Lulu, Tubby, guerra entre os gêneros e mixofobia

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As novas redes sociais seguem quase sempre um princípio de nicho e, ao contrário do Facebook, cujo principal propósito parece integrar a todos, as novas redes buscam cada vez mais uma audiência específica agindo de maneira objetiva e limitada. É o caso do aplicativo Lulu, direcionado apenas para mulheres com o objetivo único de fazer com que as usuárias classifiquem seus antigos envolvimentos românticos, afetivos ou sexuais. Os homens são avaliados de acordo com um teste, respondido pela avaliadora, e um número de hashtags que ela usará para defini-lo. A combinação das duas formas de avaliação resultam em uma nota e em um grupo de hashtags que definirão a performance de cada um dos filhos de Marte.

Logo após uma enchente de vídeos de sexo caseiro compartilhados aos milhares e viralizados, resultando em destruição de reputação de algumas jovens mulheres apenas por serem vistas em um ato sexual, Lulu surgiu entre os hábitos online e já se mostrou para o mundo com nuanças de vingança, retaliação: é a vez das mulheres.

Um dos aspectos mais interessantes entre os observados é a cadeia de ações e reações ligadas ao popular e infame aplicativo. É, contudo, a divisão clara entre os gêneros que fica sob os holofotes de toda a discussão. Os clubes da Lulu e do Bolinha delimitam suas funções e territórios quando os homens prometeram  um aplicativo que avaliaria a performance sexual das mulheres, o Tubby — já foi provado que era mentira e o programa nunca existiu. A história da “guerra dos sexos” ganha um novo capítulo na era digital no qual a visão feminina sobre o desempenho de seus companheiros coloca em cheque a posição de dominância masculina em se tratando da visão social dos relacionamentos afetivos. Um longo caminho nos trouxe até aqui e Bauman tenta explicar parte dessa trajetória:

Retrospectivamente, pode-se dizer que a divisão em classes (ou em gêneros) foi um resultado secundário do acesso desigual aos recursos necessários para tornar a auto-afirmação eficaz. As classes diferiam na gama de identidades disponíveis e na facilidade de escolher entre elas e adotá-las. As pessoas com menos recursos e, portanto, com menos escolha, tinham que compensar suas fraquezas individuais pela “força do nómero” – cerrando fileiras e partindo para a ação coletiva. […] O “coletivismo” foi a primeira opção de estratégia para aqueles situados na ponta receptora da individualização mas incapazes de se auto-afirmar enquanto indivíduos se limitados a seus próprios recursos individuais, claramente inadequados. (BAUMAN, 2001. P.30)

Bauman fala da modernidade líquida e do amor líquido e quase sempre indaga sobre a busca de identidade nos tempos modernos. Apesar de definir bem a época em que vivemos e de até parecer munido de certo senso de precognição, Bauman comenta sobre homens e mulheres como operadores globais atuando ainda por meio de um eco do ser humano pré-moderno:

[…] Mas isso não significa que, na busca pelo “sentido e identidade” de que eles necessitam e anseiam de modo não menos intenso do que as outras pessoas, os membros da elite globalmente conectada possam desconsiderar o lugar em que vivem e trabalham. Como todos os outros homens e mulheres, eles são parte da paisagem humana, e nela estão registradas as suas vacilantes aspirações existenciais. Como operadores globais, podem perambular pelo ciberespaço. Mas como agentes humanos estão, dia após dia, confinados ao espaço físico em que operam, ao ambiente preestabelecido e continuamente reprocessado no curso de suas lutas por sentido e identidade. A experiência humana é formada e compilada, a partilha da vida é administrada, seu significado é concebido, absorvido e negociado em torno de lugares. E é nos lugares e a partir deles que os impulsos e desejos humanos são gerados e incubados, que vivem na esperança de se realizarem, que se arriscam a se frustrar e, na verdade, com muita freqüência, se frustram. (BAUMAN, 2004. P.58)

Explicar a mistura de medo e fascinação recríproca de um gênero pelo seu oposto necessitaria de uma viagem retrospectiva dos primórdios da civilização — talvez até da biologia — até os dias de hoje, e não cabe em um texto como esse. Cabe, sim, o questionamento sobre a atuação de homens e mulheres conectados em rede agindo com ferramentas pós-modernas; porém, a partir de pensamentos medievais. O desnudamento dos defeitos de um indivíduo do gênero oposto, a violação de privacidade e a avaliação impetuosa geram uma espécie de violência. O cyberbullying, termo bastante discutido recentemente que veio explicar o comportamento de crianças e adolescentes que depreciam moralmente seus semelhantes à sombra do anonimato da internet, possivelmente encontrou outro terreno fértil: a mágoa entre casais que não deram certo e, pior ainda, a mágoa carregada geração após geração sobre a injusta distribuição de identidades entre os gêneros. Classificada como injusta é a distribuição de papéis e identidades entre os gêneros, pois, sob o ponto de vista de um observador, ambos parecem descontentes e desconfortáveis com suas opções.

Há tanto para se falar sobre o Lulu que é necessário que fique claro o recorte desse texto. É necessário que seja negligenciada uma porção razoável do histórico da cultura da sociedade patriarcal e dos estudos feministas que propõem igualdade de gênero e que se reflita sobre ambos os gêneros; ou sobre gênero nenhum. Falemos de espécie, da espécie humana e sobre o que Bauman classifica como mixofobia. Ele define esse sentimento como “aquela sensibilidade alérgica e febril aos estranhos e ao desconhecido”, comenta o assunto e ainda chega ao que poderia ser uma descrição magistral sobre o embate mixofóbico entre gêneros que tem tomado conta do universo online:

Mais que qualquer outra coisa, os sentimentos mixofóbicos são estimulados e alimentados por uma sensação de insegurança esmagadora. Homens e mulheres inseguros, incertos de seu lugar no mundo, de suas perspectivas de vida e dos efeitos de suas próprias ações, são mais vulneráveis à tentação mixofóbica e mais propensos a caírem em sua armadilha. Esta consiste em canalizar a ansiedade para longe de suas verdadeiras raízes e descarregá-la sobre alvos que não se relacionam às suas fontes. Como resultado, muitos seres humanos são vitimizados (e no longo prazo os vitimizadores atraem, por sua vez, a vitimização), enquanto as fontes da angústia permanecem protegidas da interferência, emergindo sãs e salvas dessa operação. (BAUMAN,  2004. P.64)

Bauman aponta a angústia da existência pós-moderna como principal causa do efeito potencialmente destrutivo dos relacionamentos da era atual, sejam eles on-line ou off-line, à medida que a linha entre ambos se torna cada vez mais turva. Assim como quando os assuntos pautados giravam em torno das mídias de massa e teóricos acadêmicos se dividiam, como propusera Umberto Eco, entre apocalípticos e integrados, também o universo dos estudos de ambientes digitais parece sofrer de tal dualidade: entre aqueles que tendem à condenação e absolvição sumária dos relacionamentos em meios digitais por meio de redes sociais.

Bauman reconhece a fúria da “individualização” da pós-modernidade e mostra como os relacionamentos são bençãos ambíguas, oscilando entre sonho e pesadelo sem ter como determinar quando um se transforma no outro. Ambos coabitam diferentes níveis de consciência: no líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns e perturbadores da ambivalência. É por isso que se  encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos-por-decreto, e no topo de sua agenda existencial.

Há um sentimento de busca nos relacionamentos nas redes sociais, por isso se proliferam aplicativos e redes que promovem a paquera e o envolvimento romântico daqueles até então desconhecidos ou semiconhecidos. Mas há também o senso de embate, o escape da frustração diante da árdua tarefa de amadurecer e criar para si uma identidade no mundo líquido e vasto.  É isso que a mixofobia de Bauman representa: o medo do outro. A contradição do momento das redes sociais reside justamente nesse medo que gera violência entre gêneros, afastando e colocando-os em combate numa arena digital — quando, ao fim, em um nível profundo, no âmago, na alma, em nível biológico (e quiçá atômico) os gêneros busquem se completar. É o momento de levantar a bandeira branca.

Por Eduardo d’Ávila

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