biológico e tecnológico, já não podemos considerar as determinações singulares de dois universos apartados.

Fonte: http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2013/10/08/noticiasjornalcotidiano,3142424/jovens-que-esfaquearam-medica-na-praia-do-futuro-sao-apreendidas.shtml

Figura 3 – Comentários sobre a reportagem “Jovens que esfaquearam médica na Praia do Futuro são apreendidas”. Jornal O Povo, 8/10/2013.

(E a lembrança de um caso curioso. Nos Estados Unidos, final da década de 90, um casal de jovens atravessou a madrugada assistindo ao filme “Assassinos por Natureza” e consumindo metanfetamina. Decidiram, mais tarde, atirar em duas pessoas. Uma das vítimas morreu e a outra — uma caixa de loja de conveniência —, processou o diretor Oliver Stone e a Warner Brothers por incitação à violência. O tribunal americano privilegiou a liberdade de expressão, indeferindo o pedido de indenização. A jovem atingida pelo disparo ficou tetraplégica. Morreu, dois anos mais tarde, corroída por um câncer não diagnosticado. Aqui, o que é realidade? O que é ficção? Que linha determina o limite?).

A avaliação dos desdobramentos de redes sociais digitais tende partir de hardwares e softwares em direção ao homem. Quando o tráfego é, senão, simultâneo, de uma via para a outra. Tão incendiados pelas análises sobre a exibição da violência (nos telejornais, nas novelas, nas caixas de comentários), seguimos alheios aos modos de extinção das fagulhas. O resultado é uma espécie de círculo imaginário, cuja força centrípeta nos engole. Para dentro do círculo, o cotidiano põe de joelhos a realidade fantástica dos livros. Estamos no quarto de despejos, colecionando recortes amarelados, exibindo nossos polegares — desde a Roma Antiga — e cuspindo centelhas no próprio espelho. O inferno é a timeline do outro.

FBGUN_Sociotramas

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