Consumo colaborativo: uma nova prática em rede

No ano passado, conheci o Sabbatical Homes. Criado em 2000 por um casal de acadêmicos que precisava viajar e hospedar-se em residências temporárias durante seus períodos sabáticos, o website surgiu com o objetivo de facilitar a vida de professores, pesquisadores acadêmicos e funcionários de universidades que desejavam buscar ou oferecer casas para aluguel, moradia compartilhada (home sharing) ou troca (swap). Baseado nos Estados Unidos, o Sabbatical Homes cresceu e atualmente já oferece imóveis em diversos países e continentes.

A princípio, a ideia de morar na casa de uma família desconhecida me parecia estranha, mas eu precisava encontrar um local para morar durante sete meses no Canadá — enquanto faria meu doutorado sanduíche. Eram muitas novidades: o país, a língua, a cidade e, agora, também a casa! A praticidade de chegar lá e já ter tudo mobiliado me convenceu! No final das contas, todos saíram ganhando: minha família e meus “landlords” — que foram para a África, rodar um documentário, e para Harvard, escrever um livro.

Ao visitar Montreal, já familiarizada com a experiência antropológica de morar na casa de outras pessoas, aluguei novamente um apartamento mobiliado por três dias; desta vez, no site Airbnb! Em seguida, conheci alguns parques da cidade usando o serviço Bixi, no qual bicicletas de uso compartilhado ficam disponíveis em pontos específicos da cidade e pagamos pelo tempo utilizado. Até aquele momento, eu não sabia, mas o nome desse “jogo” era “consumo colaborativo”! Experimentei, gostei e fui pesquisar!

A Wikipedia define “collaborative consumption” (consumo colaborativo) como arranjos econômicos nos quais os participantes compartilham o acesso a produtos ou serviços, em vez de possuírem individualmente estes bens ou serviços. Frequentemente, este modelo de negócios é viabilizado por meio da tecnologia, redes sociais e de “peer communities” (a expressão “peer-to-peer” significa “par-a-par”, “ponto-a-ponto”, “pessoa-a-pessoa”).

A lógica em rede, tão presente na forma como nos comunicamos, está intimamente relacionada à prática do consumo colaborativo. Em ambas atividades, diferentes pontos de uma rede compartilham interesses comuns. No caso do consumo colaborativo, estes interesses vão além dos carros (ZipCar, Autoshare, Car2Go), bicicletas (Bixi) ou moradias (Sabbatical Homes, Airbnb). A lista é grande e inclui as mais diversas transações (objetos pessoais, roupas, acessórios, aulas variadas, serviços de jardinagem, cuidado de animais)… Mais exemplos de sua extensão podem ser conferidos no vídeo ou no link: http://www.collaborativeconsumption.com/directory.

Segundo a Wikipedia, o conceito do consumo colaborativo foi cunhado em 1978 por Marcus Felson e Joe L. Spaeth. A partir de 2010, Rachel Botsman e Roo Rogers promoveram a discussão do tema no cenário internacional com o lançamento do livro “What’s mine Is Yours: The Rise of Collaborative Consumption”. Em seguida, Botsman passou a defender esta prática (vide: TED) como uma revolução em nossos modos de consumo e evidência do surgimento de uma nova economia, na qual a confiança tornou-se o bem mais valioso; e a noção de valor passou a ser gerada a partir do compartilhamento de recursos, balanceando interesses individuais e benefícios comunitários. Deste modo, conexões relevantes entre pessoas foram gerando novos mercados, nos quais as novas tecnologias facilitaram o ato de compartilhar bens, produtos e serviços de formas mais confiáveis e eficientes — fatores críticos para a consolidação dessas novas transações e modos de consumo.

Denise Cheng, estudante de pós graduação no MIT, tem pesquisado diferentes paradigmas de trabalho e práticas do consumo colaborativo. A pesquisadora ressalta que atualmente há menos trabalhadores contratados por tempo integral nos Estados Unidos do que havia em 2008. Cheng destaca que o paradigma do emprego tradicional “fulltime”, assalariado, está ruindo nos últimos anos. Nesse contexto, está surgindo uma comunidade de profissionais autônomos, terceirizados ou “freelancers”, na qual o movimento do consumo colaborativo tem se espalhado intensamente. Pensando nisso, a pesquisadora também traz à tona a necessidade de discutir questões como planos de carreira, segurança e benefícios trabalhistas para esta nova leva de profissionais “freelancers”, que ainda não se estabeleceram como “classe” nos Estados Unidos, mas que necessitam exercer suas práticas pautados por regras e direitos trabalhistas mais claros.

É indiscutível o quanto as tecnologias da informação e comunicação viabilizaram o trabalho e o consumo colaborativo, ao simplificarem a infraestrutura necessária à produção e comercialização de produtos e serviços. Cheng conclui que, nos Estados Unidos, os “early adopters” do consumo colaborativo geralmente são profissionais das áreas tecnológicas e criativas. Isto provavelmente se aplica se pensarmos nas metrópoles brasileiras (São Paulo, Rio, entre outras) e em grandes cidades globais (Sydney, Londres, Toronto, Paris, Barcelona, etc.).

Os benefícios são mútuos quando pensamos na economia de recursos para ambas as partes: ganha-se coletiva e individualmente. Da escassez de recursos, surge a necessidade de compartilhar usos de bens e produtos. Nesta prática, vale ressaltar o possível prolongamento da vida útil de certo bem, tanto quanto o melhor aproveitamento do tempo “ocioso” (de uma casa ou carro compartilhado, de uma roupa ou objeto trocado); afinal, o próprio tempo também tornou-se um recurso escasso…

Não se trata somente de um novo estilo de vida, ou do surgimento de uma nova economia… Frente a um cenário global em que incertezas predominam, profissionais — com empregos fixos ou remunerados com base nas horas trabalhadas ou “jobs” concluídos — repensam o valor e a importância que devem atribuir ao trabalho nas suas vidas. No sábado, 28 de setembro, a jornalista Marina Shifrin, postou um vídeo no Youtube comunicando que estava se demitindo da empresa taiwanesa Next Media Animation. Neste vídeo, enquanto a jovem dança, os letreiros relatam que, durante dois anos, ela sacrificou seu tempo, energia e relacionamentos em função do emprego. Para que isso? Em poucos dias, o vídeo atingiu 6 milhões de visualizações pelo mundo afora!

O movimento do consumo colaborativo levanta questões pertinentes e instiga a adoção de novas práticas: para que possuir algo individualmente, se é possível compartilhá-lo? Para que acumular, imobilizar ou descartar um recurso se é possível estender-lhe a vida útil? “Let us share! Welcome to Collaborative Consumption!”.

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Referências: http://en.wikipedia.org/wiki/Collaborative_consumption, http://www.collaborativeconsumption.com, http://midiapublicitaria.com/next-media-responde-ao-pedido-de-demissao-em-novo-video/

Por Maria Collier de Mendonça

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3 comentários sobre “Consumo colaborativo: uma nova prática em rede

  1. Silvia disse:

    Maria,
    Muito interessante o seu artigo. O Consumo Colaborativo parece ser uma tendência que veio para ficar. As pessoas estao experimentando o desapego….

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