O livro será eterno?

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Nunca se falou tanto do livro quanto nas duas últimas décadas. Isso coincidiu com a emergência da cultura digital, que justamente permitiu o salto da linguagem escrita do papel para as memórias dos computadores — e para as telas eletrônicas, as quais têm se multiplicado nos últimos anos: do desktop para o laptop, destes para os smartphones e, mais recentemente, para os i-pads e os tablets em geral.

Nesse contexto, a questão do livro veio à baila em função das inquietações e mesmo angústia diante do seu destino e de suas consequências sobre a leitura e a cognição.

Para contextualizar o problema no Brasil, é preciso considerar, antes de tudo, que vivemos em um país que, comprovadamente, não lê. Embora as vendas de livros possam ter aumentado, isso não muda essa constatação, à revelia daqueles que pretendem refutá-la. Hábitos de leitura não foram adquiridos e cultivados neste país.

A cultura do livro não chegou a se sedimentar no Brasil com a força que teve na Europa, por exemplo. Essa condição de carência foi atropelada pela emergência da cultura digital, que está tendo penetração intensa — tal como teve anteriormente (e continua tendo) a cultura de massas; em especial, a televisão. Segundo dados da revista Isto é, “os brasileiros são os que mais usam mídias sociais no mundo, superando países mais populosos como Estados Unidos, Índia e China”.

Mas quando falamos das redes digitais, do que é que estamos falando? Trata-se de um mundo extremamente complexo, com uma diversidade de faces. Por exemplo: as redes sociais, os blogs, as wikipedias, os serviços de busca que nos levam a quaisquer informações que buscamos, a deep web etc. Esta é uma terra de todos e de ninguém. Há nela tanto conteúdos preciosos quanto o lixo mais descartável. Certamente esse universo está gerando um novo tipo de leitor que chamo de imersivo e, agora, com os equipamentos móveis, esse leitor passou a ser ubíquo: leitor de prontidão em qualquer lugar e a qualquer hora.

Esse leitor é um prossumidor, num universo em que as posições entre autor e leitor são comutáveis. O leitor pode interferir, comentar sobre a informação que recebe e tem meios de se transformar em autor ele mesmo, pois há plataformas que facilitam isso. Os laços criados nas redes sociais são voláteis, pássaros voadores e migrantes. Quanto às informações que as redes trazem, elas variam entre trivialidades do cotidiano — quando as redes funcionam mais como fluxos de trânsito da afetividade — ou fornecem links de informação.

Os processos cognitivos desenvolvidos pelo leitor das redes, leitor que salta de uma informação hipermídia à outra, é bastante distinto dos processos cognitivos próprios da leitura do texto escrito. Quando falamos de livro, portanto, é ao texto escrito que estamos nos referindo. É preciso considerar que, nas condições atuais, o livro não se limita mais ao livro impresso em papel. Trata-se de um território que está se multiplicando em uma diversidade de possibilidades. Há vários formatos de livros digitais, desde a simples transposição do impresso ao digital, até os livros que exploram todo o potencial para a hipermídia e mistura de linguagens que o digital possibilita.

Creio que o mercado editorial está alerta a essa fase de transição que estamos atravessando, em que o livro impresso ainda continua vivo e vem se complementando com suas variadas formas digitais. Vivemos um momento em que, em todas as áreas de comunicação, devem ser encontradas estratégias para conviver com essa fase de transição entre o impresso e o digital.

A transposição do impresso ao digital, no caso do livro, não significa, como pensam alguns, que a cultura do livro encontrou o seu crepúsculo. Ao contrário, o que costumávamos chamar de livro impresso está agora se desdobrando em variadas formas de livros — formas imprescindíveis, pois seria impossível especializar-se em um assunto sem a continuidade e crescimento da complexidade da informação que o livro possibilita tão logo ele encontre um leitor concentrado. Isso é muito diferente das buscas que fazemos nas redes.

De fato, encontramos quase tudo que precisamos nas redes, mas desprovido de sistematização. Navegar pelas redes enseja outra forma de conhecimento. Ou a rede é meramente informativa para assuntos imediatos, ou, então, a informação fragmentada que ela nos fornece apenas ajuda a incrementar informações que obtemos em livros. Por isso mesmo, tanto quanto posso ver, o livro será eterno, especialmente para a informação especializada. Em suma, livros digitais continuam sendo livros e cumprindo funções que o livro sempre desempenhou; ou seja, livro é um modo específico de configuração da informação, esteja ele no impresso ou no digital.

Fica a pergunta: será que o desdobramento dos livros nos seus formatos digitais vai ajudar a superar a endêmica anemia para a leitura neste país? Embora não tenha muita esperança em relação a isso, dada a crescente calamidade da educação no Brasil, só o futuro poderá responder, na medida em que vontades políticas bem informadas e coerentes entrem em ação.

Por Lucia Santaella

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3 comentários sobre “O livro será eterno?

  1. Regina Azevedo disse:

    Penso que os formatos digitais só contribuirão para difundir a leitura se cumprirem o papel fundamental de baratear os livros no seu formato eletrônico. algo que a indústria editorial, até o momento, se recusa a fazer.

  2. gimarmo disse:

    Sim, será eterno!! E que assim seja!! Assim como o rádio não desapareceu só porque o Ipod e outros surgiram. As tecnologias estão aí para simbolizar uma sociedade em evolução e que muitos outros leitores e formatos sejam criados.

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