Alguém viu um passarinho verde aí?

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O IPO (sigla em inglês para Ofertas Públicas de Ações) do Twitter  na semana passada impressionou a audiência fora e dentro da rede. O valor captado só ficou abaixo do Facebook — e foi maior que o do Google e da Amazon quando da abertura de capital dessas empresas. Essas redes sociais foram melhor valoradas do que as grandes empresas da internet mencionadas. É preciso certamente tirar o quesito “momento”, pois a Amazon e o Google abriram capital mais próximo ao estouro da bolha da internet.

Nos últimos anos, o mercado de investimento ganhou maturidade e conhecimento sobre as empresas de tecnologia, vide o ganho da Nasdaq, bolsa de valores destinada a empresas de tecnologia. Mas creio que os sucessos dos IPOs do Facebook e, agora, do Twitter, não se devem ao aspecto tecnológico. Devem-se ao fato destas empresas reunirem, conectarem e usarem os laços estabelecidos entre as pessoas. O valor das ações do Twitter subiu de US$ 26 para US$ 44 — US$ 9 logo após o lançamento: um aumento de 76%. Trata-se de um valor inicial possivelmente subestimado; ou, talvez, a oferta inicial proposta pelos analistas financeiros não considerasse tamanha demanda, pois a empresa apresentava alguns impeditivos para tanto sucesso: uma dívida de cerca de US$ 65 milhões e uma receita que ainda poucos compreendem.

“Sim, eles ganham dinheiro com a publicidade!” Tive que repetir esta frase algumas vezes em um curso sobre redes sociais, quando perguntei para os alunos como eles pensavam que o Facebook e o Twitter ganham dinheiro e, para minha surpresa, não sabiam dizer. Não é fácil entender como ganha dinheiro uma empresa cuja publicidade se confunde com conteúdo. Além disso, estas plataformas misturam os papéis dos tais stakeholders de uma empresa tradicional: os usuários são clientes, trabalhadores, audiência — e, agora, podem ser investidores. A revista Time, satirizando a situação de trabalharmos para o sucesso do IPO do Twitter, criou um site em que você pode saber, pela sua audiência no microblog, o quanto deveria receber também com o IPO. Isto, se você fosse sócio, além de trabalhador voluntário do Twitter…

É notória a supervalorização do microblog e o fato de que estamos dando mais valor ao intangível, às relações entre as pessoas — que ora estão conectadas por um meio, ora por outro. Vide o fenômeno do Orkut no Brasil anos atrás e a migração de parte de sua audiência para o Facebook. O valor da ação do Twitter aponta o dinheiro que estamos associando aos elos sociais da rede, sejam eles abstratos ou concretos, afetivos ou comerciais — possivelmente, ambos. Mas é preciso ainda aguardar algumas semanas para a estabilização dos preços das ações. É comum a qualquer empresa que abre capital que, logo no início, o valor das ações suba pela grande procura e que depois se estabilize em patamares mais próximos à realidade de mercado.

Outros dois aspectos notórios destas empresas é que elas concentram capital e, apesar de serem empresas de massa, se usam da segmentação para existir.

O mundo dos negócios parece continuar como Pareto demostrou: 80% da riqueza está nas mãos de 20% das pessoas. Certamente há chance para novos entrantes e há quem entra e quem saia da pirâmide de capital, mas as empresas de tecnologia não parecem ter popularizado os ganhos — não distribuíram mais dinheiro por aí. Sabe-se que o IPO do microblog deixou mais ricos os fundadores e há rumores de que 50% das ações foram vendidas para grandes corporações.

Nas mídias tradicionais, pode ser antagônica a ideia de segmentação e de massa.  Mas no Twitter e no Facebook, a massa é quem cria a segmentação. Há também uma confusão aqui: estas são mesmo plataformas segmentadas? Eu as entendo como os sites de massa das redes sociais. Todos nós já tivemos a impressão de ver temas dispensáveis no Facebook, posts que não nos dizem respeito, que falam demais sobre pessoas e assuntos distantes dos nossos interesses. À primeira vista, é interessante; mas, se já olhamos a grama do vizinho suficientemente para nos caracterizar como curiosos, acredito que é preciso um filtro ainda maior que o “seguir”, que estar presente na mesma rede ou criar grupos de amigos.

É possível segmentar mais e melhor. O Facebook e o Twitter possibilitam a segmentação, mas não são redes segmentadas. Existem aplicativos e sites que se usam do Facebook para conectar a lista de amigos, que apesar de trabalharem bem a questão da segmentação, pouco conseguem fazer para reunir pessoas. Os mesmos alunos que não entendiam da captação de receitas nas redes sociais me alertaram: encontramos mais de 40 redes sociais semelhantes ao Facebook na web, com assuntos que vão da música à gastronomia! Quantas redes segmentadas você conhece? Talvez muitos se lembrem das redes de relacionamento.

Fonte: Terra e Reuter, 2013.

Fonte: Terra e Reuter, 2013.

De qualquer forma, se a internet é mesmo um bom caminho para a segmentação, é preciso ainda observar que tal segmentação ajuda indiretamente a concentração de audiência e de venda, como mencionou Chris Anderson; e que as plataformas são um meio para conectar interesses e elos comuns entre as pessoas. Basta observar mais e melhor o que liga as pessoas, que novas segmentações — e novas redes sociais — poderão surgir.  Mesmo que ainda verdes, talvez possam voar tão alto quanto o passarinho do Twitter; afinal, trarão audiência especializada. Só espero que consigam distribuir mais dinheiro!

Por Patricia Huelsen

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