A religação no ciberespaço: ORDEM-DESORDEM-INTERAÇÕES-ORGANIZAÇÃO

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“O narrador conta o que ele extrai da experiência — sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história.” Walter Benjamin

Eu não conheço Landa pessoalmente, ou se conheço, en passant, certamente nunca tivemos uma troca presencial que pudesse autorizar – nos moldes antigos – a denominação da mesma como colega ou amiga. Não temos experiências e trocas em nenhum nível presencial. Não moramos na mesma cidade, nem nossas famílias se conhecem, mas, curiosamente, temos 355 amigos em comum no Facebook e, deve ser por isso, nos tornamos amigas virtuais.

Ela está entre meus amigos: recebo suas atualizações e, por algumas vezes, entre diversas afinidades que temos, cruzamos comentários e “curtir” em posts de amigos em comum, como acenos silenciosos que aquiescem nossa “relação”. Daí que nessa relação silenciosa e aquiescente, por meio de autorretratos virtuais, confissões, desabafos, comemorações cotidianas expressadas em posts, fotos e vídeos, acabamos por saber uma da vida da outra… Tenho certeza de que Landa sabe das minhas recentes preocupações como eu conheço um pouco de sua casa, vida, família. Sei que houve problemas de saúde na família, e que aparentemente anda de romance renovado com o marido; que Lelê, sua filha, está crescida, que canta quando o pai toca piano e já plantou o famoso feijãozinho no algodão. E, bem, foi a Lelê — filha da Landa — que me motivou a escrever este post sobre memórias/vivências virtuais e sua relação na constituição de redes afetivas, ou melhor dizendo, na religação da sociedade por meio do mundo digital.

É normal que eu tenha vibrado quando os filhos de Micheline e Eva foram aprovados no vestibular, ou com as primeiras palavras da filha caçula da Márcia: estes jovens fazem parte de minha história. Trabalhei com os pais, conheci pessoalmente os filhos. Logo, sinto-me emocionada e até mesmo um pouco responsável pelo futuro deles. Ora, se vierem até mim, sinto pelo afeto construído a obrigação quase familiar de lhes dar, se preciso, algum suporte. Porque é assim que funciona em sociedade: “quem ama os seus”, diz o ditado popular, ”não degenera”.

Mas voltando ao assunto principal, o que tem Lelê nisso tudo?

Lelê é uma metáfora da sociedade pós-humana e do poder de religação das redes sociais. Lelê está na minha memória afetiva, mesmo que eu nunca tenha a conhecido pessoalmente — ou a seus pais!

“Todo olhar sobre a ética, deve perceber que o ato moral é um ato individual de religação; religação com um outro; religação com uma comunidade, religação com uma sociedade e, no limite, religação com a espécie humana.”

Edgar Morin

Há alguns dias, vi um vídeo de Lelê dançando e cantando (canto lírico!) enquanto o pai tocava piano… Fiquei emocionada. E me peguei imaginando Lelê mocinha, apresentando-se em um recital em que eu certamente faria questão de participar. Orgulhosa, decerto, como se fosse filha minha ou de alguma amiga próxima. Mas qual o porquê desse sentimento? Explico: apesar de nunca ter convivido pessoalmente com Lelê, eu acompanho sua vida pelo Facebook desde seu nascimento até suas primeiras incursões pela casa, fazendo descobertas, abrindo armários… Vivendo a vida de um bebê de apartamento. Eu posso mesmo lembrar do rosto de Lelê bebê assistindo TV ou de seu rostinho com catapora ao lado dos pais. Eu não estava lá, mas eu (vi)venciei no Facebook. Então, quando eu vejo Lelê grandinha, cantando e dançando, sinto como se ela fosse também parte da minha vida; e, sem perceber, sinto-me ligada socialmente a ela e a seu futuro.

Diz Morin (O método — Tomo 6, A Ética) que as sociedades humanas desenvolveram e complexificaram esse duplo caráter sociológico, o de Gesellschaft (relações de interesse e rivalidade) e de Gemeinschaft (comunidade), ou seja, o sentimento de comunidade é e será fonte de responsabilidade e de solidariedade — sendo estas por seu turno, fontes de ética. Isso, claro, relaciona-se nesta sociedade pós-humana a esta necessidade quase visceral de religação que os indivíduos vêm demonstrando no ciberespaço; notadamente, nas redes sociais digitais.

Esse desejo de religar(-se), acompanhado por uma nova ética de existir, aponta para a formação de novos núcleos sociais, compostos por elementos antes impensáveis na constituição de uma rede: os estranhos. O que por um lado pode ser amedrontador e nos induzir a pensar na total falta de controle e proteção; mas que, por outro, inegavelmente, nos dá uma esperança (quase-ingênua) de que, por meio da religação da humanidade, podemos viver numa sociedade mais humana, responsável e que reaprenda a cuidar do outro.

“Num minúsculo mundo planeta perdido, feito de um agregado de detritos de uma estrela desaparecida, fadada aparentemente às convulsões, tormentas, erupções, terremotos, a vida surgiu como uma vitória inusitada das virtudes da religação.”

Edgar Morin

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Por Kalynka Cruz

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